Poucas produções religiosas dos últimos anos despertaram tanta curiosidade quanto The Chosen. A série emociona, aproxima muita gente de Jesus e frequentemente viraliza nas redes sociais, mas também levanta uma dúvida importante: o que ali vem diretamente da Bíblia e o que foi criado para a dramaturgia? A própria produção responde, em seu site oficial, que a série é baseada nas histórias verdadeiras dos Evangelhos, mas admite que alguns lugares e cronologias foram condensados e que foram acrescentados backstories, personagens secundários e diálogos. Ao mesmo tempo, o criador, Dallas Jenkins, afirma que a intenção nunca foi substituir a Escritura, mas levar o público a voltar para ela.
É importante saber que não dá para analisar tudo o que aparece em The Chosen em uma única matéria. A série já desenvolveu muitos personagens, cenas e tramas paralelas. Por isso, aqui vamos explicar apenas alguns exemplos mais conhecidos, justamente para ajudar o leitor a entender o critério geral: em The Chosen, o núcleo dos acontecimentos costuma vir dos Evangelhos, enquanto o entorno dramático (conversas, rotinas, relações e conflitos) muitas vezes é criação dos roteiristas.
O primeiro ponto, portanto, é este: The Chosen não se apresenta como uma “Bíblia filmada”, palavra por palavra. No FAQ oficial, a produção diz que acrescenta elementos dramáticos para sustentar a “verdade e a intenção” das Escrituras e ainda incentiva os espectadores a lerem os Evangelhos. A série também disponibiliza conteúdos extras com o contexto histórico retratado nos episódios.
Um bom exemplo dessa combinação entre Bíblia e adaptação é o encontro de Jesus com Nicodemos. O diálogo noturno entre os dois é claramente bíblico e remete a João 3, uma das passagens mais conhecidas do Novo Testamento. No entanto, a série amplia bastante o papel de Nicodemos, criando ao redor dele uma jornada mais longa de investigação, tensão e busca interior. Nicodemos recebe na série um papel bem maior do que o que aparece diretamente nos Evangelhos. Ou seja: a base é bíblica, mas o desenvolvimento emocional e narrativo é ampliado.
Outro caso muito comentado é o de Simão Pedro. A pesca milagrosa e o chamado do Apóstolo têm fundamento no Evangelho, especialmente em Lucas 5. Mas The Chosen acrescenta à cena um contexto de dívida, pressão política e desespero financeiro. A descrição oficial diz que Simão, com a vida e a família ameaçadas por Roma, passa uma última noite pescando desesperadamente. Essa moldura dramática ajuda a contar a história na linguagem da televisão, mas esses detalhes específicos não aparecem assim nos Evangelhos.
O episódio do casamento em Caná segue a mesma lógica. O milagre da transformação da água em vinho é bíblico e está em João (2). A série, porém, constrói todo um ambiente ao redor da festa, com preparação, deslocamentos, diálogos e interações que servem para dar densidade à cena e tornar o momento mais envolvente.
Há também episódios em que a parte dramatizada é ainda mais evidente. Um dos melhores exemplos é Jesus com o grupo de crianças, no episódio “Jesus ama as criancinhas”. A descrição oficial informa que Jesus faz amizade e ensina crianças que descobrem seu acampamento. A ideia geral combina com os Evangelhos, que mostram o Filho de Deus acolhendo os pequenos e usando a infância como sinal do Reino do Pai. Mas esse encontro específico, com esse formato e essas conversas, é uma criação da série. É uma cena inspirada no Evangelho, e não uma reprodução literal de uma passagem bíblica.
O mesmo raciocínio vale para a mulher samaritana. O encontro de Jesus com ela no poço é bíblico e vem de João (4). No entanto, a série constrói uma preparação mais longa, mostra o sofrimento da personagem, suas rotinas e o caminho até aquele momento no poço de Jacó. A descrição oficial do episódio confirma esse encontro como eixo do capítulo, mas o tratamento televisivo amplia bastante o contexto em torno da cena. Mais uma vez, o centro vem da Escritura, enquanto a ambientação e muitos detalhes são dramatizados.
Entre os casos em que a adaptação fica mais perceptível está a caracterização de alguns discípulos, sobretudo Mateus. Uma das maiores liberdades da série está justamente na forma como Mateus é retratado, com traços, hábitos e comportamentos que vão além do que o texto bíblico diz explicitamente. Esse tipo de escolha não muda o fato do Apóstolo ser um publicano chamado por Jesus, algo firmemente bíblico.
É justamente aí que está a chave para assistir à série com maturidade e reconhecer que The Chosen pode ajudar a imaginar o ambiente humano dos Evangelhos, mas não deve ser tratado como substituto da Palavra de Deus. O próprio Dallas Jenkins disse recentemente que seria um problema se as pessoas tirassem da série toda a sua compreensão das Escrituras, e que o ideal é que a produção leve o público a voltar à Bíblia. Segundo ele, esse tem sido um efeito real: mais gente tem procurado diretamente os textos bíblicos depois de ver a série.
Do ponto de vista católico, essa distinção é importante. Não há uma leitura oficial da Igreja, cena por cena, sobre The Chosen. O discernimento, portanto, passa por apreciar o que a série oferece de bom, sem esquecer que a fonte principal da fé é sempre a Revelação transmitida na Sagrada Escritura e na Tradição da Igreja. Nesse sentido, a própria postura da produção, de admitir adaptações e incentivar a leitura dos Evangelhos, oferece um bom critério para o espectador.
No fim, dá para resumir assim: em The Chosen, normalmente é Bíblia aquilo que corresponde aos grandes acontecimentos dos Evangelhos, como chamados, milagres, encontros e discursos de Jesus, enquanto é adaptação grande parte dos diálogos detalhados, conflitos cotidianos, rotinas dos personagens e conexões criadas para dar unidade à narrativa. Assistir desse modo, com fé e discernimento, permite aproveitar a série sem confundir dramaturgia com texto sagrado.
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