No Sermão da Montanha, Jesus olha para a multidão e declara felizes aqueles que, aos olhos do mundo, parecem frágeis: “Bem-aventurados os pobres em espírito, porque deles é o Reino dos Céus” (Mt 5,3). O que significa ser “pobre em espírito”? Trata-se de miséria material ou falta de ambição? A resposta revela algo muito mais profundo. Não é falta de bens, é atitude do coração.
A expressão usada por Jesus não se refere somente à pobreza econômica. Papa Francisco explicou em catequese sobre as bem-aventuranças que o pobre em espírito é aquele que “é e se sente pobre”, ou seja, quem não se apoia na ilusão da autossuficiência. É quem reconhece que precisa de Deus. Em outra ocasião, ao comentar esse versículo no Angelus, o Santo Padre afirmou que os pobres em espírito são como “mendigos de Deus”, aquelas pessoas que sabem que o bem não nasce delas mesmas, mas é recebido como dom. A pobreza evangélica é a consciência de que tudo é graça.
O Catecismo da Igreja Católica ajuda a compreender ainda melhor. Ele afirma que Jesus chama “pobreza em espírito” à humildade voluntária do espírito humano e à sua renúncia (CIC 2546). O pobre em espírito busca o Reino, enquanto o orgulhoso busca o poder. E acrescenta que a confiança na providência do Pai liberta da ansiedade e dispõe o coração para essa bem-aventurança (CIC 2547).
Ser pobre em espírito não significa desprezar os bens materiais, mas não absolutizá-los. Não fazer deles a própria segurança. Não transformar riqueza, status, influência ou controle em ídolos silenciosos.

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Há um detalhe importante na frase de Jesus: Ele não diz “será deles”, mas “deles é o Reino”. O Reino já pertence aos pobres em espírito. São João Paulo II explicava que somente quem não está preso à autossuficiência consegue acolher o Reino com todo o coração. Um coração cheio de si mesmo não tem espaço para Deus. O Reino não entra onde não há abertura. Em uma viagem apostólica a Polônia, em 1999, explicou:
“Eis os pobres em espírito, sem possuírem ouro nem prata, graças a Cristo, têm um poder maior do que todas as riquezas do mundo podem dar. São deveras bem-aventurados e felizes estes homens, porque deles é o reino dos céus. Amém”.
Essa bem-aventurança é uma promessa e uma constatação, pois quem vive na dependência filial de Deus já experimenta algo do Reino aqui e agora.
A Igreja nunca ensinou que possuir bens seja pecado. O problema não é ter, mas apegar-se. São João Paulo II também recordava que uma pessoa com muitos recursos pode viver a pobreza em espírito se estiver disposta a usar o que possui com generosidade e se não fizer das riquezas sua segurança última. A pergunta, então, não é “quanto eu tenho?”, mas:
Pobreza em espírito é viver com humildade, confiança e abertura à ação divina. É uma escolha diária, que significa:
A primeira bem-aventurança é, na verdade, a porta de todas as outras. Sem humildade, não há misericórdia. Sem desapego, não há liberdade interior. Sem confiança filial, não há Reino.
Para pedir: “Senhor, livra-me da autossuficiência. Ensina-me a depender de Ti.”
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