Dois dias após sua eleição, Papa Leão XIV falou diante do Colégio de Cardeais que escolheu o nome Leão XIV porque o Papa Leão XIII, na encíclica Rerum Novarum, de 1891, enfrentou os dilemas sociais da Revolução Industrial. O novo Pontífice identifica na Inteligência Artificial (IA) a nova questão social do século XXI.
Em pouco mais de um ano de pontificado, a IA e a literacia digital são dois dos temas mais recorrentes do magistério de Leão XIV, com a mesma urgência com que Papa João Paulo II tratou os direitos humanos e Papa Francisco, a ecologia.
A cada ano, no domingo que antecede Pentecostes, a Igreja celebra o Dia Mundial das Comunicações Sociais. Em 17 de maio de 2026, 60ª edição, Papa Leão XIV escolheu intitular sua mensagem: “Preservar vozes e rostos humanos”.
O texto, publicado pelo Vaticano em 24 de janeiro de 2026, é o documento mais completo que o Pontífice produziu sobre o tema até agora. Sua tese central é o desafio colocado pela inteligência artificial “não é tecnológico, mas antropológico”. Proteger os rostos e as vozes humanas da manipulação algorítmica significa, nas palavras do próprio Papa, “protegermo-nos a nós mesmos”.
O documento elenca os riscos que o Papa associa ao uso acrítico da IA: as bolhas algorítmicas que encerram pessoas em grupos de fácil consenso e indignação, enfraquecendo a capacidade de escuta e pensamento crítico; a confiança ingenuamente acrítica na IA como “amiga onisciente, dispensadora de todas as informações, repositório de todas as memórias e oráculo de todos os conselhos”; e o risco de que, ao delegar o pensamento à máquina, as capacidades cognitivas, emocionais e comunicativas humanas se deteriorem lentamente.
“Ao abstermo-nos do esforço do próprio pensamento, contentando-nos com uma compilação estatística artificial, corremos o risco de deteriorar, a longo prazo, as nossas capacidades cognitivas, emocionais e comunicativas”, escreveu Leão XIV na mensagem do Dia das Comunicações Sociais.
Literacia digital é a capacidade de usar, analisar, avaliar e criar informação em ambientes digitais com pensamento crítico e responsabilidade ética. Vai além de saber operar um smartphone ou navegar nas redes, pois envolve reconhecer desinformação, entender como os algoritmos selecionam o que vemos, proteger a própria privacidade e participar do espaço digital como cidadão consciente.
Para Papa Leão XIV, a literacia digital é tão fundamental quanto aprender a ler e escrever foi importante durante a Revolução Industrial. A analogia histórica é central em seu pensamento: assim como a industrialização exigiu que as sociedades alfabetizassem suas populações para que pudessem participar do novo mundo do trabalho, a revolução digital exige que as pessoas aprendam a navegar criticamente no ambiente de informação em que vivem.
O Pontífice defendeu na mensagem do Dia das Comunicações Sociais “a urgência de introduzir a literacia para os meios de comunicação e inteligência artificial em todos os níveis dos sistemas educativos.” O objetivo é aprender a lidar com os sistemas de IA como ferramentas, proteger os próprios dados e privacidade, e desenvolver critérios para uma cultura de comunicação mais saudável e responsável.
Papa Leão XIV é cuidadoso em não reduzir sua posição a uma crítica tecnófoba. O Pontífice reconhece o potencial da inteligência artificial : “O desafio que nos espera não é impedir a inovação digital, mas orientá-la, estando conscientes do seu caráter ambivalente”.
A palavra que melhor resume sua abordagem é discernimento, conceito central na espiritualidade inaciana, tradição da qual o próprio Papa tem proximidade. Discernir não é rejeitar nem aceitar cegamente, mas avaliar com critérios, à luz de valores, o que serve ao bem humano e o que o ameaça.
Ao receber os atletas dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos de Milão-Cortina, o Papa voltou ao tema da IA para pedir que os esportistas, como testemunhas de uma linguagem universal, sejam também modelos de relação humana autêntica. Nas primeiras entrevistas biográficas após a eleição, o Papa revelou ainda ter recusado a criação de uma versão digital de si mesmo para interagir com fiéis em um gesto que diz muito sobre onde ele traça seus limites.
A preocupação de Leão XIV com a IA e a literacia digital não nasce do nada. Em 2023, o Papa Francisco enviou mensagem à Unesco, por meio do Secretário de Estado Pietro Parolin, alertando para a necessidade de enfrentar a exclusão digital, o ódio nas “estradas digitais” e o perigo de delegar decisões sobre o valor da vida humana à lógica computacional.
Papa Leão XIV amplia esse campo e enfatiza a dimensão educativa e ética. Além disso, em maio de 2026, publicou a encíclica Magnifica Humanitas no aniversário dos 135 anos da Rerum Novarum, reposicionando o Ensino Social da Igreja diante das transformações tecnológicas contemporâneas. Para o Pontífice, a IA representa uma mudança civilizatória que exige da Igreja a mesma coragem profética com que Leão XIII enfrentou o capitalismo industrial no século XIX.
“Hoje, a Igreja oferece a todos a riqueza de sua doutrina social para responder a outra revolução industrial e aos desenvolvimentos da inteligência artificial, que trazem novos desafios para a defesa da dignidade humana, da justiça e do trabalho”, disse o Papa logo após ser eleito.
A mensagem de Leão XIV não é endereçada apenas a governos, empresas de tecnologia ou educadores. É também um chamado ao fiel comum, que usa redes sociais, consome informação online e vive em um ambiente cada vez mais mediado por algoritmos que decidem o que ele vê, lê e pensa.
O Papa pede que as famílias, comunidades e associações “desenvolvam critérios práticos para uma cultura de comunicação mais saudável e responsável”. Isso inclui reflexão crítica sobre as fontes de informação, avaliação dos interesses por trás da seleção do que nos chega e compreensão dos mecanismos psicológicos que as plataformas digitais ativam.
A literacia digital, para Papa Leão XIV, é também uma questão espiritual. Cuidar do próprio pensamento, proteger a própria capacidade de escuta, resistir à polarização algorítmica: tudo isso faz parte do que significa ser humano à imagem de Deus.
“Cabe a cada um de nós levantar a voz em defesa das pessoas, para que estas ferramentas possam realmente ser integradas por nós como aliadas”, escreveu o Pontífice.
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