Como discernir a vontade de Deus diante de uma grande decisão? Veja o que Papas já falaram sobre isso

Como discernir a vontade de Deus diante de uma grande decisão? Veja o que Papas já falaram sobre isso

Grandes decisões não costumam bater à porta com respostas prontas. Chegam acompanhadas de dúvidas, expectativas, medos e, muitas vezes, silêncio interior. Escolher um caminho profissional, assumir um compromisso, mudar de cidade, iniciar ou encerrar uma etapa da vida… Tudo isso pode gerar muitas dúvidas e é sempre importante se perguntar: qual é a vontade de Deus para mim?

O discernimento é uma busca fundamental para a fé católica. Papas têm insistido que discernir é um caminho espiritual exigente, que envolve liberdade, escuta e confiança. Não é sobre buscar sinais extraordinários, mas aprender a reconhecer a voz de Deus na vida concreta. O discernimento exige liberdade e responsabilidade

Em uma série de catequeses dedicadas ao tema, Papa Francisco recordou:

“Deus convida-nos a avaliar e a escolher: criou-nos livres e quer que exerçamos a nossa liberdade. Por isso, discernir é difícil. Vivemos frequentemente esta experiência: escolher algo que nos parecia bom e, no entanto, não o era. Ou saber qual era o nosso verdadeiro bem e deixar de o escolher. O homem, diversamente dos animais, pode errar, pode não desejar escolher de modo correto. A Bíblia mostra-o a partir das suas primeiras páginas. Deus dá ao homem uma instrução exata: se quiseres viver, se quiseres desfrutar da vida, lembra-te que és criatura, que não és o critério do bem e do mal, e que as escolhas que fizeres terão uma consequência para ti, para os outros e para o mundo (cf. Gn 2, 16-17)
(Audiência Geral, 31 de agosto de 2022)

Discernir não significa esperar que Deus decida no nosso lugar. Ele nos criou livres, e a liberdade implica responsabilidade. Segundo o Papa, o discernimento envolve inteligência, experiência, afetos e vontade. Não é apenas um sentimento interior, mas um processo que amadurece no tempo.

Na mesma catequese, Francisco recorre ao Evangelho para ilustrar o discernimento, citando, entre outras passagens, Mateus 13,44-48 (a parábola do tesouro escondido e da pérola preciosa) e João 1,38-39 (o encontro dos discípulos com Jesus). Essas passagens mostram que reconhecer o que é essencial exige busca e decisão.

Deus fala, mas é preciso aprender a escutar

Papa Bento XVI ensinou com clareza que Deus não se comunica de uma única forma. Em encontro com seminaristas do Pontifício Seminário Romano, afirmou:

“Deus fala conosco de modos muito diferentes. Fala através de outras pessoas, através de amigos, dos pais, do pároco, dos sacerdotes. (…) e fala, naturalmente e sobretudo, na Sua Palavra, na Sagrada Escritura, lida na comunhão da Igreja e pessoalmente em diálogo com Deus (…). Santo Agostinho nas suas homilias diz com frequência: bati várias vezes à porta desta Palavra, até que pude compreender o que o próprio Deus me dizia”
(17 de fevereiro de 2007)

O discernimento não acontece isoladamente nem se baseia apenas em emoções. Nasce do contato constante com a Palavra de Deus, vivida na comunhão da Igreja. Bento XVI também advertiu, na homilia de início de seu pontificado:

“A vontade de Deus não nos desvia, mas purifica-nos — talvez de maneira até dolorosa e assim conduz-nos a nós mesmos.”
(24 de abril de 2005)

Ou seja, nem sempre a vontade divina coincide com o caminho mais confortável. Às vezes, ela exige purificação interior, desapego e coragem.

A Palavra de Deus como luz para as escolhas

São João Paulo II reforçou repetidamente que a escuta orante da Escritura é fundamental para descobrir a própria vocação e a vontade de Deus. Na exortação apostólica Pastores dabo vobis, escreveu:

“Um elemento essencial da formação espiritual é a leitura orante e meditativa da Palavra de Deus (lectio divina), uma escuta humilde e amorosa daquele que fala. É pela luz e pela força da Palavra de Deus que se pode descobrir e compreender, amar e seguir a própria vocação.”

É muito importante ter em mente que discernir não é adivinhar o futuro, mas deixar-se iluminar pela Palavra. A prática da lectio divina, leitura — meditação, oração e contemplação — educa o coração para reconhecer os movimentos interiores que vêm de Deus.

João Paulo II recorda, ainda, que Cristo é “o caminho” (cf. Jo 14,6). Discernir, portanto, é permanecer unido a Ele.

Sinais que ajudam no discernimento

Nas catequeses sobre discernimento, Papa Francisco também destacou critérios concretos. Entre eles, a importância da paz interior e do tempo.

Uma decisão alinhada à vontade de Deus, ensina o Papa, amadurece, traz frutos duradouros e gera paz profunda, mesmo que existam dificuldades externas. Já escolhas precipitadas costumam produzir inquietação persistente.

Além disso, Francisco sublinha a necessidade da direção espiritual. O acompanhamento de alguém experiente na fé ajuda a interpretar corretamente os movimentos do coração.

Discernir é caminhar com a Igreja

Os Papas são unânimes ao afirmar que discernir não é um ato isolado. A vontade de Deus não se descobre fora da vida sacramental, da comunidade e da escuta da Igreja. A participação na Santa Missa, a confissão, a oração pessoal e o conselho de um diretor espiritual formam um ambiente propício para que a decisão amadureça à luz do Espírito Santo. Discernir não é buscar sinais extraordinários, mas aprender a reconhecer Deus no ordinário. Diante de uma grande decisão, por onde começar?

A partir do ensinamento dos Papas, é possível resumir alguns passos seguros:

  • Rezar com sinceridade, pedindo luz e liberdade interior.
  • Ler a Palavra de Deus de forma orante e constante.
  • Buscar acompanhamento espiritual.
  • Observar os frutos e a paz que a decisão produz ao longo do tempo.
  • Permanecer unido à Igreja e à vida sacramental.

Grandes decisões exigem coragem, mas também confiança. Deus não brinca com o coração de quem O busca. Ele fala, conduz e purifica,  sempre para levar cada pessoa à sua verdadeira identidade. Discernir a vontade de Deus não significa eliminar toda dúvida, mas caminhar com fé suficiente para dar o próximo passo.

E, como nos mostram os Papas João Paulo II, Bento XVI e Francisco, esse passo nunca é dado sozinho.

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