Autismo: os riscos do diagnóstico tardio

Autismo: os riscos do diagnóstico tardio

Dois de abril é o Dia Mundial da Conscientização do Autismo, criado pela Organização das Nações Unidas (ONU) no ano de 2007, com o objetivo de divulgar informações sobre o Transtorno do Espectro Autista (TEA) capazes de conscientizar a população, reduzindo o capacitismo e o preconceito contra os autistas.

Neste ano, o Censo populacional brasileiro incluirá o autismo como parte das estatísticas. A inclusão é resultado da Lei 13.861/2019 que busca compreender qual o tamanho da população autista brasileira, bem como as condições de vida dos indivíduos com o transtorno.

A inserção do tema no censo terá efeito especialmente para a construção de políticas públicas efetivas, bem como para o reconhecimento da realidade populacional brasileira.

Isso é importante porque o diagnóstico precoce do autismo contribui muito para o bem-estar do autista ao longo da vida, por permitir estimular as crianças desde cedo, potencializando suas habilidades. Pessoas com TEA sem um diagnóstico podem sofrer por não compreender a sua condição. Em alguns casos, a pessoa pode desenvolver depressão ou outros transtornos mentais, como a ansiedade, por serem muito criticadas e cobradas.

“Hoje em dia eu enxergo meu valor”

Foto de Tara Winstead no Pexels

Embora o autismo seja, na maioria das vezes, diagnosticado na infância, há um número crescente de diagnósticos de TEA acontecendo na idade adulta. Isso acontece, principalmente, quanto às pessoas com TEA sem deficiência intelectual e sem comprometimento da linguagem funcional (os chamados “autistas leves”).

Maria Lina Griggio, Relações Públicas de Londrina/PR, foi um desses casos. Diagnosticada aos 35 anos de idade, ela nos contou que antes do diagnóstico do filho caçula ela nunca tinha ouvido falar na palavra autismo. Ao saber da condição do filho, Maria Lina começou a pesquisar muito sobre o assunto: “Foi aí que eu tive a percepção de que eu podia estar no espectro”.

Ela lembra que durante a sua infância e adolescência, por conta das características do autismo, se sentia deslocada, incompreendida:

“Eu sempre ouvi as pessoas falando ‘que eu não tinha jeito’, que eu era ‘má’. Hoje em dia eu enxergo meu valor”.

Ela pede às famílias que não tenham medo do diagnóstico, pois ele é capaz de tirar da pessoa todo o peso que iria carregar na vida: “O alívio que eu tive quando o diagnóstico saiu foi libertador. Eu percebi que eu não tinha culpa”.

 
A neuropediatra Renata Episcopo, de Salvador/BA, nos explica que os autistas com maior funcionalidade, apesar de não apresentarem as dificuldades de aprendizagem que muitos autistas possuem, como atrasos de linguagem, podem ter dificuldades específicas de interação social e no comportamento: “Em adultos com autismo, podemos observar uma inflexibilidade cognitiva; rigidez de comportamento; adesão a rotinas com resistência a mudanças; dificuldade para compreender metáforas, ironias, duplo sentido, realizar inferências; preferência por trabalhar ou ficar sozinho; dificuldade em socializar; seletividade alimentar; aversão a determinados sons e texturas; comportamentos repetitivos, ritualísticos e interesses restritos”.

Ela registra que são muitos os fatores que podem levar ao diagnóstico tardio, sendo um deles o pouco conhecimento médico sobre o autismo, o que compromete a identificação de sintomas. Outro fator é a dificuldade de acesso a médicos especialistas: “Notamos, atualmente, um avanço nas pesquisas científicas com relação ao transtorno do espectro autista, em que podemos identificar fatores de risco, comorbidades, indicar tratamentos clínicos mais adequados e promover uma melhor psicoeducação e educação médica”, menciona a médica.

Buscar informação e praticar a conscientização

Quanto mais informação sobre o autismo chegar à população em geral, mais diagnósticos serão feitos e menos pessoas sofrerão sem as terapias necessárias: “O diagnóstico do transtorno do espectro autista é clínico, observacional, realizado por médico especialista, psiquiatra, neurologista ou neuropediatra. Muitas vezes, se faz necessária a avaliação multiprofissional (fonoaudiologia, terapia ocupacional, psicologia, neuropsicologia) para complementação diagnóstica”, nos informa a Dra. Renata.

Receber um diagnóstico, mesmo que tardio, é também muito importante para o autoconhecimento do autista. Maria Lina deixa esse recado a todas as pessoas que acreditam que possam estar no espectro, assim como aos seus familiares:

“Investigando ou não investigando, você não vai tirar o autismo da pessoa. Se você ‘acha que não é’, ele sendo autista, continuará sendo autista: a diferença é que sem o diagnóstico, ele estará sofrendo e perdendo tempo de tratamento, e esse tempo não vai voltar mais”.

É o diagnóstico que vai dar à pessoa com TEA o apoio e cuidados necessários para se conhecer e se desenvolver. É na conscientização que plantamos uma sociedade mais inclusiva e permitimos que os autistas possam se adaptar e serem felizes.

Dar aos autistas qualidade de vida, permitindo que possam ampliar suas habilidades sociais, se comunicar e serem pessoas produtivas na sociedade: essa é a importância do diagnóstico precoce do TEA, da compreensão sobre os seus sintomas e da prática social da inclusão.

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