Neste segunda-feira, 12 de outubro, enquanto o Brasil celebra o feriado de Nossa Senhora Aparecida, o mundo católico abre um capítulo especial de graça: começa o Ano Jubilar de Nossa Senhora de Guadalupe. A data marca os 50 anos da transferência da imagem sagrada da Virgem para a nova Basílica na Cidade do México, e o Papa Leão XIV decidiu celebrá-la com uma das maiores graças que a Igreja pode conceder: a indulgência plenária para todos os peregrinos que visitarem o santuário até 12 de outubro de 2027.
A concessão foi anunciada pelo cardeal Carlos Aguiar Retes, arcebispo primaz do México, e emitida pela Penitenciaria Apostólica, o dicastério vaticano responsável pelas indulgências. A abertura formal acontece amanhã ao meio-dia, com a Missa das Rosas e a abertura da Porta Santa, presidida pelo próprio cardeal. A programação ainda inclui rosários solenes, concerto comemorativo e encontros sacerdotais ao longo do dia.
A palavra “jubileu” vem do hebraico yobel, o chifre de carneiro que soava para anunciar o Dia da Reconciliação e o início de um ano especial de graça. No Levítico 25, Deus instruiu o povo a celebrar esse ano a cada 50 anos: as dívidas seriam perdoadas, as terras devolvidas, os cativos libertados. Era um tempo de recomeço.
A Igreja Católica herdou e transformou essa tradição. Em 1300, o Papa Bonifácio VIII proclamou o primeiro Ano Santo cristão, com peregrinação a Roma e concessão de indulgências. Ao longo dos séculos, a periodicidade foi se ajustando: de 100 em 100 anos, depois de 50 em 50, depois de 25 em 25, como está estabelecido desde o século XV. Há também os jubileus extraordinários, convocados para ocasiões específicas, como o Jubileu da Misericórdia declarado pelo Papa Francisco em 2015.
O Jubileu Guadalupano de 2026-2027 é desse segundo tipo: extraordinário, ligado a uma data e a um lugar específico. Não é convocado para Roma, mas para a Basílica de Nossa Senhora de Guadalupe, na Cidade do México, um dos santuários marianos mais visitados do mundo.
Para os católicos que visitarem a Basílica durante o período jubilar, a Igreja oferece a indulgência plenária, que é a remissão total da pena temporal devida pelos pecados já perdoados na confissão, aquela consequência espiritual que persiste mesmo após o perdão sacramental e que a tradição associa ao Purgatório. A indulgência pode ser obtida para si mesmo ou oferecida pelas almas dos fiéis já falecidos.
As condições estabelecidas pela Penitenciaria Apostólica são as habituais: visitar a Basílica com devoção e espírito contrito, participar de algum ato litúrgico ou dedicar um tempo à oração no santuário, receber o sacramento da confissão, fazer a comunhão eucarística, recitar o Credo e rezar pelas intenções do Papa.
Para entender o que torna este jubileu significativo, é preciso conhecer a história da imagem que está em seu centro.
Em dezembro de 1531, dez anos após a conquista espanhola do México, um indígena recém-convertido chamado Juan Diego caminhava pelo morro de Tepeyac, nos arredores da atual Cidade do México. Segundo o relato histórico preservado no Nican Mopohua, texto escrito em náhuatl no século XVI, uma Senhora de vestes luminosas apareceu a ele e pediu que levasse ao bispo, Frei Juan de Zumárraga, o desejo de que uma Igreja fosse construída naquele lugar.
O bispo não acreditou e pediu um sinal. A Virgem instruiu Juan Diego a recolher rosas no alto do morro, pedregoso e árido, onde flores não cresciam e muito menos em dezembro. Ele as encontrou, as recolheu na sua tilma, uma capa de fibra vegetal, e as levou ao bispo. Ao abrir o manto, as flores caíram ao chão, e no tecido estava impressa uma imagem da Virgem que nenhum artista havia pintado. Essa imagem permanece preservada há quase cinco séculos. São Juan Diego foi canonizado pelo Papa João Paulo II em 31 de julho de 2002.

Com o passar dos séculos, a devoção cresceu e os peregrinos se multiplicaram. A antiga Basílica, construída onde hoje é o Templo Expiatório de Cristo Rei, passou a apresentar problemas estruturais sérios: o solo da Cidade do México, erguida sobre um lago drenado pelos espanhóis, afundava progressivamente, e o edifício histórico não comportava mais os milhões de fiéis que chegavam ao santuário. A construção da nova Basílica, projetada pelo arquiteto Pedro Ramírez Vázquez, começou em 1974. Em 12 de outubro de 1976, a imagem sagrada foi transferida solenemente para o novo templo. É esse meio século que o Ano Jubilar celebra.
Nossa Senhora de Guadalupe é Padroeira das Américas, título reconhecido pelo Papa Pio XII em 1945. Sua imagem é uma das mais reproduzidas do catolicismo no mundo inteiro, e a Basílica que a abriga recebe cerca de 20 milhões de peregrinos por ano, sendo um dos santuários mais visitados do planeta.
Para católicos brasileiros que planejam uma peregrinação ao México, o período entre 12 de outubro de 2026 e 12 de outubro de 2027 é uma oportunidade especial: a visita à Basílica de Guadalupe, cumpridas as condições da Igreja, garante a possibilidade da indulgência plenária declarada pelo Papa Leão XIV.
O que é o Ano Jubilar de Nossa Senhora de Guadalupe?
É um período especial de graça declarado pelo Papa Leão XIV para celebrar os 50 anos da nova Basílica de Nossa Senhora de Guadalupe, na Cidade do México. Começa em 12 de outubro de 2026 e termina em 12 de outubro de 2027.
O que é um Ano Jubilar na Igreja Católica?
É um tempo extraordinário de graça com raízes na tradição bíblica do jubileu hebraico (Levítico 25). Na Igreja, existe desde 1300. Durante um jubileu, os fiéis que cumprem as condições estabelecidas podem receber a indulgência plenária.
O que é a indulgência plenária?
É a remissão total da pena temporal devida pelos pecados já perdoados no sacramento da confissão. Na tradição católica, essa pena está associada ao Purgatório. A indulgência pode ser obtida para si mesmo ou oferecida pelas almas dos fiéis já falecidos.
Quais são as condições para receber a indulgência plenária no Jubileu de Guadalupe?
Visitar a Basílica com devoção e espírito contrito, participar de um ato litúrgico ou rezar no santuário, receber a confissão, fazer a comunhão, recitar o Credo e orar pelas intenções do Papa.
Quem foi São Juan Diego?
Foi o indígena mexicano a quem Nossa Senhora de Guadalupe apareceu em 1531, segundo o relato histórico preservado no Nican Mopohua. Ao abrir seu manto diante do bispo, revelou a imagem impressa da Virgem. Foi canonizado pelo Papa João Paulo II em 2002.
Por que a imagem foi transferida para uma nova basílica em 1976?
A antiga basílica sofria com o afundamento progressivo do solo da Cidade do México. A nova, projetada para ser estruturalmente segura e capaz de acolher milhões de peregrinos, foi inaugurada em 1976, e a imagem sagrada foi transferida para ela em 12 de outubro daquele ano.
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