A Bíblia, em dezenas de passagens, convoca os fiéis a sair do lugar e agir em favor de quem não consegue agir por si mesmo. Defender o próximo, especialmente os vulneráveis, os pobres, os órfãos e os oprimidos é um chamado universal, reiterado do Antigo ao Novo Testamento e confirmado pelo Magistério da Igreja. Veja a seguir versículos que nos inspiram a agir em defesa do próximo.
Um dos textos mais diretos sobre o tema está nos Provérbios, atribuídos ao rei Lemuel por conselho de sua própria mãe:
“Erga a voz em favor dos que não podem defender-se, seja o defensor de todos os desamparados. Erga a voz e julgue com justiça; defenda os direitos dos pobres e dos necessitados” (Provérbios 31,8-9).
O verbo no imperativo não deixa dúvida de que não se trata de um convite, mas de uma instrução. A linguagem real do contexto reforça o peso da orientação e o rei recebe como tarefa sagrada o uso de sua voz e de seu poder em favor de quem não tem nenhum dos dois.
No Antigo Testamento, os profetas foram os grandes arautos da defesa do próximo. Isaías, em um dos discursos mais conhecidos de sua obra, coloca o cuidado com o vulnerável no mesmo plano que o culto a Deus:
“Aprendam a fazer o bem! Busquem a justiça, acabem com a opressão. Lutem pelos direitos do órfão, defendam a causa da viúva” (Isaías 1,17).
O texto pertence a uma repreensão. Deus, pela voz de Isaías, diz que não suporta os sacrifícios e festas religiosas de um povo que, ao mesmo tempo, abandona os mais fracos à própria sorte. A liturgia sem justiça, para o profeta, é vazia. O culto autêntico inclui o cuidado com quem está à margem.
O Salmo 82 apresenta uma cena incomum de um Deus que preside um tribunal e julga os próprios juízes da terra. O motivo da condenação é justamente a omissão diante do sofrimento alheio:
“Garantam justiça para os fracos e para os órfãos; mantenham os direitos dos necessitados e dos oprimidos. Livrem os fracos e os pobres; libertem-nos das mãos dos ímpios” (Salmo 82,3-4).
Até os que detêm poder humano serão cobrados por Deus sobre como usaram esse poder. Defender o fraco não é apenas um ato de solidariedade humana, mas uma obrigação diante do tribunal divino.
No Novo Testamento, o ponto culminante sobre o tema está na parábola do Bom Samaritano (Lucas 10:25-37). Um doutor da Lei pergunta a Jesus quem é o seu próximo, esperando talvez uma lista com critérios claros. Jesus inverte a pergunta e ao final da parábola, ele pergunta quem se tornou próximo do homem ferido à beira do caminho.
Papa Leão XIV, em catequese de 28 de maio de 2025, comentou: “A pergunta não deve ser ‘quem é o meu próximo?’, mas como me tornar próximo de quem precisa, em vez de passar ao largo.” O Papa ainda destacou que “só ajudamos verdadeiramente se estivermos dispostos a sentir o peso da dor do outro” e que “antes de sermos crentes, somos chamados a ser humanos.”
O Catecismo da Igreja Católica, no número 2269, afirma que “negar assistência a alguém em perigo é contrário à lei moral” e que aceitar fomes mortíferas sem procurar remédio é “uma escandalosa injustiça e um pecado grave.”
O número 2208 lembra que quando a família não consegue cuidar dos jovens, idosos, doentes e pobres, esse dever passa a outras famílias e, subsidiariamente, à sociedade, citando a Carta de Tiago: “visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações” (Tiago 1:27).
A frase do Papa Leão XIV ressoa como síntese de tudo que os versículos acima dizem: defender o próximo não é uma tarefa reservada a missionários ou assistentes sociais, mas o modo como o cristão vive sua fé no cotidiano, no trabalho, na vizinhança, na família, no trânsito.
Erguer a voz, garantir justiça, fazer-se próximo. Esses três movimentos, presentes nos Provérbios, nos Profetas, nos Salmos e no Evangelho, formam a espiritualidade que não se fecha nos templos.
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