A imagem chega pelo WhatsApp com uma legenda cheia de emoção: “Milagre confirmado! Jesus apareceu nos céus sobre uma cidade no Brasil.” A foto era impressionante, com luz dourada, figura reconhecível, nuvens dramáticas, mas era também completamente falsa. Gerada por inteligência artificial (IA), circulou por grupos de oração, foi compartilhada por pessoas de boa fé e causou confusão em comunidades inteiras.
Não é um caso isolado. Imagens de santos chorando, cachorros “lendo a Bíblia”, aparições marianas geradas digitalmente, vídeos de pessoas falando coisas que nunca diriam… o ambiente digital está repleto de conteúdo religioso produzido ou manipulado por IA e aquelas pessoas dispostas a acreditar em sinais e milagres são as mais vulneráveis.
O Vaticano vivenciou em primeira mão como a IA pode ser usada de forma enganosa. Papa Francisco foi alvo de diversas imagens deepfake (imagens falsas criadas por IA), enquanto Papa Leão XIV revelou que se recusou a permitir que um “avatar papal” seu realizasse audiências privadas e respondesse a perguntas.
Em 15 de maio de 2026, Papa Leão XIV assinou sua primeira encíclica, a Magnifica Humanitas, “sobre a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial”, publicada em 25 de maio. Dividida em cinco capítulos, a encíclica parte de um pressuposto: a tecnologia não é uma “força antagônica em relação à pessoa”, nem “um mal em si mesma”. No entanto, “não é neutra, pois assume o rosto” de quem a usa.
O quinto princípio da Doutrina Social da Igreja na era digital, segundo a encíclica, é a justiça social: ela deve garantir a todos acesso equitativo às oportunidades, proteger os mais vulneráveis, combater o ódio e a desinformação e submeter o uso das tecnologias ao controle público.
A encíclica dedica ainda um capítulo ao que chama de “ecologia da comunicação”, alertando para os impactos da manipulação algorítmica e da captura da atenção humana. Na era da inteligência artificial, “a dignidade humana corre o risco de ser ofuscada por novas formas de desumanização”, e há “o dever urgente de permanecer profundamente humanos”, afirma o Papa.
Não existe fórmula infalível, mas há sinais que ajudam qualquer pessoa a desconfiar antes de compartilhar:
A regra é discernir antes de agir. São João da Cruz ensinava que não se deve crer em visão ou imagem sem submetê-la à autoridade da Igreja e o mesmo critério vale para o ambiente digital.
Ferramentas gratuitas como o Google Imagens (basta arrastar a foto para o buscador) permitem verificar se a imagem já circulou antes em outros contextos. Sites de verificação de fatos como o Agência Lupa e o Aos Fatos também trabalham com desinformação religiosa.
No campo oposto (o uso responsável da IA na fé), existe uma ferramenta desenvolvida especificamente para auxiliar católicos: o Magisterium, disponível em magisterium.com. A plataforma foi criada pela Longbeard, uma empresa de tecnologia com sede em Roma, e é alimentada com documentos do Magistério eclesial, tornando “o ensinamento da Igreja Católica acessível como nunca antes”, segundo seu site.
O sistema usa cerca de 27 mil documentos da Igreja para ajudar os fiéis a entenderem seus ensinamentos, incluindo textos como as Confissões de Santo Agostinho e a Suma Teológica de São Tomás de Aquino. O projeto mantém dois conselhos de padres para revisar os textos incluídos.
Entre os parceiros e clientes da empresa estão organizações da Santa Sé, como o Dicastério para o Serviço do Desenvolvimento Humano Integral e a Fundação Observatório do Vaticano. Os próprios desenvolvedores alertam que a ferramenta “não deve ser o único recurso para alguém que tenta entender os ensinamentos católicos”, recomendando sempre consultar fontes primárias como o Catecismo da Igreja Católica e especialistas formados.
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