Foto: arquivo da família
Na madrugada de 13 de janeiro de 2018, um sábado, amigos e familiares rezavam reunidos ao redor de uma cama no Christie Hospital, em Manchester, Inglaterra. Pedro Ballester deu o último suspiro aos 21 anos, com quem amava ao lado e o terço nas mãos. Oito anos depois, a Igreja Católica abriu oficialmente o processo que pode levá-lo à santidade e a ser um dos primeiros santos da chamada Geração Z.
A notícia foi anunciada pela Diocese de Salford em 13 de maio de 2026, conferindo a Pedro o título de Servo de Deus, primeiro passo formal no longo caminho da canonização. O comunicado oficial da Diocese apontou o que tornou essa vida digna de investigação:
“Uma vida de fé e testemunho que continua a inspirar muitos. O exemplo de Pedro, especialmente diante do sofrimento, continua a ressoar com muitas pessoas hoje.”
Pedro Ballester Arenas nasceu em Manchester em 22 de maio de 1996, filho do cirurgião Pedro Ballester Nebot e de Esperanza Arenas Arguelles, espanhóis radicados no Reino Unido e membros do Opus Dei. Cresceu entre a Inglaterra e a Espanha, com passagens por Maiorca, e se destacou academicamente, concluiu os exames com notas altas em matemática, matemática avançada, química, física e espanhol.
Aos 17 anos, tomou a decisão de ingressar no Opus Dei como membro numerário, assumindo um compromisso de celibato vitalício e de buscar a santidade no meio do mundo ordinário, no trabalho, no estudo e nas amizades. Em 2014, Pedro conquistou uma vaga no Imperial College de Londres, onde iniciou o curso de Engenharia Química. Nessa mesma época, começou a sentir fortes dores nas costas e, durante meses, a suspeita era de um problema muscular. O diagnóstico porém foi de um osteossarcoma pélvico agressivo e o câncer já estava avançado demais para ser tratado pelos meios convencionais quando Pedro tinha apenas 18 anos.
Foram três anos de tratamento intenso, internações, quimioterapia e dores que os que o acompanharam descrevem como insuportáveis. Pedro foi levado à Alemanha para receber uma terapia de prótons experimental que, inicialmente, deu esperanças. Ele chegou a desfrutar de um verão de relativa tranquilidade e até retomou os estudos de Engenharia em Manchester, mas em fevereiro de 2017, o câncer voltou com força. Os médicos lhe deram doze meses de vida. Pedro tinha 20 anos e, segundo quem estava ao seu lado, naquele momento fez um esforço consciente para sorrir, para que a mãe não chorasse.
Quando as forças lhe permitiam, rezava todos os dias o terço e fazia oração mental. Quando não conseguia, a oração era oferecer os sofrimentos. Os amigos iam visitá-lo com frequência e quem convivia com ele, incluindo a equipe do hospital, o descreve com alguém com alegria, que via sentido para o que está vivendo, inclusive para a dor.
Padre Joseph Evans, capelão da residência universitária Greygarth Hall em Manchester, que acompanhou Pedro no último ano de sua vida, resumiu à imprensa que Pedro “encontrou felicidade na profunda entrega de si mesmo e no profundo sofrimento”. A Universidade de Manchester concedeu postumamente o título de engenheiro químico, em reconhecimento ao esforço do jovem e ao impacto que teve na instituição.
Quando Pedro morreu, em 13 de janeiro de 2018, cerca de 500 pessoas lotaram a Igreja para se despedir. O futuro cardeal Arthur Roche foi do Vaticano para presidir a cerimônia e a família não esperava nada parecido, pois Pedro não era famoso e não tinha redes sociais com milhões de seguidores. Era um estudante de engenharia que rezava, estudava, visitava amigos doentes e levava a sério a ideia de que a santidade é possível na vida ordinária.
Após sua morte, passou a haver um movimento uma devoção privada em torno de Pedro Ballester, especialmente entre jovens universitários e membros do Opus Dei. Seu túmulo, no cemitério Sul de Manchester, recebe visitantes e peregrinos, e foram registradas mais de 150 graças atribuídas à sua intercessão. A oração para pedir sua ajuda já foi traduzida para 28 línguas.
Um dos casos de maior impacto é o de uma adolescente espanhola de 15 anos que, em 2023, sofreu um derrame cerebral grave e corria risco de vida. Após familiares pedirem a intercessão de Pedro Ballester, a jovem teve uma recuperação surpreendente e rápida, classificada pelos médicos como inexplicável.
O processo de canonização, agora em sua fase diocesana, coleta testemunhos, cartas, diários e relatos de graças. Mais de 60 pessoas que conheceram Pedro, incluindo familiares e amigos, já foram entrevistadas pelas autoridades da Igreja. As informações seguirão ao Dicastério para as Causas dos Santos, em Roma, que analisará se Pedro viveu as virtudes cristãs de forma heroica — requisito essencial para avançar no processo.
A expressão “Geração Z” designa os nascidos entre meados dos anos 1990 e início dos anos 2010, que é a geração que cresceu com internet, smartphones e redes sociais como parte da paisagem cotidiana. Pedro Ballester nasceu em 1996. Antes dele, dois outros jovens percorreram caminhos parecidos rumo à canonização. São Carlo Acutis, italiano nascido em 1991, beatificado em 2020 e canonizado em 2025, que ficou conhecido por sua devoção à Eucaristia e por criar um site catalogando milagres eucarísticos ao redor do mundo. E também São Pier Giorgio Frassati, italiano nascido em 1901 e canonizado também em 2025, é o jovem esportista e apaixonado pelos pobres que se tornou modelo para universitários católicos do mundo inteiro.
Pedro segue os passos desses santos jovens e modernos. Líderes religiosos acreditam que ele oferece um modelo de fé autêntico para os jovens atuais. O título de sua biografia espiritual, publicada com base em memórias, cartas e testemunhos de quem o conheceu, resume bem quem ele foi: “Nunca fui tão feliz.” A frase é dele e dita durante o a luta contra o câncer.
O Catecismo da Igreja Católica ensina que a santidade não é privilégio de poucos, mas vocação de todos os batizados: “Todos os fiéis, qualquer que seja o seu estado ou condição de vida, são chamados à plenitude da vida cristã e à perfeição da caridade” (CIC § 2013).
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