A terra realmente tremeu quando Cristo foi crucificado?

A terra realmente tremeu quando Cristo foi crucificado?

“E eis que o véu do templo se rasgou em duas partes de alto a baixo, a terra tremeu, fenderam-se as rochas”. A frase está em Mateus 27,51 e é uma das passagens mais impressionantes de toda a narrativa da Paixão. Leitores e estudiosos se perguntam: foi um evento histórico real? Um fenômeno sobrenatural? Uma linguagem figurada usada pelo evangelista para expressar a magnitude daquele momento?

A resposta, como quase tudo nas fronteiras entre fé e ciência, não é simples. Mas há dados que merecem ser contados.

Relato da Bíblia

O terremoto na crucificação é mencionado exclusivamente no Evangelho de Mateus. Os evangelistas Marcos e Lucas descrevem as trevas que cobriram a terra do meio-dia às três da tarde e o rasgar-se do véu do Templo, mas não citam o tremor de terra. João, por sua vez, situa alguns eventos de forma diferente dos sinópticos.

Essa particularidade levou estudiosos bíblicos a diferentes interpretações. O portal ABiblia.org, com base em análise exegética, aponta que o termo grego usado por Mateus para “terremoto”, que é seismós, aparece em outros momentos do mesmo Evangelho de forma que vai além do sentido literal: na tempestade do lago (Mt 8,24), normalmente traduzida como “grande agitação”, e na entrada de Jesus em Jerusalém (Mt 21,10), traduzida como “a cidade se agitou”. Em todos esses casos, o seismós está associado a uma manifestação da presença divina, o que a teologia chama de teofania.

Isso não significa que o terremoto não tenha acontecido, mas que Mateus usa o fenômeno com consciência teológica profunda: a morte do Filho de Deus é um evento que abala a criação inteira. O rasgar do véu e o tremor da terra anunciam que algo de dimensão cósmica acabou de acontecer e o centurião romano, diante desses sinais, é o primeiro a reconhecer: “Verdadeiramente, este homem era Filho de Deus!” (Mt 27,54).

Achados geológicos

Em 2012, um estudo publicado na revista científica International Geology Review, periódico de referência na área de geologia, voltou a chamar atenção para uma descoberta feita por geólogos que analisaram o subsolo da costa do Mar Morto, a cerca de 21 quilômetros de Jerusalém.

A equipe, liderada pelo geólogo Jefferson Williams, da Supersonic Geophysical, em colaboração com Markus Schwab e Achim Brauer, do Centro Alemão de Pesquisa de Geociências, estudou núcleos de sedimentos extraídos da praia de Ein Gedi. Os pesquisadores identificaram camadas de sedimentos perturbadas, chamadas de seismitos, ou seja, marcas geológicas deixadas por terremotos, que indicam atividade sísmica em dois momentos: um grande terremoto por volta de 31 a.C. e um abalo menor em algum ponto entre 26 e 36 d.C.

Esse segundo período coincide precisamente com o governo de Pôncio Pilatos na Judeia, o mesmo período em que os Evangelhos situam a crucificação de Jesus. A hipótese que ganhou atenção é a de que o terremoto entre 26 e 36 d.C. poderia corresponder ao evento descrito em Mateus 27,51. Com base na combinação desses dados sísmicos com registros astronômicos e históricos, os pesquisadores propuseram que a crucificação teria ocorrido em 3 de abril de 33 d.C.

É importante registrar que os próprios pesquisadores foram cautelosos. De acordo com o estudo publicado no International Geology Review, conforme relatado pelo Discovery News, Williams, Schwab e Brauer admitem que “existe a possibilidade de que o relato de um terremoto no Evangelho de Mateus seja um tipo de alegoria.” O estudo identifica uma coincidência geológica e histórica que merece investigação continuada.

O que a ciência pode e não pode dizer

O Mar Morto assenta sobre uma grande falha geológica chamada Transformada do Mar Morto, onde duas placas tectônicas, a Placa Árabe e a Placa do Sinai, se encontram e deslizam uma sobre a outra. A região é naturalmente propensa a terremotos, o que torna plausível a ocorrência de um abalo sísmico no período da crucificação.

O que a ciência pode afirmar, com base no estudo de 2012, é que há evidências geológicas de atividade sísmica na região entre 26 e 36 d.C., período que coincide com o governo de Pôncio Pilatos. O que a ciência não afirma até o momento, e a fé não necessita dessa confirmação, é que esse terremoto foi causado pela morte de Cristo, que ocorreu exatamente naquele momento ou que o relato de Mateus é um registro jornalístico do evento geológico. A janela de dez anos nos dados sísmicos não permite precisão suficiente para uma afirmação categórica.

A Igreja Católica não se pronunciou oficialmente sobre a pesquisa geológica de 2012. O que o Magistério ensina é que os sinais que acompanharam a morte de Cristo, as trevas, o rasgar do véu, o terremoto, têm em primeiro lugar um significado teológico: revelam a dimensão salvífica do evento.

“A morte de Cristo é ao mesmo tempo o sacrifício pascal que realiza a redenção definitiva dos homens” (CIC, n. 613-614).

Os sinais que a acompanharam, e que Mateus descreve com o vocabulário da teofania, comunicam que aquela morte foi o momento em que o mundo, literalmente, tremeu.

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