Quando o Papa Francisco anunciou, em 6 de agosto de 2023, ao final da Missa de encerramento da JMJ de Lisboa, que a próxima sede da Jornada Mundial da Juventude seria Seul, na Coreia do Sul, muita gente estranhou. Um país onde os católicos representam pouco mais de 11% da população receberá, em 2027, jovens do mundo inteiro. Mas quem conhece a história do catolicismo coreano entende que há uma lógica profunda nessa escolha.
A Igreja Católica na Coreia do Sul não chegou pelo caminho convencional. Não foram missionários europeus que plantaram a fé em solo coreano. Foi a curiosidade intelectual de um grupo de estudiosos que, no século XVIII, entrou em contato com escritos cristãos vindos da China e começou, por conta própria, a refletir sobre eles, praticá-los e transmiti-los.
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Em 1784, um jovem estudioso chamado Yi Seung-hun viajou a Pequim e lá recebeu o batismo. Quando voltou à Coreia, levou o desejo de compartilhar o que havia encontrado. Ele passou a transmitir a fé a outros coreanos, e assim nasceu a primeira comunidade cristã do país, sem sacerdotes, sem estrutura institucional, sustentada apenas pelo testemunho de leigos.
Por anos, aquele grupo celebrou o que podia, estudou o que tinha e foi crescendo em condições que a maioria dos historiadores considera extraordinárias. Como reconheceu Papa João Paulo II em 1984, em audiência sobre os mártires coreanos, a fé chegou à Coreia por meio de um leigo e se expandiu antes mesmo da chegada dos primeiros sacerdotes. Quase 250 anos depois, é exatamente essa Igreja que receberá jovens de todo o mundo.
A dinastia Joseon, que governava a Coreia, mantinha o país fechado a influências externas e via na nova fé uma ameaça direta à ordem confuciana. A recusa dos cristãos a participar de determinados ritos de veneração aos antepassados, considerados incompatíveis com a fé católica, foi interpretada como deslealdade e subversão.
As perseguições começaram cedo e se repetiram por mais de cem anos, com ondas de violência especialmente sangrentas em 1801, 1839, 1846 e 1866. Estima-se que ao longo desse período cerca de dez mil cristãos tenham sido mortos por causa de sua fé. Bispos, sacerdotes, catequistas, famílias inteiras, leigos de todas as idades.
Entre eles está André Kim Taegon, nascido em 1821 em uma família já cristã, cujo pai também morreu mártir. André estudou em Macau, foi ordenado o primeiro sacerdote coreano em 1845 e, menos de um ano depois, foi preso e executado, com apenas 25 anos. Outro nome que a história preservou é Paulo Chong Hasang, leigo filho de mártir que, com enorme risco pessoal, percorreu caminhos perigosos para levar petições a Roma e conseguir o envio de sacerdotes à Coreia. Ele também foi preso e executado, em 1839.
Em 6 de maio de 1984, João Paulo II canonizou 103 mártires coreanos em Seul. Em 2014, o Papa Francisco beatificou outros 124 durante sua visita ao país.

Igreja católica em Seul
A Coreia do Sul tem cerca de 50 milhões de habitantes. Em 2023, os católicos no país somavam aproximadamente 5,97 milhões de fiéis. Em 2025, esse número chegou a 6 milhões, representando 11,4% da população. Sendo minoria em uma sociedade onde muitos se declaram sem religião ou seguem o budismo, os católicos sul-coreanos mantêm uma presença pública que vai além do tamanho numérico.
A visibilidade da Igreja cresceu especialmente durante a ditadura militar, quando vozes católicas estiveram entre as que se levantaram em defesa dos direitos humanos, um papel que ampliou o respeito da sociedade coreana pela instituição. Presidentes como Moon Jae-in foram católicos praticantes.
Antes da divisão da península, Pyongyang, que hoje é a capital da Coreia do Norte, tinha tantas igrejas cristãs que ficou conhecida como “a Jerusalém do Oriente”. A fé cristã na Coreia, portanto, é mais antiga e mais enraizada do que os números da Coreia do Sul podem sugerir.
A Jornada Mundial da Juventude de 2027 será a primeira vez desde 1995, quando Manila sediou o evento, que a JMJ retorna à Ásia. Ao anunciar Seul, o Papa Francisco a descreveu como “símbolo da universalidade da Igreja”. É uma escolha que aponta para fora do hemisfério ocidental, em direção a um continente onde o catolicismo convive com grandes tradições religiosas e com contextos de minoria.
Mas há algo mais na escolha da Coreia do Sul. Uma fé que nasceu pelo testemunho de leigos, que sobreviveu a perseguições centenárias sem desaparecer, que formou seus próprios sacerdotes e seus próprios mártires, que cresceu sem missão imposta de fora para dentro: essa é a Igreja que em 2027 abrirá suas portas para milhões de jovens. Para eles, será uma oportunidade de conhecer uma história de fé que a maioria nunca ouviu contar. Para os católicos coreanos, será uma oportunidade de mostrar ao mundo do que é feita a Igreja que carregaram até aqui.
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