A Igreja não é feita só de pessoas serenas, obedientes e impecáveis desde o berço. A história da santidade está cheia de gente teimosa, difícil de convencer, que resistiu ao chamado de Deus por anos e, às vezes, com mais criatividade do que qualquer desculpa que você já deu.
Se você se reconhece como alguém que precisa ser convencido, que duvida, que insiste, que bate o pé, bem-vindo a uma tradição com muita companhia.
Pedro era pescador, trabalhador e teimoso por natureza. Quando Jesus o chamou, ele deixou a rede e foi, mas não sem antes alertar: “Ide-vos embora de mim, Senhor, porque sou um pecador” (Lucas 5,8). Já começou tentando recusar.
No Evangelhos, Pedro é o que fala antes de pensar. Quando Jesus lava os pés dos discípulos, Pedro protesta: “Nunca me lavarás os pés!” (João 13,8). Jesus explica e ele muda de posição na mesma frase: “Então não apenas os pés, mas também as mãos e a cabeça!”. Extremos absolutos, sem meio-termo.
Na noite do Getsêmani, prometeu que nunca negaria Jesus e algumas horas depois, o negou três vezes. Não por maldade, mas por medo e humanidade. Por ser exatamente o tipo de pessoa que acredita com toda a força em um momento e treme no seguinte.
Foi nesse homem que Jesus quis construir sua Igreja. “Tu és Pedro, e sobre esta pedra edificarei a minha Igreja” (Mateus 16,18). Deus não esperou por alguém perfeito. Escolheu alguém real.
Agostinho nasceu em 354, na atual Argélia. Filho de pai pagão e de Santa Mônica, uma das mulheres mais persistentes da história da Igreja, recebeu educação cristã na infância e passou as décadas seguintes fugindo dela com sofisticação intelectual invejável.
Aderiu ao maniqueísmo, estudou filosofia, teve uma companheira e um filho. Enquanto isso, Santa Mônica rezava. O Bispo Ambrósio de Milão tentou convencê-lo e mais anos passaram.
Em suas Confissões, Agostinho registrou a oração que resumiu tua essa fase: “Senhor, dai-me a castidade e a continência, mas ainda não.” É a frase mais honesta da história da espiritualidade cristã, pois ele queria Deus, mas queria também continuar como estava. A conversão veio em 386, depois de mais de dez anos de resistência.
Santo Atanásio foi eleito Bispo de Alexandria em 328. Tinha cerca de 30 anos e não tinha a menor intenção de facilitar a vida de ninguém. Naquele século, a heresia ariana, que negava a divindade de Cristo, havia conquistado praticamente toda a Igreja do Oriente, apoiada pelo imperador. Concílios foram convocados, Bispos cederam e Teólogos se curvaram.
Atanásio não cedeu e foi exilado cinco vezes, pelo menos uma por ordem direta do imperador. Passou 17 dos seus 45 anos de episcopado fora de Alexandria, fugindo ou escondido. A frase que ficou associada a ele pela história é: “Athanasius contra mundum” — Atanásio contra o mundo.
Quando bispos que capitularam sugeriram que ele deveria ceder, dado o tamanho do consenso, ele respondeu que isso provava apenas que os bispos estavam errados. A teimosia de Atanásio preservou o Credo de Niceia a afirmação de que Jesus é verdadeiro Deus e verdadeiro homem, que a Igreja recita até hoje, toda semana.
Os três foram teimosos, erraram e, por caminhos diferentes, chegaram ao mesmo lugar: a santidade.
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