Luciano Moreira e a maior fábrica de mosquitos do mundo — Foto: Peter Illiciev
Um projeto brasileiro que utiliza mosquitos para combater doenças como dengue, zika e chikungunya ganhou reconhecimento internacional em 2025. O engenheiro agrônomo Luciano Andrade Moreira foi escolhido pelos editores da revista Nature como uma das dez pessoas que moldaram a ciência no mundo neste ano, integrando a lista anual “Nature’s 10”, considerada uma das mais prestigiadas do meio científico.
Moreira é o principal nome por trás do chamado Método Wolbachia, desenvolvido ao longo de mais de 17 anos de pesquisa. A técnica utiliza uma bactéria natural, a Wolbachia, introduzida no mosquito Aedes aegypti. Com isso, o inseto perde a capacidade de transmitir vírus como os da dengue, zika e chikungunya, sem que seja necessário exterminar a espécie.
A Wolbachia é uma bactéria presente naturalmente em diversos insetos. No laboratório, ela é inserida nos ovos do Aedes aegypti e passa a viver dentro das células do mosquito. Segundo a própria Nature, os cientistas ainda investigam o mecanismo exato, mas a bactéria pode competir com os vírus por recursos ou estimular a produção de proteínas antivirais.
O ponto decisivo é que as fêmeas infectadas transmitem a bactéria às próximas gerações. Assim, os chamados “wolbitos” se espalham naturalmente após serem liberados em áreas urbanas, reduzindo de forma sustentável a circulação dos vírus.
O método é aplicado em larga escala por meio de uma biofábrica instalada em Curitiba (PR), considerada hoje a maior do mundo nesse tipo de produção. O projeto é fruto de uma parceria entre a Fiocruz, o Instituto de Biologia Molecular do Paraná (IBMP) e o World Mosquito Program (WMP), organização sem fins lucrativos presente em 14 países.
Atualmente, o Método Wolbachia integra a estratégia nacional de enfrentamento das arboviroses do Ministério da Saúde e está em implantação em cidades como Brasília (DF), Balneário de Camboriú (SC), Blumenau (SC), Joinville (SC), Luziânia (GO) e Valparaíso de Goiás (GO). A escolha dos municípios considera indicadores epidemiológicos, especialmente a alta incidência de casos nos últimos anos.
Pesquisas recentes indicam que cidades que receberam os mosquitos com Wolbachia registraram reduções médias de 63% nos casos de dengue, com resultados que chegaram a até 89% em alguns municípios. Um estudo publicado na revista The Lancet reforçou a eficácia da estratégia. Em um país que enfrenta crises recorrentes de arboviroses, agravadas pelas mudanças climáticas, o impacto do projeto ganha ainda mais relevância. Somente neste ano, mais de 1,7 mil mortes por dengue foram registradas no Brasil.
A lista “Nature’s 10” não é um prêmio nem um ranking acadêmico, mas um destaque editorial às iniciativas científicas de maior impacto global. A inclusão de Luciano Moreira coloca o projeto brasileiro ao lado de avanços históricos, como terapias genéticas inéditas e grandes descobertas astronômicas. O pesquisador destacou também a criatividade da ciência brasileira diante de recursos limitados. O reconhecimento reforça o papel da pesquisa nacional na busca por soluções concretas para problemas de saúde pública e evidencia como a ciência pode transformar realidades quando aliada à persistência, inovação e compromisso social.
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