A geladeira cheia parece um detalhe doméstico sem importância, mas cada alimento desperdiçado representa água consumida, energia gasta, emissões de carbono lançadas na atmosfera e, segundo o pensamento que a Igreja tem desenvolvido há pelo menos uma década, uma forma de desrespeito à criação de Deus.
Em 2019, o Sínodo da Amazônia propôs formalmente incluir no Catecismo da Igreja Católica o conceito de pecado ecológico, definido no documento final como “uma ação ou omissão contra Deus, contra o próximo, a comunidade e o meio ambiente.” Papa Francisco, em audiência com advogados penalistas logo após o Sínodo, confirmou que estava “pensando em introduzir no Catecismo da Igreja Católica o pecado contra a ecologia”. A discussão continua em aberto quanto à inclusão formal no Catecismo, mas o conceito já está consolidado na doutrina e nos documentos papais.
A trajetória começa em 2015, com a encíclica Laudato Si’, na qual Papa Francisco propôs o conceito de ecologia integral, a ideia de que não se pode cuidar da natureza sem cuidar das pessoas, e vice-versa. A destruição ambiental é uma questão moral e espiritual, porque a criação pertence a Deus e foi confiada ao ser humano para ser administrada com responsabilidade.
Em 4 de outubro de 2023, festa de São Francisco de Assis, o Papa publicou a Exortação Apostólica Laudate Deum, documento mais curto, direto e urgente. Nele, o Pontífice citou os bispos africanos que definiram as alterações climáticas como “um exemplo chocante de pecado estrutural” e os bispos do Sínodo da Amazônia, que afirmaram que “os ataques à natureza têm consequências na vida dos povos.” A conclusão do documento é uma advertência sem eufemismo: “Um ser humano que pretenda tomar o lugar de Deus torna-se o pior perigo para si mesmo.”
O pecado ecológico acontece, segundo a definição proposta no Sínodo e desenvolvida pela teologia moral, em escolhas cotidianas que, somadas, contribuem para a destruição da casa comum, como o desperdício de alimentos, o consumo excessivo e desnecessário, a indiferença diante de decisões políticas e empresariais que degradam o meio ambiente, bem como a recusa em mudar hábitos mesmo diante de evidências claras de impacto.
É importante ressaltar que a Igreja não está propondo uma lista de produtos proibidos, mas que seja feito um exame de consciência ampliado, que inclua, além das relações interpessoais, a relação com a criação, que pode ser traduzidas em gestos concretos como reduzir o desperdício de alimentos, consumir com mais discernimento, apoiar iniciativas que protejam o meio ambiente e, especialmente, reconhecer que as escolhas individuais têm peso coletivo.
Como ensinou Francisco na Laudato Si’, “tudo está conectado”, e isso inclui a geladeira, o supermercado, o lixo na calçada e as queimadas.
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