A história de Agar está no Livro do Gênesis, capítulo 16, e começa na casa de Abraão, em um contexto de promessas de Deus, mas também de fragilidades humanas. De acordo com as Escrituras, Deus havia prometido ao patriarca uma descendência numerosa, mas sua esposa, Sara, era estéril e já não era jovem.
Naquele contexto, era socialmente aceito que uma serva pudesse gerar filhos em nome de sua senhora e Agar era a serva egípcia de Sara. Essa decisão, ainda que não contrariasse os costumes da época (e é fundamental entender o contexto), pode ser vista como uma tentativa humana de “antecipar” a promessa de Deus. Agar então engravidou e muitos conflitos surgiram entre elas.
Como explica o Frei Jacir, doutor em Teologia Bíblica e professor de Exegese, em um artigo publicado no Instituto Humanitas Unisinos, essa história ainda faz parte de algo maior, que é a própria construção da história da salvação e das descendências ligadas a Abraão.
Agar carregava no ventre, além do seu filho, alguém que era uma questão decisiva dentro da promessa. Ela fugiu para o deserto em uma situação de profunda vulnerabilidade e ali Deus foi ao seu encontro.
“O anjo do Senhor a encontrou junto a uma fonte de água no deserto […] e disse: ‘Agar, serva de Sara, de onde vens e para onde vais?’” (Gênesis 16,7-8).
“Multiplicarei a tua descendência de tal modo que não se poderá contar” (Gênesis 16,10).
Agar então chama Deus de “El Roi”.
“Ela deu ao Senhor que lhe tinha falado o nome de: ‘Tu és o Deus que me vê’ (El Roi), pois disse: ‘Não vi eu aqui aquele que me vê?’” (Gênesis 16,13).
Deus não é distante. Ele realmente vê, conhece, acolhe e Se inclina sobre a dor dos Seus filhos. Agar, uma mulher estrangeira, serva e vulnerável, foi a primeira pessoa na Bíblia a atribuir um nome a Deus a partir de uma experiência pessoal. Como destacou Frei Jacir, essa é uma história marcada por tensão, mas também pela revelação de que Deus Se manifesta justamente na vida de quem está à margem.
No Livro do Gênesis (21), já após o nascimento de Isaac, ela foi novamente afastada, a pedido de Sara a Abraão, e dessa vez, com seu filho, Ismael, cujo nome significa “Deus que ouve”. Como explica o Frei, essa expulsão aconteceu mesmo sendo Ismael descendente de Abraão, mas Deus garantiu que ele também seria abençoado e daria origem a uma grande nação.

Abrão expulsa Agar e Ismael
No deserto, sem água, Agar acreditava que o filho iria morrer. A cena é de dor extrema de uma mãe que já não podia mais agir. Mas, mais uma vez, Deus se fez presente:
“Deus ouviu a voz do menino […] e o anjo de Deus chamou Agar do céu” (Gênesis 21,17).
Deus agiu sem exigir nada em troca, movido pelo clamor de uma criança e pelo desespero de uma mãe, como escreveu o Frei. O Senhor escuta o grito dos indefesos, assim como ouviu, em outros momentos da Escritura, o clamor do seu povo.
O texto bíblico afirma que o menino sobreviveu, cresceu e seguiu seu caminho longe da casa de Abraão, mas não distante da presença divina.
“Deus estava com o menino. Ele cresceu, habitou no deserto e tornou-se arqueiro” (Gênesis 21,20).
Ismael se estabeleceu na região de Parã, formou sua família, construiu sua própria trajetória e teve uma esposa egípcia. Nos capítulos seguintes, a Escritura detalha que ele teve doze filhos, descritos como chefes de clãs, o que confirmou o cumprimento da promessa feita por Deus: “Estes são os filhos de Ismael […] doze príncipes segundo suas tribos” (Gênesis 25,13-16).
Embora não integre a linhagem da promessa, que seguiu por Isaac, Ismael não foi excluído da ação divina. Sua descendência cresceu, se organizou e se estabeleceu como povo. Após a morte de Abraão, Ismael reapareceu ao lado de Isaac para sepultar o pai (cf. Gênesis 25,9): “E Isaque e Ismael, seus filhos, sepultaram-no na cova de Macpela”.
A experiência de Agar traz reflexões sobre a maternidade.
Agar não é apresentada como uma heroína, mas como alguém real, que sofre, foge, teme e, aos poucos, se fortalece. Deus a conduziu com misericórdia, incluindo também aqueles que estão à margem.
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