A língua que Jesus falou: o que é o aramaico, por que quase desapareceu e quem ainda o preserva

A língua que Jesus falou: o que é o aramaico, por que quase desapareceu e quem ainda o preserva

Parte das palavras de Jesus Cristo chegaram até os Evangelhos em sua forma original: Talita cumi, Effatá, “Eloí, Eloí, lamá sabactâni. Todas elas foram pronunciadas em aramaico, a língua mais falada no cotidiano da Palestina no século I. O aramaico revela que Deus se comunica de forma concreta, na linguagem do povo e compreender essa língua é também um caminho para se aproximar do contexto real da vida de Jesus na Terra.

Uma língua que uniu povos

O aramaico surgiu por volta do século XI a.C., na região da Síria e da Mesopotâmia, entre os povos arameus. Com o tempo, se expandiu e se tornou uma das línguas mais influentes do Oriente Médio. Durante o domínio do Império Persa, passou a ser utilizada como língua administrativa e de comunicação entre diferentes povos, como uma espécie de “idioma comum” da época.

Séculos depois, no tempo de Jesus, o aramaico era a língua do dia a dia, enquanto o hebraico permanecia ligado às Escrituras e à liturgia, e o grego também circulava em ambientes urbanos e administrativos.

O aramaico na Bíblia

Embora a maior parte do Antigo Testamento tenha sido escrita em hebraico, há trechos em aramaico, especialmente nos livros de Daniel (2–7) e Esdras (4–7). Além disso, surgiram os chamados Targumim, que eram traduções e explicações das Escrituras em aramaico, utilizadas nas sinagogas para tornar o conteúdo acessível ao povo. Nos Evangelhos, algumas expressões de Jesus foram mantidas no original aramaico para preservar sua força e autenticidade.

Por que o aramaico deixou de ser predominante?

O aramaico não desapareceu de forma repentina, mas a presença foi diminuindo ao longo da história por fatores políticos e culturais. Com a expansão do mundo helenístico, o grego ganhou espaço como língua de cultura e administração. Posteriormente, a partir do século VII, a expansão islâmica consolidou o árabe como língua dominante em grande parte do Oriente Médio. Com isso, o aramaico deixou de ser amplamente utilizado e permaneceu apenas em comunidades específicas.

Quem ainda fala aramaico?

O aramaico sobrevive até hoje em formas modernas conhecidas como neo-aramaico. Ele é falado por pequenos grupos, especialmente:

  • Comunidades cristãs no Oriente Médio (como assírios e caldeus).
  • Grupos na Síria, Iraque e regiões vizinhas.
  • Comunidades da diáspora na Europa e nos Estados Unidos.

Tradução da Bíblia: o que pode se perder?

A Bíblia foi escrita em três línguas principais: hebraico, aramaico e grego. Por isso, o trabalho de tradução exige conhecimento dessas línguas originais. A Igreja, em documentos como a Dei Verbum, reforça a importância de retornar às fontes para compreender corretamente a Palavra. Ainda assim, toda tradução tem limites e também traz respostas do seu tempo. Expressões carregam nuances culturais, sonoras e simbólicas que nem sempre podem ser totalmente reproduzidas. Por isso, em alguns casos, termos aramaicos foram preservados nos textos bíblicos. Leia mais sobre traduções em: Bíblia: história e tradução do livro sagrado.

Bíblia: história e tradução do livro sagrado

Idioma ainda é estudado

Mesmo com poucos falantes, o aramaico continua sendo estudado, especialmente em áreas como Teologia, Filosofia, História e Ciências da Religião. A Uninter, por exemplo, oferece um curso de extensão voltado às línguas bíblicas originais (aramaico, hebraico e grego) com o objetivo de aprofundar a compreensão das Escrituras e de seu contexto cultural. Esse tipo de formação permite acessar os textos em sua forma mais próxima do original e compreender melhor termos e expressões que marcaram a tradição bíblica.

O Pai Nosso em aramaico

O Pai Nosso foi ensinado por Jesus em um contexto em que o aramaico era a língua cotidiana. Ao longo dos anos, estudiosos e tradições cristãs preservaram versões dessa oração em aramaico (especialmente na tradição siríaca). A versão abaixo é uma adaptação espiritual baseada no aramaico, que busca expressar o sentido profundo da oração. Não representa uma tradução literal do texto bíblico, mas uma forma de meditação que ajuda a aprofundar seu significado:

Abwoon d’bashmaya
O Pai da vida, Fonte de tudo o que existe, que habitas no que é eterno.

Nethgadash shmakh
Que Teu nome seja santificado em cada pensamento, palavra e atitude.

Teytey malkuthakh
Que o Teu Reino se manifeste dentro de nós e entre nós.

Nehwey tzevyanakh aykanna d’bashmaya af b’arha
Que a Tua vontade aconteça na Terra como acontece no Céu.

Hawlan lachma d’sunganan yaomana
Dá-nos hoje o pão de que precisamos.

Washboqlan khaubayn aykanna d’af khnan shbwogan l’khayyabayn
Perdoa nossas faltas, assim como perdoamos.

Wela ta’lan l’nesyuna
Não nos deixes cair em tentação.

Ela patzan min bisha
Mas livra-nos do mal.

Metol dilakhie malkutha wahayla wateshbukhta l’alam almîn
Pois Teu é o Reino, o poder e a glória, para sempre. Amém.

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