Morrer: poucos medos são tão universais quanto esse. O medo de morrer atravessa culturas, épocas e religiões e aparece em momentos inesperados, como em uma notícia de saúde, na morte de alguém próximo, em uma madrugada insone em que o pensamento vai a lugares que a gente preferiria evitar. A maioria das pessoas não fala sobre isso abertamente, mas quase todas pensam, provavelmente.
O medo da morte, chamado de tanatofobia quando atinge proporções clínicas, é estudado desde Freud, que formulou a hipótese de que as pessoas expressam esse medo como forma de disfarçar uma preocupação mais profunda. Embora não seja reconhecida como uma condição clínica específica, seus sintomas são frequentemente associados a quadros de ansiedade generalizada e de hipocondria (crença intensa de que tem condições de saúde, mesmo sem evidências médicas ou manifestações).
Os estudiosos da área Erik Erikson e Ernest Becker também se debruçaram sobre o tema. Para o primeiro, a consciência da própria mortalidade é o motor oculto de grande parte do comportamento humano. Eventos perigosos ou de risco, como acidentes, condições de saúde graves ou a perda de pessoas próximas, desencadeiam ou intensificam a tanatofobia. A forma como diferentes culturas encaram o fim da vida também influencia a intensidade do medo.
O medo de morrer torna-se problemático quando passa a dominar a rotina e a pessoa evita situações por medo de morrer, tem crises de ansiedade ao pensar no assunto ou deixa de viver plenamente por antecipar o fim. Segundo a psicóloga Franciane Bortoli escreveu, “questionários e escalas de avaliação de ansiedade são utilizados por psicólogos e psiquiatras para medir a intensidade do medo da morte, identificando se o medo é desproporcional e se interfere nas atividades do dia a dia. Quando isso acontece, buscar ajuda profissional é o caminho indicado“. Mas há uma distinção importante: o medo natural da morte não é patologia. É parte da condição humana.
A tentação de escapar da morte é antiga quanto a humanidade. No Jardim do Éden, a serpente oferece “Não morrereis de modo algum” (Gênesis 3,4) como a primeira grande mentira da história sagrada, que é a promessa de imortalidade. Adão e Eva cederam porque queriam ser como deuses, imortais, sem limite. O desejo de não morrer está na raiz do primeiro pecado.
Nabucodonosor, rei da Babilônia, construiu uma estátua imensa de ouro para ser adorado, gesto de quem quer fixar a própria grandeza além do tempo. O faraó do Egito erguia pirâmides para que seu nome e seu corpo sobrevivessem à morte. A Torre de Babel foi construída para que o nome dos homens não fosse apagado da face da terra (cf. Gênesis 11,4). A busca pela imortalidade percorre toda a história humana.
Jesus, diante da morte, também sentiu o peso do que se aproximava. No Jardim do Getsêmani, pediu: “Pai, se possível, afasta de mim este cálice” (Mateus 26,39). O Filho de Deus completou: “Não seja feita a minha vontade, mas a tua“.
São João Paulo II viveu a morte de perto mais de uma vez, pois perdeu a mãe, o pai e o irmão antes dos 21 anos. O atentado de 1981 o colocou a milímetros da morte. Nos seus últimos dias, em abril de 2005, repetia em polonês: “Deixai-me ir para a casa do Pai.“
Papa Bento XVI, ao presidir a beatificação do Pontífice anterior, citou as últimas palavras de João Paulo II como expressão daquilo que o definiu: um homem que escolheu a vida e por isso não temeu a morte. Bento XVI, por sua vez, escreveu e pregou sobre a morte com uma profundidade filosófica que poucos papas alcançaram. Em discurso ao clero de Roma em março de 2006, afirmou: “Um mundo esvaziado de Deus, um mundo que se esqueceu de Deus, perde a vida e cai numa cultura de morte. Escolher a vida, fazer a opção pela vida, é, em primeiro lugar, escolher a opção-relação com Deus.”
Nas redes sociais, circula amplamente um texto belíssimo que começa com as palavras “A morte não é nada / simplesmente passei para o outro lado.” Ele é atribuído a Santo Agostinho, que escreveu sobre a morte em Confissões e na Cidade de Deus. Diante da morte de seu amigo Nebridius, ele escreveu que a alma do amigo “agora vive no seio de Abraão.” E é nas Confissões que está a frase mais agostiniana de todas sobre o tema: “Fizeste-nos para Ti, Senhor, e nosso coração está inquieto enquanto não repousa em Ti“.
“Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá. E todo aquele que vive e crê em mim não morrerá eternamente” (João 11,25-26).
“Ainda que eu caminhasse pelo vale da sombra da morte, não temeria mal algum, porque Tu estás comigo” (Salmo 23,4).
“Estou convencido de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas presentes, nem as futuras, nem as potestades, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura nos poderá separar do amor de Deus que está em Cristo Jesus, Nosso Senhor” (Romanos 8,38-39).
“Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?” (1 Coríntios 15,55).
“Para mim, viver é Cristo e morrer é lucro” (Filipenses 1,21).
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