Imagine viver a Quaresma com um relógio espiritual: o dia inteiro de espera — e só depois do pôr do sol, uma refeição simples, quase sempre sem “consolos” à mesa. Para muitos cristãos dos primeiros séculos, jejuar não era um “detox religioso” nem uma prática simbólica: era um modo concreto de educar o corpo para lembrar o coração de quem ele pertence.
Antes de falar em “Quaresma”, a Igreja já jejuava. Os cristãos herdaram do ambiente bíblico a lógica do jejum como penitência e busca de Deus e, desde cedo, cultivaram dias fixos de jejum na semana. Um testemunho muito antigo, Didaqué (catecismo dos primeiros cristãos escrito cristão primitivo), recomenda jejuar na quarta-feira e na sexta-feira. Com o tempo, esse “ritmo semanal” foi sendo aprofundado na preparação para a Páscoa.
A preparação pascal com jejum não surgiu pronta e uniforme. As práticas variavam conforme região e época e, aos poucos, a Igreja foi consolidando um período mais amplo de preparação. Fontes históricas indicam que a duração e a forma do jejum quaresmal foram se estabilizando gradualmente, com referência antiga a uma preparação de quarenta dias.
Um detalhe importante: falar “os primeiros cristãos” não significa um único padrão idêntico em todo lugar. Havia diferenças, mas também havia um núcleo comum de austeridade.
Entre as formas mais rigorosas, o hábito que se destacava era comer apenas uma vez no dia, no fim da tarde/noite. Essas descrições históricas do Ocidente cristão antigo e medieval tinham relação com aprender a esperar.
Com o passar dos séculos, esse horário foi mudando em muitos lugares (algumas comunidades passaram a comer mais cedo, por volta da “nona hora”, perto das 15h), mas a memória do “pôr do sol” permaneceu forte em várias tradições e relatos.
Em muitos contextos antigos, a abstinência ia além da carne. A descrição histórica mais recorrente fala da exclusão de:
Em certos relatos, aparecem ainda restrições a vinho e óleo em períodos ou regiões específicas, especialmente quando se descreve uma forma mais rígida de jejum. Ou seja: para muitos cristãos, a Quaresma “tirava da mesa” justamente o que dava sensação de festa.
O Catecismo lembra que a conversão interior se expressa, “acima de tudo”, por oração, jejum e caridade. A disciplina foi ajustando regras conforme contextos e necessidades sem perder o sentido. Um marco moderno é a constituição apostólica Paenitemini, de São Paulo VI, ao retomar o lugar da penitência e do jejum na vida cristã.
O Direito Canônico mantém a Quaresma como tempo penitencial e define normas mínimas, como jejum e abstinência em dias específicos, mas a tradição antiga continua como inspiração para quem deseja viver a Quaresma com mais profundidade. Os primeiros cristãos não jejuavam para “sofrer por sofrer”. Eles jejuavam para lembrar, no corpo, que a vida não se sustenta só de pão.
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