Setembro Amarelo: o silêncio que adoece e a graça que acolhe

Setembro Amarelo: o silêncio que adoece e a graça que acolhe

Com a chegada do mês de setembro, a sociedade volta o seu olhar para uma das feridas mais dolorosas e silenciosas do nosso tempo: a saúde mental e a prevenção do suicídio. A campanha do Setembro Amarelo nos convoca a romper o tabu, escutar a dor sem julgamentos e oferecer pontes de esperança para cada pessoa.

Para a fé católica e para a psicanálise, o sofrimento psíquico não é um sinal de fraqueza, tampouco uma falha espiritual. Como sacerdote e psicanalista, contemplo diariamente a interseção entre o mistério da alma humana e o dinamismo do inconsciente. E é exatamente nessa travessia que precisamos alinhar a luz do Evangelho ao respeito pelo psiquismo humano.

1 – O sofrimento psíquico não é falta de fé

Durante muito tempo, vigorou um equívoco perigoso — e pastoralmente danoso — de associar a depressão, a ansiedade e a ideação suicida a uma suposta “falta de Deus” ou “fraqueza de oração”. É urgente desmistificar essa visão nos nossos convivios.

O ser humano é uma unidade complexa: corpo, mente e espírito. Da mesma forma que um cristão fervoroso pode enfrentar uma enfermidade física no corpo, a mente também pode adoecer. Grandes santos da nossa história — como São João da Cruz ao descrever a “noite escura da alma” ou Santa Teresinha do Menino Jesus em seus momentos de aridez profunda — conheceram o peso do abandono e da escuridão interior.

A fé não imuniza o sujeito contra a dor psíquica, mas oferece um sentido para a existência e a promessa de que não caminhamos sozinhos. A oração fortalece o espírito, mas o cuidado terapêutico e médico reorganiza os processos psíquicos e biológicos que entraram em colapso no corpo humano. Um não substitui o outro; completam-se.

2 – O abismo da dor e o desejo de cessar a existência

Na escuta analítica, aprendemos que quem pensa em tirar a própria vida, em regra, não deseja destruir a existência em si, mas colocar fim a uma dor insuportável. É o desespero de um sujeito que sentiu suas vias de palavras e elaboração esgotadas. Quando o sofrimento ultrapassa a capacidade de simbolização, o ato extremo surge como uma tentativa trágica de estancar a angústia.

O Evangelho nos mostra Jesus diante da dor extrema no Horto das Oliveiras. Ali, em sua agonia, Ele não escondeu a tristeza: “A minha alma está numa tristeza de morte” (Mt 26,38). Cristo valida a dor humana, Ele suou sangue pelos poros de seu corpo. Ele não exige uma fortaleza teatral, mas acolhe a vulnerabilidade.

3 – A escuta que salva: do isolamento à comunhão

O antídoto mais eficaz contra o desespero é a presença e a palavra. A psicanálise nos ensina o poder da cura pela fala (talking cure); o Evangelho nos ensina o poder da escuta compassiva, ao estilo do Bom Samaritano.

Quantas pessoas estão sentadas ao nosso lado nos bancos das igrejas, nas nossas famílias ou nos ambientes de trabalho carregando um silêncio ensurdecedor? O papel da comunidade cristã neste Setembro Amarelo é ser um espaço seguro de acolhimento. Precisamos migrar de uma postura moralista para uma postura de escuta empática e um olhar misericordioso.

Escutar alguém em dor não é oferecer respostas prontas, conselhos simplistas ou julgamentos apressados. É dizer, com a presença e o afeto: “Sua dor importa, sua vida é preciosa e você não precisa carregar esse peso sozinho.”

4 – Promover a vida em todas as suas dimensões

Salvar vidas exige uma ação integrada. A prevenção ao suicídio passa pelo cultivo da saúde mental, pelo fim do estigma sobre a busca por ajuda terapêutica, cura interior e psiquiátrica, e pelo fortalecimento dos laços comunitários e familiares.

Que este Setembro Amarelo seja um divisor de águas em nossas comunidades. Que saibamos ser braços abertos para os que fraquejam, orelhas atentas para os que precisam desabafar e sinal vivo da misericórdia de Deus, que nunca desiste de nenhuma de suas ovelhas.

Se você está passando por um momento de escuridão, não se isole. Procure ajuda profissional, converse com alguém de sua confiança e busque o amparo espiritual e terapêutico. A sua vida tem um valor inestimável — para Deus e para todos nós.

Pe. Jorge Fortunato

 

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