Arquiteto brasileiro que teve projeto aprovado por Papa Francisco explica regras para construção de igrejas

Arquiteto brasileiro que teve projeto aprovado por Papa Francisco explica regras para construção de igrejas Tobias admira a Capela da Pesca Milagrosa, em Aparecida

Do altar à posição das imagens, da iluminação aos materiais utilizados na construção, praticamente tudo dentro das igrejas possuem significado litúrgico e seguem orientações específicas da Igreja Católica. A arquitetura sacra tem séculos de tradição, simbolismos e normas próprias que influenciam a experiência espiritual das celebrações.

Quem explica esse universo é o arquiteto Tobias Bonq Machado, responsável por mais de 300 projetos sacros no Brasil e no exterior. Entre eles, uma igreja para indígenas Yanomami aprovada diretamente pelo Papa Francisco e a Capela da Pesca Milagrosa, no complexo do Santuário Nacional de Aparecida.

Ele explica que projetar uma igreja exige muito mais do que domínio técnico da arquitetura. A posição do Altar, a iluminação, os materiais utilizados, o local do sacrário, as imagens, a acústica e até o silêncio visual seguem princípios e obedecem orientações litúrgicas da Igreja. 

“Quando nós vamos pensar em projetar, construir uma igreja ou fazer adequações de espaço litúrgico, são muitos elementos que precisam ser levados em consideração. Esse projeto deve estar muito bem fundamentado na teologia, na liturgia, em elementos técnicos da própria arquitetura, da arte, da simbologia e também da cultura do povo local”, explica.

Existem documentos litúrgicos e normas da Igreja que orientam como os espaços devem ser organizados. Entre os principais referenciais utilizados pelos arquitetos estão:

  • A Instrução Geral do Missal Romano;
  • O Missal Romano;
  • Documentos do Concílio Vaticano II;
  • Constituição Sacrosanctum Concilium;
  • Sagrada Escritura e Tradição Litúrgica Católica.

Tobias explica que compreender esses documentos é indispensável para que o projeto dialogue verdadeiramente com a fé católica.

“A comunidade precisa se reconhecer naquele espaço litúrgico. Por isso, o arquiteto precisa conhecer a história, as tradições locais, a cultura daquele povo e a forma como aquela comunidade vive sua fé.”

Tobias fez o projeto do espaço litúrgico e iluminação interna e externa da Igreja de Santa Teresinha, em Tietê (SP). Foto: arquivo pessoal

O que não pode faltar em uma igreja católica

Entre os elementos considerados centrais em qualquer templo católico estão: o Altar, o ambão e a sédia, conhecidos liturgicamente como polos celebrativos.

“O Altar é o Cristo sacrifício e comunhão. O ambão é o Cristo Palavra. E a sédia, ou cadeira da presidência, representa o Cristo que preside a celebração”, explica o arquiteto.

Além deles, também têm grande importância o batistério, a Capela do Santíssimo Sacramento, o espaço da reconciliação, as imagens devocionais e a área dedicada ao padroeiro ou padroeira da comunidade. Tobias chama atenção especialmente para o simbolismo do batistério. Todos esses elementos precisam estar organizados de maneira harmônica para preservar a centralidade de Cristo.

Batistério e o Trono de São José no Santuário Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, em Curitiba (PR). Foto: arquivo pessoal

Os excessos que podem prejudicar o espaço litúrgico

Na visão do arquiteto, um dos principais desafios atuais da arquitetura sacra é evitar excessos visuais e elementos que desviem a atenção do sentido espiritual da celebração.

“Às vezes, encontramos muitos banners, folders, equipamentos de áudio e vídeo ou elementos que dispersam muito mais a atenção do que ajudam a conduzir ao mistério celebrado.”

Outro ponto importante é a autenticidade dos materiais utilizados na construção.

“O espaço litúrgico é um espaço da verdade. Cristo não finge ser algo. Então, os materiais também precisam ser autênticos. Se usamos madeira, deve ser madeira de fato. Se usamos pedra, deve ser pedra verdadeira, e não um material que apenas imite pedra.”

Essa orientação tem a ver com a necessidade de a arquitetura de uma igreja transmitir verdade, equilíbrio e contemplação, nunca excesso ou artificialidade. Tobias também lembra o impacto espiritual que um espaço litúrgico bem pensado pode exercer sobre os fiéis, especialmente em cidades com mais correria e excesso de estímulos.

“Às vezes, diante de um mundo tão caótico, aquele espaço passa a ser um grande refúgio. Entramos em uma igreja e tudo parece silenciar porque encontramos nossa referência, nossa essência, que é o próprio Cristo.”

Por isso, o cuidado arquitetônico não possui apenas função estética e deve ajudar o fiel a rezar, contemplar, participar da celebração e reencontrar serenidade interior.

Arquiteto com uma vocação especial

A relação de Tobias com os espaços religiosos começou ainda na infância. Filho de uma família católica descendente de imigrantes poloneses, cresceu em meio à vida da comunidade paroquial. Foi coroinha, participou da Legião de Maria, da catequese, de grupos de jovens e também da música litúrgica como organista. Paralelamente à vivência religiosa, surgiu o interesse pela arquitetura. “Eu sempre tive vontade de pelo menos construir ou projetar uma igreja”, relata.

Arquiteto Tobias Bonk. Foto: arquivo pessoal

Depois de formado, abriu o escritório Creatos Arquitetura ao lado da esposa, que também conheceu durante a faculdade de Arquitetura e logo recebeu o primeiro projeto sacro. Em seguida, outros aconteceram. Além de igrejas, Tobias desenvolve projetos de restauração, iluminação, centros pastorais, casas paroquiais e espaços de evangelização em diferentes regiões do Brasil e também em países como Itália, Portugal, Espanha, Inglaterra, Filipinas, Paraguai, Polônia e Estados Unidos.

“Uma igreja é o espaço onde encontramos Cristo e também nossos irmãos de fé. Por isso, ela precisa ser referência de vida, de acolhimento e de encontro com Deus”, reforça.

Projetos que ganharam destaque

Entre os trabalhos mais conhecidos desenvolvidos por Tobias está a Capela da Pesca Milagrosa, localizada no complexo do Santuário Nacional de Aparecida. O espaço foi concebido no local ligado ao encontro da imagem de Nossa Senhora Aparecida nas águas do Rio Paraíba do Sul.

Outro projeto de destaque foi uma igreja destinada aos indígenas Yanomami em plena floresta amazônica, na região de Maturacá (AM), aprovada diretamente pelo Papa Francisco. É a Igreja Matriz Nossa Senhora de Lourdes. 

“Foi um projeto muito desafiador porque precisávamos compreender profundamente a cultura local para criar um local que realmente dialogasse com aquela comunidade.”

Igreja projetada para Povo Yanomami. Foto: Creatos Arquitetura

Com 32 metros de diâmetro, o projeto procurou representar Jesus Cristo como centro de tudo, a igualdade e a unidade dos irmãos. A estrutura tem 25 metros de altura, capacidade para 500 pessoas, com 875,49 m² e oito lados, com paredes que permitem ventilação. A obra foi financiada pelo Vaticano.

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