Poucas experiências deixam o fiel tão inquieto, e também tão esperançoso, quanto acordar com a sensação de ter visto Nossa Senhora durante o sono. A dúvida que vem logo depois se foi real, se tinha algum significado e qual seria.
A Igreja não tem uma resposta oficial sobre a interpretação de sonhos, mas existem alguns direcionamentos ou perguntas que ajudam a entender se um sonho vem de Deus. Há também a tradição teológica, ancorada nas Escrituras e nos ensinamentos dos santos, que ajuda o fiel a discernir o que fazer com essa experiência, sem cair na superstição e sem descartá-la de forma precipitada.
Os sonhos como canal de comunicação divina estão presentes do início ao fim das Sagradas Escrituras. José do Egito teve sonhos proféticos e os interpretou para o faraó, o que o levou a salvar um povo inteiro (cf. Gn 37-41). São José, pai de Jesus, recebeu três instruções decisivas em sonho: foi informado de que devia tomar Maria como esposa, advertido para fugir com a família para o Egito e chamado de volta depois da morte de Herodes (cf. Mt 1,20; 2,13; 2,19). Os Magos foram avisados em sonho para não voltarem a Herodes (cf. Mt 2,12).
O sonho, na tradição judaico-cristã, é um espaço reconhecido de revelação. A distinção que a Bíblia faz não é entre “sonhos que existem” e “sonhos que não existem”, mas entre sonhos que vêm de Deus e adivinhação, que a Escritura condena explicitamente: “Portanto, não deis ouvidos aos vossos profetas, adivinhadores, intérpretes de sonhos” (Jr 27,9). O profeta fala aqui de quem busca nos sonhos um oráculo sobre o futuro, algo bem diferente de discernir com humildade uma experiência espiritual.
No século VI, o Papa São Gregório Magno, Doutor da Igreja, dedicou parte de sua obra Diálogos ao tema dos sonhos. Ele identificou seis tipos:
Para São Gregório, portanto, nem todo sonho vem de Deus, mas alguns vêm. A sabedoria está em não afirmar com precipitação que um sonho é divino, nem em descartar toda experiência como mero processamento cerebral.
O Catecismo da Igreja Católica alerta que “todas as formas de adivinhação devem ser rejeitadas” (CIC, n. 2116), incluindo o recurso a “poderes ocultos” para conhecer o futuro ou interpretar acontecimentos. Isso significa que buscar em sites ou livros de esoterismo o “significado” de sonhar com Nossa Senhora é uma prática contrária à fé católica, independentemente de quão bonito tenha sido o sonho.
Os dois grandes Doutores da Igreja especialistas em vida interior, anta Teresa de Ávila e São João da Cruz, eram cautelosos diante de visões e experiências espirituais, incluindo as que ocorriam durante o sono. Ambos alertavam: o inimigo é capaz de imitar aparições de Cristo e até da Virgem Maria para enganar os incautos. A atitude correta, segundo eles, é sempre submeter essas experiências à autoridade da Igreja e ao acompanhamento de um bom diretor espiritual.
Santa Teresa ensinava que a humildade é a primeira virtude do discernimento. Não porque a experiência não possa ser real, mas porque a soberba espiritual é um caminho certo para o autoengano.
Alguns sinais ajudam a avaliar a experiência:

Reze. Se o sonho deixou paz e desejo de aproximação de Deus, agradeça e use essa experiência como impulso para a vida espiritual, com mais oração, mais sacramentos, mais fidelidade ao Evangelho. Se deixou dúvida ou inquietação, não tome nenhuma decisão baseada nele e, se possível, converse com um sacerdote ou diretor espiritual. A Virgem Maria, quando quer comunicar algo, age com a verdade, gera paz e conduz sempre mais perto de Jesus.
Em seu perfil no TikTok, Padre Josileudo Queiroz respondeu a um seguidor se era bom sonhar com Nossa Senhora. O sacerdote respondeu: “É uma bênção. sinta-se privilegiada. Sinal que ela está sempre conosco, né?”
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