Quando se fala em gigantes na Bíblia, provavelmente o primeiro nome que vem à cabeça é Golias. Mas muito antes do confronto entre o guerreiro filisteu e Davi, o Antigo Testamento já mencionava personagens e povos associados à grande estatura.
Entre eles, estão os misteriosos nefilins, citados ainda no livro do Gênesis, além dos anaquins, emins e zanzumins. A Bíblia apresenta algumas informações sobre esses grupos, mas não esclarece todos os detalhes sobre sua origem, identidade e características. É justamente nesse espaço que, ao longo do tempo, surgiram diferentes interpretações, tradições e histórias que ultrapassam aquilo que o texto bíblico efetivamente afirma.
A primeira referência está logo no início da Sagrada Escritura. Em Gênesis (6,1-4), o texto relata que, quando a humanidade começou a se multiplicar, aparecem os nefilins: “Naquele tempo havia gigantes na terra, e também depois” (Gênesis 6,4).
O mesmo versículo menciona ainda homens valentes e famosos da antiguidade. Pouco depois, a narrativa se volta para a crescente maldade e violência da humanidade e para a história de Noé e do dilúvio (Gênesis 6,5-13). Porém, o texto não explica declaradamente quem eram os “filhos de Deus” nem desenvolve uma história sobre a origem dos nefilins. Por isso, interpretações que tentam preencher essas questões que o texto não esclarece não devem ser apresentadas como se estivessem explicitamente nas Escrituras.
No período do Êxodo, durante a caminhada dos israelitas rumo à Terra Prometida, o tema da grande estatura volta a aparecer. Moisés envia homens para observar Canaã e, ao retornarem, alguns exploradores descrevem seus habitantes como pessoas de grande altura. Eles afirmam ter visto ali entre eles os filhos de Anaque. Em seus relatos afirmam:
“Também vimos ali gigantes […] e éramos, aos nossos próprios olhos, como gafanhotos” (Números 13,33).
O relato mostra o tamanho do medo provocado por aqueles habitantes. Calebe, entretanto, tenta tranquilizar o povo e afirma que Israel poderia avançar e conquistar a terra (Números 13,30).
Os descendentes de Anaque, chamados anaquins, voltam a ser mencionados em outros textos do Antigo Testamento. Deuteronômio (2,10-11;20-21) descreve os emins como um povo grande, numeroso e alto como os anaquins. Na mesma passagem, há outra menção aos zanzumins, que são igualmente descritos como numerosos e altos.

O gigante mais conhecido da Bíblia surge muito depois. Golias era um guerreiro filisteu que desafiou o exército de Israel. O Primeiro Livro de Samuel descreve sua altura como seis côvados (antiga medida de comprimento baseada na distância do cotovelo até a ponta do dedo médio) e um palmo e detalha sua pesada armadura e suas armas (1 Samuel 17,4-7).
Segundos os relatos na Bíblia, no livro 1 Samuel (17,38-40;45-51), diante dele aparece Davi, ainda jovem, que rejeita a armadura de Saul e vai ao combate levando seu cajado, cinco pedras lisas e uma funda. Davi deixa claro que sua confiança não está no próprio tamanho ou nas armas, mas no Senhor. Ele acerta Golias com uma pedra na testa e o derrota.
Há, porém, um detalhe que ajuda a compreender por que Gate aparece novamente nessa história. Muito antes do confronto entre Davi e Golias, o livro de Josué afirma que, após as batalhas contra os anaquins, alguns deles permaneceram em Gaza, Asdode e Gate (Josué 11,21-22). A menção a Gate chama atenção porque essa mesma cidade aparece posteriormente como a terra natal de Golias.
E tem mais! O Segundo Livro de Samuel registra outros combates contra guerreiros ligados a Rafa, em Gate (2 Samuel 21,15-22). Entre eles aparece um homem de grande estatura que possuía seis dedos em cada mão e seis em cada pé, totalizando 24 dedos. Ele desafiou Israel e foi morto por Jônatas, sobrinho de Davi. O capítulo termina afirmando que quatro desses homens eram descendentes de Rafa, em Gate, e morreram pelas mãos de Davi e de seus servos.
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