Copa do Mundo 2026: como é o catolicismo nos países que sediam o torneio?

Copa do Mundo 2026: como é o catolicismo nos países que sediam o torneio?

A Copa do Mundo de 2026 será diferente de todas as anteriores. Pela primeira vez na história do futebol, três nações dividirão a responsabilidade de sediar o maior espetáculo esportivo do planeta: México, Estados Unidos e Canadá. O torneio começa em 11 de junho, na Cidade do México, e encerra em 19 de julho, em Nova Jersey, com a grande final. São 48 seleções, 16 sedes espalhadas por um continente inteiro.

Para um olhar católico, esse fato é muito rico e interessante, pois se vê a diversidade cultural de cada um, assim como os encontros de fé. São três países que possuem relações diferentes com a religião católica e nenhuma delas é simples. Juntos, formam um mosaico que espelha os desafios e as glórias da Igreja e dos fiéis. Uma curiosidade do momento é que o Papa Leão XIV é o primeiro Pontífice nascido nos Estados Unidos, um dos anfitriões.

México e a fé que é sua identidade

Se há um país no mundo onde o catolicismo é também uma questão de identidade, com orgulho, é o México. Antes mesmo de a bola rolar na Cidade do México, em 11 de junho, é preciso entender que a capital abriga o segundo templo católico mais visitado do planeta: a Basílica de Nossa Senhora de Guadalupe, no monte Tepeyac. O local recebe cerca de 20 milhões de fiéis por ano, perdendo apenas para a Basílica de São Pedro, no Vaticano.

A Virgem Morena e o coração de um povo

Em 1531, dez anos após a chegada dos conquistadores espanhóis, um índio recém-convertido chamado Juan Diego relatou que a Virgem Maria lhe aparecera quatro vezes no monte Tepeyac, deixando como sinal Sua imagem milagrosamente impressa na tilma — o manto de fibra de agave que ele carregava. A “Virgem Morena“, com traços indígenas e manto estrelado, tornou-se imediatamente um elo entre duas culturas em guerra. Em 1539, apenas oito anos depois das aparições, mais de 8 milhões de astecas já haviam abraçado o batismo.

A Virgem não apareceu como uma senhora europeia, mas com feições do povo nativo, falando em náuatle, a língua asteca, e Se identificando como Mãe de todos os que habitavam aquela terra. Papa João Paulo II reconheceria séculos depois a amplitude espiritual dessa devoção, declarando Nossa Senhora de Guadalupe padroeira principal de toda a América Latina e Imperatriz da América. Sua festa, celebrada em 12 de dezembro, é a maior manifestação religiosa do continente americano.

A Igreja no México foi introduzida pela colonização espanhola no século XVI, carregando as contradições da conquista, ao mesmo tempo que missionários como frei Bartolomeu de Las Casas defendiam os povos originários, o sistema colonial os explorava. Em 1530, foi erigida a Diocese do México. Mas os séculos seguintes seriam marcados por conflito.

Com a independência da Espanha em 1810, explodiram as tensões entre a Igreja e o Estado. O ponto mais dramático veio em 1917, quando a nova Constituição mexicana declarou a Igreja Católica, na prática, ilegal e proibiu o ensino religioso em escolas, confiscando propriedades eclesiásticas e expulsando ordens religiosas. Entre 1926 e 1929, esse conflito explodiu em uma guerra civil que ficou conhecida como a Guerra Cristeira: padres celebravam missa em segredo, fiéis pegavam em armas gritando “Viva Cristo Rey” e centenas de sacerdotes e leigos foram martirizados. Vinte e cinco deles foram canonizados por João Paulo II em 2000, entre eles, São Cristóvão Magalhães. Apenas em 1992 a Igreja recuperou seu estatuto legal pleno perante o Estado mexicano. A perseguição deixou marcas, mas também forjou uma fé popular vigorosa, que sobreviveu subterrânea durante décadas sustentada justamente pela devoção à Virgem de Guadalupe.

Os números e o momento

Segundo o Censo de 2020, o País tem quase 80% de pessoas que se declaram católicas. De acordo com a Santa Sé, há 99 circunscrições eclesiásticas, incluindo 18 arquidioceses, 74 dioceses e 7.165 paróquias instituídas. Quem chegar à Cidade do México em junho de 2026 encontrará um local onde a fé pulsa nas ruas, nas imagens da Virgem nos táxis e nos muros, nos altares espontâneos nas esquinas e nas filas que se formam toda semana no Tepeyac. O catolicismo mexicano é popular, sincrético (incorporou elementos dos cultos nativos) e resiliente.

