Tudo começou com uma rede vazia, em outubro de 1717, e três pescadores do vale do Rio Paraíba do Sul, em São Paulo, estavam em apuros: deveriam preparar um banquete para receber o conde de Assumar, governador da capitania, e o peixe não aparecia. Domingos Garcia, João Alves e Filipe Pedroso lançaram e recolheram as redes por horas, sem resultado. Foi em uma dessas tentativas que João Alves sentiu o peso diferente e, ao recolher a rede, encontrou não peixes, mas o corpo sem cabeça de uma imagem de barro, escurecida pelo tempo no fundo do rio. No lance seguinte, a rede trouxe a cabeça. Encaixadas as duas partes, a imagem revelou Nossa Senhora da Conceição. Depois, as redes se encheram de peixes como nunca antes naquele rio.
A imagem de terracota tem 36 centímetros e, segundo estudos históricos comparativos, é atribuída ao escultor frei Agostinho de Jesus, que produziu peças semelhantes no século XVII. O escurecimento da figura, que a tornou de tonalidade negra, é consequência do tempo em que esteve submersa e da oxidação do material.
A imagem ficou guardada na casa de Filipe Pedroso, e logo os vizinhos começaram a se reunir para rezar diante dela. A devoção se espalhou pela região e foi a fé do povo que construiu o primeiro altar, depois a primeira ermida, depois a primeira capela, inaugurada em 1745.
Nesse período, os relatos de graças se multiplicaram. Em 1733, uma crônica registrada em 1748 narra o episódio das velas: dois castiçais diante da imagem se apagaram sozinhos, sem vento, e em seguida se acenderam sem que ninguém os tocasse. O episódio foi interpretado como sinal da presença especial de Maria naquele lugar.

O relato mais comovente desse período envolve um homem chamado Zacarias. Escravizado e fugitivo, foi recapturado e conduzido de volta acorrentado pelo pescoço e pelos pulsos. Durante o trajeto, pediu para rezar diante da imagem de Nossa Senhora Aparecida. Conta a tradição que, enquanto orava, as correntes caíram pelos próprios pesos. O proprietário, testemunha do ocorrido, ficou tão abalado que o libertou e deixou o valor equivalente ao seu preço sobre o altar. Zacarias se tornou um dos primeiros a propagar o nome de Nossa Senhora Aparecida pela região. O relato não tem data precisa, situando-se nos meados do século XVIII, e integra a memória oral e escrita da devoção.
Há ainda o relato do cavaleiro que zombou dos fiéis que subiam de joelhos a escadaria da capela. Seu cavalo teria se recusado a avançar e o lançado ao chão. A marca da ferradura, diz a tradição, teria ficado impressa na pedra da escada.
Entre os relatos mais documentados da história da devoção está o de uma menina de Jaboticabal, interior de São Paulo, que nasceu sem visão. Por volta de 1874, sua mãe, Gertrudes Vaz, decidiu fazer a pé a peregrinação até Aparecida. Durante o caminho, ainda longe da Basílica, a menina perguntou à mãe se aquela construção ao longe era a igreja de Nossa Senhora Aparecida. Gertrudes entendeu: a filha que nunca havia enxergado estava vendo. O relato foi preservado e é frequentemente citado como um dos mais significativos da devoção aparecidana.
A aprovação eclesiástica da devoção a Nossa Senhora Aparecida veio em etapas, todas documentadas. Em 8 de setembro de 1904, a imagem foi solenemente coroada em nome do Papa Pio X, com a coroa que a Princesa Isabel havia mandado confeccionar anos antes. A coroação canônica é o ato pelo qual a Igreja reconhece oficialmente uma devoção mariana como digna de culto público e aprova o culto prestado àquela imagem em particular.
Em 1967, o Papa Paulo VI enviou ao santuário a Rosa de Ouro, distinção máxima que os papas conferem a santuários marianos de importância especial, por ocasião dos 250 anos da devoção. João Paulo II, Bento XVI e Francisco repetiram o gesto em visitas ou datas subsequentes.

O ato mais importante veio em 16 de julho de 1930: o Papa Pio XI, pelo decreto Commissum Nobis, proclamou oficialmente Nossa Senhora Aparecida Rainha e Padroeira Principal do Brasil. Era o reconhecimento formal, no nível mais alto da Igreja, de que aquela devoção nascida às margens do Rio Paraíba do Sul era patrimônio de toda uma nação.
Em 1978, um episódio dramático entrou para a história do santuário. Um homem invadiu a Basílica e arremessou a imagem ao chão, quebrando-a em mais de 200 fragmentos. A restauradora Maria Helena Chartuni trabalhou meticulosamente para recompor cada pedaço. A imagem retornou ao local de veneração ainda naquele ano, e os devotos que conhecem o acontecimento costumam dizer que a restauração foi tão perfeita que parece improvável, dado o grau de fragmentação.
A Basílica Nacional de Nossa Senhora Aparecida, inaugurada em sua forma atual após décadas de construção iniciadas em 1955, é o segundo maior templo católico do mundo em capacidade, superado apenas pela Basílica de São Pedro, no Vaticano. Recebe mais de 12 milhões de peregrinos por ano.
A devoção a Nossa Senhora Aparecida atravessa fronteiras sociais, regionais e culturais de um modo que poucas expressões religiosas conseguem. A imagem negra, encontrada às margens de um rio por pescadores pobres, é símbolo de um Brasil que ainda está aprendendo a se ver: diverso, esperançoso, marcado pela dificuldade e pela fé que persiste apesar dela.
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