Velório é obrigatório para católicos? A dúvida que circula nas redes

Velório é obrigatório para católicos? A dúvida que circula nas redes

A notícia da morte de Thalita Tavares Caturelli Passoni, jornalista, ex-apresentadora do Globo Esporte Tocantins e fundadora do Espaço Junior, Centro de Intervenção Precoce Especializado em Autismo (TEA), criado em homenagem ao filho de dez anos, comoveu as redes nesta quarta-feira (26). Ela morreu aos 46 anos, em Santa Catarina, após um ano de tratamento contra o câncer. Junto à tristeza, um detalhe chamou atenção nas redes, que foi o pedido dela para não ter velório, o que foi respeitado pela família.

O instituto que fundou comunicou a decisão com respeito e delicadeza. Entre católicos, surgiu a dúvida: o velório é obrigatório? A resposta merece uma explicação. O velório, como ritual autônomo e aberto ao público, não é obrigatório pela doutrina católica. O que a Igreja prescreve como direito de todo fiel batizado são as exéquias eclesiásticas, os ritos litúrgicos de despedida cristã, que incluem a celebração da Santa Missa ou da Palavra e o sepultamento cristão em local sagrado.

O que diz o Catecismo?

O Catecismo da Igreja Católica (CIC), nos números 2300 e 2301, estabelece o princípio fundamental:

“Os corpos dos defuntos devem ser tratados com respeito e caridade, na fé e na esperança da ressurreição. O enterro dos mortos é uma obra de misericórdia corporal que honra os filhos de Deus, templos do Espírito Santo.”

O texto não menciona o velório como obrigação, mas que o corpo do cristão merece respeito e cuidado, porque foi templo do Espírito Santo e está destinado à ressurreição gloriosa.

O que o rito oficial prevê

O documento que regula as exéquias cristãs é o Ordo Exsequiarum, publicado pela Sagrada Congregação para o Culto Divino em 15 de agosto de 1969, durante o pontificado do Papa Paulo VI, após o Concílio Vaticano II. O Catecismo, ao comentar esse rito nos números 1685 e 1686, diz:

“O Ordo Exsequiarum da liturgia romana propõe três tipos de celebração dos funerais, correspondendo aos três lugares onde acontece — a casa, a Igreja e o cemitério — e segundo a importância que a ele atribuem a família, os costumes locais, a cultura e a piedade popular.”

O Catecismo reconhece, portanto, que o rito na casa, o velório, é um dos três tipos possíveis, e que sua realização depende da família, dos costumes locais e da cultura. A vigília junto ao corpo aparece no Ordo como um momento de oração recomendado, presidido por sacerdote, diácono ou leigo autorizado, valorizado como tempo de cuidado com o corpo do defunto e de oração comunitária pela alma de quem partiu. O Código de Direito Canônico, no cânon 1176, garante que todo fiel católico tem direito às exéquias eclesiásticas e que a Igreja deve fazer o possível para que nenhum membro fique privado delas.

O que a Congregação para a Doutrina da Fé determinou

Em 2016, o Papa Francisco aprovou a instrução Ad Resurgendum cum Christo, publicada pelo então Dicastério para a Doutrina da Fé (atual nome da Congregação para a Doutrina da Fé), que trata especificamente de sepultura e cremação. O documento reafirma que “a sepultura dos corpos dos fiéis defuntos nos cemitérios ou noutros lugares sagrados favorece a memória e a oração pelos defuntos da parte dos seus familiares e de toda a comunidade cristã.”

A instrução proíbe que as cinzas, no caso de cremação, sejam dispersas na natureza, guardadas permanentemente em casa ou transformadas em joias e objetos comemorativos, práticas que contradizem a fé na ressurreição do corpo. Como explica Dom Leomar Antônio Brustolin, Arcebispo de Santa Maria (RS), no artigo “A Igreja permite cremação?”, publicado no site da CNBB:

“Atualmente, a Igreja Católica não põe qualquer objeção à cremação, mas dá preferência ao sepultamento. O que deve ser garantido é que a cremação não seja expressão de oposição à esperança na ressurreição”.

Então, o que a família católica deve fazer?

Se uma família decide, por motivos pessoais, culturais ou por desejo expresso do próprio falecido, não realizar o velório aberto ao público, isso não contraria a doutrina católica. O que importa, na perspectiva da Igreja, é que o corpo receba tratamento digno, que as exéquias eclesiásticas sejam celebradas e que haja oração pela alma do defunto.

Como afirmou Papa Francisco na catequese de 30 de novembro de 2016, ao encerrar o ciclo sobre as obras de misericórdia, enterrar os mortos é “um ato de piedade e também de grande fé”, assim como foi o gesto de José de Arimateia ao pedir o corpo de Jesus a Pôncio Pilatos e oferecer-lhe o próprio sepulcro. 

Perguntas frequentes sobre velório

Velório é obrigatório para católicos?
O velório, como ritual autônomo, não é obrigatório pela doutrina católica. O que a Igreja prescreve são as exéquias eclesiásticas: Santa Missa ou celebração da Palavra e sepultamento cristão.

O que a Igreja Católica recomenda quando um fiel morre?
O Catecismo da Igreja Católica (n. 2300) recomenda que o corpo seja tratado com respeito e caridade. As exéquias eclesiásticas são um direito de todo fiel batizado, garantido pelo Código de Direito Canônico (cânon 1176).

O que é o Ordo Exsequiarum?
É o documento oficial da Igreja Católica que regula os ritos das exéquias cristãs, publicado em 1969 durante o pontificado do Papa Paulo VI após o Concílio Vaticano II. Prevê três momentos: junto ao corpo, na Igreja e no cemitério.

A cremação é permitida pela Igreja Católica?
Desde que não implique negação da fé na ressurreição dos corpos. A instrução Ad Resurgendum cum Christo proíbe a dispersão das cinzas, sua guarda permanente em casa e sua transformação em objetos ou joias.

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