Você provavelmente conhece pessoas que foram batizadas, fizeram a primeira comunhão, podem ter sido crismado, e hoje não frequenta mais a Igreja, não reza, não se identifica como católico praticante, embora tampouco diga que não acredita em Deus. Essa pessoa existe aos milhões no Brasil, na Europa, na América Latina e a Igreja Católica acaba de publicar um documento reconhecendo que essa ruptura é real, está crescendo e precisa ser enfrentada com honestidade.
O texto se chama “Vinde a Mim – Considerações sobre a transmissão da fé em uma mudança de época” e foi divulgado no final de outubro de 2026 pelo Dicastério para a Doutrina da Fé, em resposta a um convite do Papa Leão XIV para dar novo impulso ao anúncio de Jesus Cristo. O documento é uma reflexão honesta sobre o que está acontecendo e o que a Igreja pode fazer a respeito.
Leão XIV disse, em reunião com o Dicastério para a Doutrina da Fé, que “em algumas regiões do mundo, a transmissão da fé está praticamente interrompida”. Não é uma figura de linguagem. O documento parte dessa constatação para examinar porque, em tantos lugares, filhos de famílias católicas crescem e se distanciam da fé sem nunca ter recebido um primeiro encontro verdadeiro com Jesus Cristo, independentemente dos sacramentos que receberam.
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) contribuiu para a elaboração do texto com uma análise que deve ser lida com atenção: “não se pode mais pressupor que o batismo conduza automaticamente a uma fé madura e integrada à vida comunitária”. O Batismo abre a porta, mas ninguém atravessa essa porta sozinho e a comunidade que deveria acompanhar esse percurso muitas vezes não está preparada para fazê-lo.
O documento usa uma expressão do Papa Francisco para descrever o que está em jogo: não estamos vivendo “simplesmente uma época de mudanças, mas uma mudança de época”. Ajustes táticos não bastam quando o solo cultural em que a fé era transmitida sofreu uma transformação estrutural.
Esse solo era, historicamente, a família e a comunidade local. A fé passava de geração em geração no ritmo da vida cotidiana, nas orações antes do almoço, na missa do domingo, no presépio montado em dezembro, na avó que ensinava o rosário. O documento reconhece que esse percurso natural de transmissão foi rompido em grande parte do mundo ocidental pela combinação de secularização, individualismo e cultura digital. O desafio que emerge disso, segundo o próprio texto, “não é tecnológico, mas antropológico.”
Para elaborar o documento, o Dicastério consultou conferências episcopais de todo o mundo. Os relatos convergem em pontos semelhantes, embora com nuances regionais. Os bispos greco-católicos da Hungria afirmam que “não podemos mais considerar como certo que os pais transmitam automaticamente a fé aos seus filhos”. Os bispos dos Estados Unidos observam que os fiéis tendem a ser “mais moldados pela cultura do que pela fé”.
No Brasil, a CNBB aponta para a “progressiva perda do senso de pertença eclesial, associada à difusão de formas subjetivas de religiosidade”, que fragilizou “os processos tradicionais de iniciação cristã”. Essa religiosidade dispersa e individual é uma das marcas do tempo em que vivemos.

No meio de um quadro preocupante, o documento traz um dado que surpreende. Na Páscoa de 2026, mais de 20 mil adultos e adolescentes foram batizados na França, sendo cerca de 13.200 adultos. O número foi 20% maior que o do ano anterior, que já havia sido recorde. Comparado a dez anos atrás, o crescimento é de mais de 300%. A maioria tem entre 18 e 25 anos e cerca de 62% são mulheres. Em geral, não têm tradição religiosa prévia: chegaram à fé por caminhos pessoais, em geral após experiências de vida marcantes.
O documento ainda alerta que muitos desses novos batizados têm dificuldade de perseverar na vida comunitária após o batismo. Mas ele mostra que a seca não é absoluta e em um país considerado símbolo da laicidade europeia, adultos jovens estão pedindo o batismo em número crescente.
O principal da proposta é o retorno ao querigma, o primeiro e essencial anúncio da fé: que Jesus Cristo morreu e ressuscitou, e que esse amor tem a capacidade de transformar uma vida. O documento afirma que “toda a formação cristã é, primariamente, o aprofundamento do querigma”, e que esse anúncio deve chegar às pessoas “onde elas se encontram, com seus desejos e seus sonhos, com suas lutas e suas dificuldades.”
Isso implica mudanças concretas na pastoral. O texto propõe que a Igreja supere “uma ação pastoral concentrada exclusivamente na catequese e nos adolescentes” e invista na evangelização dos adultos. A comunidade local é apontada como o espaço insubstituível de transmissão viva da fé, porque “é muito difícil perseverar sozinho.” A liturgia deve ser um encontro real com Cristo, não “uma mera moldura ritual da vida eclesial.” O testemunho pessoal dos fiéis, a piedade popular e a arte sacra são reconhecidos como caminhos essenciais de evangelização.
E a família permanece como o primeiro lugar de transmissão. Leia: Família, sementeira de vocações.
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