Foto: Reprodução The Chosen
O clima era de expectativa. A cidade pequena comentava os milagres, os rumores se espalhavam e a cidade de Nazaré aguardava ver com os próprios olhos aquilo que já se dizia sobre o filho do carpinteiro. Mas o que começou como celebração, terminou da pior forma. É neste cenário que uma das falas mais impactantes de The Chosen acontece: “Eu sou a Lei de Moisés”.
A cena está no episódio 3 da terceira temporada, intitulado “Médico, cura-te a ti mesmo”. Para compreendê-la, é preciso ir além do impacto da frase e voltar ao Evangelho que a inspira.
Jesus retorna à Sua cidade natal durante as celebrações do Ano-Novo judaico. Há alegria, reencontros e curiosidade. Na sinagoga, Ele é convidado a ler a Escritura e proclama o trecho do Profeta Isaías sobre o Ungido que traz libertação aos pobres e oprimidos. Até ali, The Chosen segue o relato bíblico. O momento decisivo vem quando Jesus afirma que aquela profecia se cumpre n’Ele.
Os líderes religiosos locais começam a questionar Sua autoridade. Nazaré o conhece desde criança. “Não é este o filho de José?” — a dúvida que aparece no Evangelho é também retratada na série. Nesse contexto de confronto é que houve a materialização da cena com a frase: “Eu sou a Lei de Moisés”. A produção faz a representação com liberdade pela dramatização e não significa uma citação literal da Bíblia, mas tem licença criativa para expressar essa passagem da vida de Jesus.
O relato está no Evangelho de São Lucas (4,16-30). O texto diz que Jesus entrou na sinagoga “segundo o seu costume” (Lucas 4,16). Ele lê Isaías e declara:
“Hoje se cumpriu esta Escritura que acabais de ouvir” (Lucas 4,21).
Em princípio, todos falam bem d’Ele. Mas a admiração rapidamente se transforma em incredulidade. Jesus antecipa a resistência dizendo:
“Médico, cura-te a ti mesmo” (Lucas 4,23).
Também cita os milagres feitos em Cafarnaum. Previu que Lhe pediriam para repetir os prodígios ali e ilustrou que “nenhum profeta é bem recebido na sua própria terra”. “Ao ouvirem essas palavras, todos na sinagoga ficaram furiosos. Levantaram-se, expulsaram-no da cidade e o levaram até o alto do monte (…) para o precipitar dali abaixo” (Lucas 4,28-29).
A Bíblia não registra a frase “Eu sou a Lei de Moisés”, mas se apresenta como o cumprimento da promessa messiânica. No Evangelho de São Mateus (5,17), Jesus ensina:
“Não penseis que vim abolir a Lei ou os Profetas. Não vim abolir, mas dar-lhes pleno cumprimento.”
A Lei dada a Moisés era dom de Deus, caminho pedagógico para conduzir o povo. A tradição cristã sempre ensinou que ela preparava o coração para Cristo. Nele, a Lei encontra sua plenitude.
Tanto na série quanto no Evangelho, o escândalo não está na leitura de Isaías, mas na identidade de Jesus. Nazaré esperava milagres, não uma declaração messiânica. Para os judeus da época, a Lei era o caminho para Deus. Ao afirmar ser o cumprimento das promessas — e, na linguagem dramática da série, a própria Lei — Jesus reivindica uma autoridade que ultrapassa qualquer rabino ou mestre.
A cena é uma revelação sobre quem Ele é e ensina que Jesus não veio abolir a Lei, mas levá-la à plenitude no amor. Ele não rejeita a tradição — participa da sinagoga, lê a Escritura e respeita. O conflito surge quando Ele revela que todas aquelas promessas convergem para Sua pessoa.
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