A raiva não é incompatível com a oração e, pode ser até mesmo o exato momento em que a oração mais importa. Natural do ser humano, pode se manifestar por diferentes motivações, como situação de injustiça, perda, desemprego, entre outros. Nesses momentos, é ainda mais importante ficar quieto com Deus.
O Livro dos Salmos é, entre outras coisas, um catálogo das emoções humanas diante de Deus. Lá está a gratidão, o louvor, a confiança, mas também o desespero, a indignação e algo que se parece muito com raiva. O Salmo 22 diz:
“Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste? As palavras do meu clamor não são por Vós ouvidas. Meu Deus, clamo de dia e não me respondeis” (Salmo 22,2-3).
Em catequese sobre esse Salmo, Papa Bento XVI observou algo fundamental que “o orante do nosso Salmo, no seu brado, chama três vezes o Senhor ‘meu’ Deus, num extremo gesto de confiança e de fé.”
Jesus, na Cruz, rezou esse mesmo Salmo. “Eli, Eli, lamá sabactâni?”: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?” (Mateus 27,46). O Filho de Deus chegou ao Pai com o clamor e, se Ele o fez, a oração pode conter tudo.
Uma das situações mais delicadas, e mais frequentes, é a de quem, depois de uma perda, sente raiva de Deus. O luto carrega a pergunta “por que?”, como compartilhou a jornalista Sara Andrade sobre o luto pela partida de seu pai. A sensação é de abandono e muitas pessoas carregam esse sentimento com vergonha, como se sentir raiva de Deus fosse um pecado grave, uma prova de fraqueza ou de fé insuficiente.
Nos Salmos, toda vez que o povo de Deus expressa raiva contra Ele, o faz em oração, em comunhão com o Senhor, mesmo que expressando também uma desaprovação provisória da ação do Pai, em um movimento de aproximação com o que dói. Levar a raiva para dentro da oração é um ato de fé, mesmo quando parece o contrário e dizer algo como: ainda acredito que há Alguém que ouve.
São Francisco de Sales, Doutor da Igreja e patrono dos escritores, ensinava que a raiva não deve ser negada nem reprimida, mas também não deve ditar a ação:
“Assim que eu perceber que a raiva está crescendo em mim, reunirei minhas forças, não violentamente, mas suavemente, e tentarei restaurar meu coração em paz. Como sei que nada posso fazer sozinho, cuidarei de invocar-Te em minha ajuda, como fizeram os Apóstolos quando lançados em mar furioso.”
Rezar quando se está com raiva é um compromisso anterior ao sentimento, pois significa honrar a decisão de não deixar a emoção ser o critério que determina a presença de Deus na vida. O Catecismo da Igreja Católica (nn. 2742-2744) ensina que “o combate da oração é o do humilde, confiante e perseverante amor”.
Quando a raiva está alta e a oração parece impossível, algumas orientações são:
São Francisco de Sales deixou uma oração que pode ser rezada tanto em paz quanto no limite da paciência:
“Com a tua ajuda, Senhor, quero praticar a gentileza nos encontros e nas adversidades diárias. Assim que eu perceber que a raiva está crescendo em mim, reunirei minhas forças, não violentamente, mas suavemente, e tentarei restaurar meu coração em paz. Recorramos à Misericórdia de Deus, que virá em nosso auxílio.”
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