“Muitas crianças foram abandonadas por seus pais. Muitas foram vítimas de coisas terríveis, como as drogas e a prostituição. Porque Deus permite que essas coisas aconteçam?”. A pergunta foi feita em 2015 por uma menina de 12 anos ao Papa Francisco, durante um encontro com jovens nas Filipinas. Diante do Pontífice, Glyzelle Palomar não conseguiu conter as lágrimas enquanto falava sobre o sofrimento de tantas crianças vulneráveis. A cena emocionou o mundo, pois tocava em uma das questões mais difíceis da existência humana: por que crianças sofrem e onde Deus está diante disso?
Comovido, o Papa respondeu:
“Ela fez hoje a única pergunta que não tem resposta. Somente quando formos capazes de chorar sobre as coisas que vós vivestes, é que podemos compreender qualquer coisa e dar alguma resposta.”
A dor dos inocentes permanece um dos maiores mistérios da experiência humana e as repostas a esse questionamento são complexas. Primeiramente, é importante lembrar que Deus não é autor do mal nem deseja o sofrimento humano. O Catecismo da Igreja Católica ensina que o sofrimento entrou na história da humanidade a partir do pecado original, quando o homem abusou da própria liberdade e rompeu sua relação com Deus.
Ao refletir sobre esse tema, Padre Eduardo dos Reis explica que é preciso diferenciar o que vem de Deus e o que nasce da maldade humana.
“De onde vem o mal? Vem da negação do homem para com Deus. Isso começou lá com Adão e Eva, quando o pecado entrou no mundo pela desobediência deles.”
O Sacerdote recorda que a tradição cristã não ensina que crianças sofrem para “pagar” pecados de uma vida anterior ou porque Deus deseja castigá-las.
“Não podemos assumir a imagem de que Deus permite e envia o mal. Deus é amor, Deus é misericórdia. Não existe mal em Deus.”
Está na Bíblia: “Deus é luz, e não há nele trevas nenhumas” (1 João 1,5).
Essa continua sendo uma das perguntas mais difíceis da fé. O Catecismo afirma, no item 412, que a razão pela qual Deus permite a ação do mal “é um grande mistério” e esses mistérios existem porque assim o Senhor deseja. Se quisesse que tivéssemos toda a compreensão, já teria o feito. Ele criou a humanidade livre, capaz de amar, escolher, cuidar, mas também capaz de ferir, abandonar e cometer injustiças.
Muitos sofrimentos das crianças estão ligados diretamente às consequências do pecado humano: violência, guerras, exploração, abandono, abuso, fome e desigualdade.
Ainda assim, também sabemos que a humanidade é profundamente solidária. São Paulo escreve que “o salário do pecado é a morte” (Romanos 6,23), mostrando que os efeitos do mal acabam atingindo inocentes e culpados dentro da história humana. Deus não é o autor do mal, mas permite que aconteça. Mesmo assim, sofre com aqueles que sofrem.
Ao responder à menina filipina, Papa Francisco lembrou que Jesus compreendeu tão profundamente os dramas humanos que chegou a chorar diante deles. Cristo se comoveu diante dos doentes, dos pobres, das multidões famintas e da morte de Lázaro. A cruz é Compreendida pela Igreja como sinal de um Deus que entrou no sofrimento humano e assumiu as dores da humanidade.
Padre Eduardo dos Reis também destaca que a vinda de Jesus revela um Deus próximo da dor humana, que Deus não permanece distante observando o sofrimento, mas participa da dor humana e promete que o mal não terá a última palavra.
“Ao enviar Jesus para nos salvar, Deus permitiu que Seu Filho assumisse nossas dores, nosso peso e carregasse a pesada Cruz por toda a humanidade.”
Ao longo de sua missão, a Pastoral da Criança mostra que o sofrimento das crianças não pode ser tratado apenas como problema individual das famílias, mas como responsabilidade coletiva. Criada pela médica e sanitarista Zilda Arns, a pastoral atua junto a famílias em situação de vulnerabilidade, com acolhimento, acompanhamento e fortalecimento comunitário.
A Bíblia tem passagens em defesa dos pequenos, dos pobres e dos indefesos. Jesus demonstra atenção especial às crianças
“Deixai vir a mim as criancinhas” (Marcos 10,14).
Diante do sofrimento infantil, a Igreja insiste que os cristãos não podem permanecer indiferentes. A compaixão precisa se transformar em cuidado concreto, proteção e compromisso com a dignidade humana. Existem perguntas que permanecem abertas. A resposta do Papa Francisco à menina filipina mostra isso: que nem sempre existe uma explicação capaz de aliviar completamente a dor de quem sofre.
Mesmo assim, é preciso ter a certeza que Deus não abandona os inocentes, o sofrimento não é desejado por Ele e o mal não terá a vitória definitiva. Além disso, nenhuma dor vivida pelas crianças é esquecida por Deus.
No livro do Apocalipse, a promessa final é de que um dia “toda lágrima será enxugada”. Até lá, a Igreja entende que a resposta mais verdadeira diante do sofrimento infantil continua sendo a indicada pelo Papa Francisco, de se aproximar da dor com compaixão, lágrimas, cuidado e responsabilidade, jamais com indiferença.Por que Deus permite o sofrimento das crianças? A partir de uma pergunta feita ao Papa Francisco, entenda o que a fé católica ensina sobre a dor dos inocentes, o mal e a esperança cristã.
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