A dúvida surge todos os anos e costuma dividir opiniões entre os fiéis: se a Quaresma é tempo de penitência, os domingos também são penitenciais? Seria proibido fazer mortificações? Em resumo, os domingos não são dias penitenciais. São dias do Senhor. Contudo, a mortificação vivida com amor, mesmo nesse dia, não contradiz a alegria cristã, quando nasce do desejo sincero de unir-se a Cristo. Entenda os detalhes na matéria!
O que diz o Código de Direito Canônico:
“No domingo e nos outros dias festivos de preceito os fiéis têm obrigação de participar na Missa, abstenham-se ainda daqueles trabalhos e negócios que impeçam o culto a prestar a Deus, a alegria própria do dia do Senhor (laetitiam diei Domini propriam), ou o devido repouso do espírito e do corpo.”
Se considerarmos que certas mortificações poderiam prejudicar “a alegria própria do dia do Senhor” ou “o devido repouso do espírito e do corpo”, poderíamos concluir que fazer penitência aos domingos seria contrário ao espírito do terceiro mandamento. Entretanto, poucos cânones adiante, a Igreja afirma:
“Os dias e tempos de penitência na Igreja universal são todas as sextas-feiras do ano e o tempo da Quaresma” (cân. 1250).
Se a Quaresma é tempo penitencial, o domingo está incluído ou não? O domingo nunca deixa de ser Páscoa. Para compreender corretamente, é preciso recordar um princípio fundamental da liturgia: o domingo é sempre o Dia do Senhor, celebração da Ressurreição.
“O domingo é o dia da Ressurreição de Cristo. É o dia por excelência da assembleia litúrgica, em que os fiéis se reúnem ‘para ouvir a Palavra de Deus e participar na Eucaristia, e assim recordar a Paixão, a Ressurreição e a glória do Senhor Jesus’.” (CIC 1167)
Por isso, mesmo durante a Quaresma, cada domingo é uma pequena Páscoa. Não assume o tom penitencial próprio das sextas-feiras ou da Quarta-feira de Cinzas. Mas isso significa que é proibido fazer penitência? Segundo a exortação apostólica Dies Domini, São João Paulo II escreveu que desde os primeiros séculos, os cristãos viveram o domingo como dia de alegria pascal. Citando Santo Agostinho, afirma que “omitem-se os jejuns e reza-se de pé como sinal da ressurreição; também por isso se canta todos os domingos o aleluia.”
João Paulo II diz que o domingo não pode perder “o tom da alegria com que os discípulos acolheram o Mestre: ‘Alegraram-se os discípulos, vendo o Senhor’ (Jo 20, 20)”. A alegria cristã não é superficial, mas fruto do Espírito Santo (cf. Rm 14, 17; Gl 5, 22), e que o domingo é, “a título especial, um dia de alegria”.
Dizer que o domingo não é dia penitencial não significa afirmar que seja terminantemente proibido fazer penitência. Primeiro, porque as “expressões rituais” variam segundo a disciplina da Igreja ao longo do tempo. Nos primeiros séculos, por exemplo, era proibido ajoelhar-se aos domingos, pois o gesto era considerado penitencial. Isso mostra que a preocupação principal sempre foi preservar o caráter pascal do dia.
Segundo, porque vivemos numa condição de fragilidade permanente, que requer constante conversão. A mortificação não é algo restrito a um calendário: faz parte da vida cristã. A alegria cristã pode conviver com o sofrimento. Como ensinam os santos, trata-se de uma alegria que resiste até mesmo à noite escura da dor.
Como regra geral, não se recomenda acrescentar mortificações nesse dia. Contudo, não existe uma proibição absoluta de manter propósitos pessoais de penitência aos domingos. Se alguém assumiu um propósito quaresmal, como deixar determinado alimento, hábito ou prática, pode discernir, com liberdade cristã e prudência, se o suspende ou mantém no domingo.
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