Em roda, agentes pastorais e pessoas em situação de rua partilham histórias, dores e saudades. É assim que começa o
trabalho da Pastoral Nacional do Povo da Rua, vinculada à Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) e com escritório nacional em Belo Horizonte (MG).
“Mais do que alimento ou agasalhos, as pessoas em situação de rua valorizam a escuta ativa. Assim, os laços comunitários e a convivência são fortalecidos”, explica Maria Cristina Bove Roletti, da Equipe de Gestão da Associação Pastoral Nacional do Povo da Rua.
Fundada em 2001, a Pastoral atua hoje em dezenas de municípios brasileiros. A missão é ser presença junto às pessoas em situação de rua e aos catadores de material reciclável, com reconhecimento aos sinais de vida existentes nessas trajetórias e ações que transformem a situação de exclusão em projetos para dias de mais dignidade. A metodologia começa pelo território: os agentes vão às ruas, praças e viadutos para aprender sobre a realidade local. Do conhecimento nasce o vínculo e, do vínculo, o protagonismo: com o tempo, as pessoas passam a participar de assembleias e fóruns e se tornam lideranças de sua própria história.

Imagem: Arquivos da Pastoral Nacional do Povo da Rua
Apesar do temor da rejeição e de ações truculentas, a recepção do povo às equipes da Pastoral do Povo da Rua é majoritariamente marcada pela “confiança, vínculo e respeito mútuo, construídos ao longo do tempo. Como a Pastoral atua de forma contínua e sem posturas verticais nem punitivas, ela se torna uma referência segura”, conta Cristina.
Segundo levantamento do Observatório Brasileiro de Políticas Públicas com a População em Situação de Rua, da Universidade Federal de Minas Gerais (OBPopRua/UFMG), com base no Cadastro Único de Programas Sociais (CadÚnico), havia 365,8 mil pessoas em situação de rua no Brasil ao final de 2025 – número 11,5% superior ao registrado em dezembro de 2024, quando eram 327,9 mil. Em 2013, esse número era de 22,9 mil. O crescimento é contínuo e acelerado.
Esse crescimento enfrenta também um tipo específico de preconceito: a aporofobia, que é a rejeição e aversão aos pobres e, segundo a Pastoral, uma realidade cotidiana. “A sociedade costuma ligar automaticamente a pessoa que vive na rua ao roubo ou ao uso de drogas, ignorando as causas que levaram a pessoa a sobreviver nessa situação”, diz Maria Cristina. Ela conta situações de espetos instalados em marquises para impedir que durmam, pertences retirados como se fossem fruto de roubo, barreiras no acesso à saúde e à justiça.

Imagem: Arquivos da Pastoral Nacional do Povo da Rua
Na madrugada de 19 para 20 de agosto de 2004, na Praça da Sé, em São Paulo, um grupo armado atacou pessoas em situação de rua que dormiam sob a marquise da Catedral e sete delas morreram. O episódio ficou conhecido como Massacre da Sé. Em agosto de 2025, a Lei 15.187 instituiu oficialmente o 19 de agosto como Dia Nacional de Luta da População em Situação de Rua.
A data convoca a Igreja ao que o Evangelho pede: olhar para quem está nas ruas como pessoa e não como problema. “A mensagem de Jesus é centralmente definida pela solidariedade radical aos mais pobres”, lembra Maria Cristina, que cita o Evangelho de Lucas 4,18: “anunciar a Boa-Nova aos pobres, proclamar a libertação aos cativos”.
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