Rose Religare faz terços artesanais com pétalas de rosas naturais, usando uma técnica quase extinta que aprendeu de uma freira italiana. Ela trouxe o método ao Brasil, desenvolveu processos próprios e forma uma comunidade de mulheres que transforma flores descartadas em objetos de oração e fonte de renda.
A história começa em San Giovanni Rotondo, cidade de São Pio de Pietrelcina, no sul da Itália. Rose estava internada no Hospital Alívio do Sofrimento quando uma freira lhe ofereceu um terço bento pelo Papa João Paulo II. Para buscá-lo, foi até o quarto da religiosa, e se deparou com algo estranho sobre a cama: tiras escuras, rugosas, com a estrutura de um rosário, mas feitas de uma matéria que ela nunca tinha visto.
“Esse é o terço original de rosas. Aquele vermelhinho que vocês conhecem há cem anos é madeira pintada. O terço de rosa original é feito com pétalas naturais”, contou a religiosa.
A religiosa ensinou o processo em dez minutos e acrescentou algo que ficou na memória de Rose muito depois da visita: “quem sabe fazer esse terço são as pessoas dentro dos mosteiros e carmelos. Daqui a pouco, todas vão morrer e não vai sobrar ninguém“.
Rose voltou ao Brasil sem ter aprendido a técnica. Achou trabalhoso demais e, naquele momento, não se interessou. Passou anos trabalhando com artigos religiosos, viajando entre o Brasil e a Itália, criando o filho nascido em solo italiano. O processo da freira ficou arquivado, até que, cerca de cinco anos atrás, ela acordou no meio da noite e conta que ouviu uma voz interior que dizia: “você vai ensinar as pessoas a rezar o terço. E vai ensinar a fazer o terço de rosas“.

Foto: arquivo pessoal
Contando com a memória daqueles dez minutos e com décadas de experiência com artesanato religioso, Rose começou a reconstruir o processo. Fez testes, errou, desenvolveu técnicas próprias e foi criando, aos poucos, o método que hoje ensina. A marca se chama Rose Religare, existe há mais de 20 anos, e o nome, do latim: religare significa religar. O terço feito de pétalas é, para ela, um objeto que refaz o caminho entre o homem e Deus.
O processo começa com uma surpresa de que não é preciso comprar rosas novas. Rose trabalha com flores de descarte, aquelas que as floriculturas separariam para jogar fora, com pétalas levemente escurecidas ou quebradas. Para um terço inteiro são necessárias entre 25 e 30 rosas, dependendo do tamanho e da espécie.
“Não há necessidade de comprar a rosa bonita e linda. Dependendo do período, elas ficam bastante caras. A mulher que quer fazer seu terço pode pegar exatamente as que as floriculturas vão naturalmente descartar”, explica.
As pétalas são maceradas e trabalhadas até se transformarem em uma argila vegetal. Dessa argila moldam-se as contas, uma a uma. Com o tempo, endurecem. Só então vem o trançado do terço. O resultado é que as contas escurecem durante o processo e algumas ficam quase pretas.
“É a forma natural. Você está mexendo com vegetal. Uma árvore no outono: as folhas são verdes, depois vão perdendo a pigmentação, ficando marrons, até cair. É o processo de todas as plantas, das flores também.”

Foto: arquivo pessoal
Para quem quiser resultados diferentes, ela desenvolveu técnicas específicas para tingir a argila vegetal de amarelo, azul ou branco, obtendo cores que imitam as pétalas naturais. E como o Brasil não produz extração de óleo floral de rosa, algo restrito a apenas cinco países no mundo, Rose encontrou uma perfumista que criou um óleo exclusivo para devolver ao terço o aroma das flores.
Dentro de todo esse trabalho manual, há uma etapa que Rose destaca como a mais significativa espiritualmente: o momento de moldar as contas.
“Você pega a argila e a transforma em contas, é quando ela ganha um novo formato. E assim somos nós na nossa verdadeira conversão: ganhamos um novo formato, algo que ganha propósito, norte, caminho, objetivo e sentido na vida.”
Todo o processo de macerar e bater as pétalas, ela compara às dificuldades que nos formam. “São os nossos obstáculos, as nossas adversidades. Mas depois saímos de toda uma situação muito mais fortes.“
A rosa também carrega, para ela, uma metáfora sobre a vida humana: nasce como botão, cresce, desabrocha, murcha e morre. Quando é transformada em terço, deixa de ser delicada e vistosa para se tornar algo resistente, com propósito, com um legado. “A pergunta é: qual legado você quer deixar?”
O nome “rosário” vem do latim rosarium, jardim de rosas, e essa ligação tem raízes mais concretas do que muitos imaginam. Para Rose, trabalhar com flores reais aprofunda algo que o corpo entende antes da mente.
“A rosa é o símbolo da Virgem Maria, de Nossa Mãe. Símbolo da paz, da pureza, da devoção. O perfume é a presença dela.”
Ela usa um exemplo para explicar o que acontece: o aroma de feijão cozido que, ao entrar em uma casa, imediatamente traz à memória a infância e a cozinha da mãe. Com as rosas, o mecanismo é o mesmo.
“Muitas vezes você está em um local, sente o perfume de rosas, e isso te remete a Nossa Senhora. Aquela conexão vai se criando, muitas vezes de forma inconsciente.”

Foto: arquivo pessoal
Rose tem mais de 20 anos de experiência empreendendo com artigos religiosos e, para ela, não há separação.
“Independentemente do que você faça, seja artesanato religioso, seja venda de frutas e verduras, quando você tem Deus presente na sua vida, ele vai estar dentro do seu trabalho porque ele está com você.”
Ela rejeita qualquer leitura que transforme a fé em substituta do esforço.
“Fé e empreendedorismo caminham absolutamente juntos porque quando temos Deus temos segurança, entrega e descanso. Mas sempre com consciência: tem que fazer a tua parte, tem que se mover, estudar, crescer, buscar processos e técnicas. Antes de dar o primeiro passo, Deus e o Espírito Santo à sua frente”.
Com o tempo, Rose foi muito além de um produto artesanal e formou o que chama de comunidade das Trançadeiras de Pétalas de Rosas: mulheres de todo o Brasil que aprenderam a técnica com ela, recebem suporte contínuo, acesso a novas técnicas à medida que são desenvolvidas e um sistema de credenciamento que as autoriza a ensinar outras.
O perfil das alunas é variado: mulheres que não podem trabalhar fora de casa, que estão desempregadas, que se aposentaram e buscam sentido. Rose gosta de dizer que fazer terços “não é terapia, mas é terapêutico” e que, ao mesmo tempo, gera renda com algo que não se encontra em livraria nem em loja comum.
“É um produto único no Brasil. Você pode ir na melhor livraria que existir e é muito difícil de encontrar. Para adquirir é pelas próprias trançadeiras.”
O aprendizado dentro da comunidade cresceu com o tempo. Hoje, Rose ensina também design de terços, tipos de trançado, uso de pedras, técnicas de semijoias e confecção de peças para noivas. Algumas alunas que começaram fazendo terços de pétalas hoje empreendem com uma linha de cristais para casamentos.
Ao longo desse percurso, Rose menciona experiências místicas que marcaram sua trajetória, com rosas e com Santa Teresinha do Menino Jesus, padroeira das missões e conhecida na tradição católica por enviar flores como sinal de intercessão. A Santa também tinha um lado artístico “aflorado”, porque pintava velas, fazia desenhos e produzia pequenas imagens religiosas, algumas delas trabalhadas com aquarela.
Assista à entrevista com Rose na TV Evangelizar:
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