Estados Unidos: o país do Papa

Papa surgiu na sacada da Basílica de São Pedro e fez seu primeiro discurso./Foto: © Vatican Media

Em um giro histórico, a Copa do Mundo de 2026 ocorre no mesmo país que, em maio de 2025, deu ao mundo seu primeiro Papa. O cardeal Robert Francis Prevost, nascido em Chicago em 14 de setembro de 1955, foi eleito Pontífice em 8 de maio de 2025, assumindo o nome de Leão XIV. É o primeiro nascido nos Estados Unidos.

O catolicismo americano não foi construído por colonizadores, diferentemente de México e do Canadá. Nos Estados Unidos, a fé católica cresceu principalmente pelas ondas de imigração: irlandeses e italianos no século XIX, poloneses e alemães, e, mais recentemente, mexicanos, cubanos e brasileiros. É essa diversidade que faz da Igreja americana um fenômeno único.

Os Estados Unidos são o quarto país do mundo em número absoluto de católicos, atrás apenas do Brasil, do México e das Filipinas. Segundo o Pew Research Center, cerca de 20% dos adultos americanos se identificam como católicos, o que representa aproximadamente 53 milhões de pessoas. 

A Arquidiocese de Baltimore, fundada em 1789, foi a primeira diocese americana. Mas foi a partir da segunda metade do século XIX, com a chegada massiva de imigrantes europeus, que a Igreja se enraizou especialmente no Nordeste, de Boston a Nova York, de Filadélfia a Chicago. Até hoje, essa é a região com a maior concentração de católicos do País.

Dados iniciais das comunidades locais relacionados a 2025 indicam que as conversões ao catolicismo nos EUA cresceram de forma expressiva tanto na Quaresma de 2024 quanto na de 2025, sugerindo que a morte do Papa Francisco e a eleição de seu sucessor dos EUA reacenderam o interesse de parte da população. O IDe+ já falou sobre esse assunto neste post: Como se tornar católico? Busca por conversão cresceu 373%.

Para os peregrinos que viajarão às sedes americanas, Nova York, Los Angeles, Dallas, San Francisco, Seattle, Kansas City, Boston, Miami, Filadélfia, encontrarão uma Igreja viva e diversa.

Canadá: a Igreja da penitência

A acolhida ao Papa Francisco no Canadá | Foto Vatican News

Se o catolicismo mexicano é marcado pela resistência e o americano pela diversidade, o catolicismo canadense tem em destaque uma palavra que o Papa Francisco usou ao visitar o País em julho de 2022: penitência. O Pontífice chamou aquela viagem de “peregrinação penitencial”. 

A fé católica chegou à nação exatamente em 7 de julho de 1534, quando um padre francês da tripulação do explorador Jacques Cartier celebrou a primeira missa nas praias da península de Gaspé, na então chamada Nova França. A colonização francesa trouxe consigo franciscanos, jesuítas, ursulinas e sulpicianos, religiosos que fundaram escolas, hospitais e seminários nas colônias do Quebec e de Montreal. Quebec se tornou o berço do catolicismo canadense e durante séculos, a Igreja foi o pilar da vida social, política e cultural da província. Em 1642, a própria fundação de Montreal, batizada de Ville-Marie, foi uma iniciativa de fé.

A Igreja Católica é a maior denominação religiosa do Canadá, com cerca de 44% da população se identificando como católica. A imigração recente, especialmente de filipinos, de africanos francófonos e de latinos, está levando novos fiéis em comunidades. Novos espaços religiosos surgem em conexão com esses recém-chegados.

Três países e a fé

Há algo de providencial no fato de que o maior evento esportivo do mundo acontecerá em 2026 no continente americano, o mesmo que hoje abriga cerca de 47,7% de todos os católicos do mundo, segundo o Anuário Pontifício de 2026 e em um local que atrai multidões de 20 milhões de peregrinos por ano só no Santuário mexicano. A bola vai rolar e, com ela, a história de uma fé que, como a da Virgem de Guadalupe impressa na tilma de Juan Diego, insiste em deixar sua marca onde menos se esperaria encontrá-la.

As sedes americanas do torneio incluem Nova York/Nova Jersey (onde será a final, em 19 de julho), Los Angeles, Dallas, San Francisco, Seattle, Kansas City, Boston, Miami e Filadélfia. O Canadá sediará jogos em Vancouver e Toronto. O México terá partidas na Cidade do México, Guadalajara e Monterrey, três das cidades mais católicas do continente.

Torça pelo Brasil com fé

O portal IDe+ preparou uma ação especial que une futebol, emoção e espiritualidade durante toda a competição. A partir de 11 de junho, os torcedores poderão acompanhar gratuitamente a tabela completa dos jogos até a grande final da Copa, em um material pensado para quem quer viver cada partida com ainda mais envolvimento e propósito.

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