Antes de qualquer estúdio de gravação, palco ou microfone, havia vozes cantando a Deus. A Bíblia é, entre muitas outras coisas, um livro de música. Da passagem pelo Mar Vermelho ao nascimento de Jesus, da prisão de Paulo ao Apocalipse, o canto está presente como resposta natural do ser humano diante de Deus.
Em julho, foi celebrado o Dia do Cantor. O IDe+ convida o leitor a descobrir os cantores que a Escritura preservou.
O Livro dos Salmos é o maior cancioneiro da história humana. São 150 composições, entre hinos, lamentos, ações de graças, súplicas e celebrações, escritas ao longo de séculos pelo povo de Israel. A tradição atribui 73 delas ao rei Davi, cantor, músico e compositor antes de ser rei. Os Salmos eram cantados no Templo de Jerusalém durante os sacrifícios, nas peregrinações anuais, nas festas litúrgicas e ainda formam a espinha dorsal da Liturgia das Horas da Igreja Católica, rezada por monges, freiras e sacerdotes ao longo de todo o dia, todos os dias.
Além dos Salmos, a Bíblia conta com o Livro do Cântico dos Cânticos, um poema de amor atribuído ao rei Salomão, que a tradição cristã lê como alegoria do amor de Deus pela alma e de Cristo pela Igreja.
Moisés entoou o primeiro grande cântico registrado na Escritura logo depois da travessia do Mar Vermelho: “Cantarei ao Senhor, pois cobriu-se de glória” (Êx 15,1). Sua irmã Míriam pegou o tamborim e conduziu as mulheres em dança e canto: “Cantai ao Senhor, pois cobriu-se de glória” (Êx 15,21). Era música nascida do milagre, espontânea e coletiva.
Ana, mãe do profeta Samuel, cantou após anos de esterilidade e humilhação, ao levar o filho ao Templo: “Meu coração exulta no Senhor, minha força se eleva graças ao Senhor” (1Sm 2,1). Esse cântico viria a inspirar séculos depois o mais famoso de todos.
Maria, ao visitar sua prima Isabel, proclamou o Magnificat, considerado por estudiosos “o último dos salmos hebraicos e o primeiro dos hinos cristãos”:
“Minha alma glorifica ao Senhor, meu espírito exulta de alegria em Deus, meu Salvador” (Lc 1,46-47).
Uma jovem de Nazaré, sem instrumento, sem plateia, na casa de uma prima e o canto que saiu dela atravessou dois milênios e ainda é rezado todos os dias na Igreja Católica, nas Vésperas.
No mesmo Evangelho de Lucas, Zacarias canta ao ver o filho João Batista nascer (o Benedictus, Lc 1,68-79), os anjos cantam na noite de Natal (“Glória a Deus nas alturas”, Lc 2,14) e o ancião Simeão canta ao ver o menino Jesus no Templo (o Nunc Dimittis, Lc 2,29-32).
Paulo e Silas, acorrentados numa prisão em Filipos, feridos nas costas por açoites, cantaram hinos a Deus enquanto os outros presos os ouviam (cf. At 16,25). Era meia-noite.
Santo Agostinho sintetizou com uma frase o que a Escritura mostra em toda a sua extensão: “Quem canta, ora duas vezes.” A frase é atribuída a ele pela tradição e resume o que a Bíblia demonstra: cantar a Deus é uma das suas formas mais antigas, mais humanas e mais completas.
Deixe seu comentário sobre o que você achou do conteúdo.
Assine nossa newsletter, receba nossos conteúdos e fique por dentro
de todas as novidades.