Dia dos Avós: o Brasil tem 34 milhões de idosos. Sabe o que eles querem?

Dia dos Avós: o Brasil tem 34 milhões de idosos. Sabe o que eles querem?

Sua avó provavelmente ainda tem opinião sobre moda, abe cozinhar melhor do que qualquer aplicativo de receitas e pode ter vontade de aprender a usar o Instagram, tirar fotos, estudar um idioma… Ela não parou de ser quem era só porque envelheceu. O problema é que o mundo ao redor dela, em grande parte, age como se tivesse.

O Brasil tem quase 34 milhões de pessoas com mais de 60 anos, mais do que a população inteira da Argentina. Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), entre 2012 e 2024 esse contingente cresceu 53,3%. Em 2023, pela primeira vez na história do país, havia mais idosos do que jovens entre 15 e 24 anos. E uma pessoa que chega aos 60 em 2024 pode viver, em média, mais 22,6 anos. A terceira idade deixou de ser uma fase curta de encerramento para ser uma etapa longa, ativa e que o país ainda não aprendeu a receber.

O envelhecimento acelerado da população brasileira não é surpresa eos dados do IBGE vêm sinalizando essa transformação há décadas. O que surpreende é a velocidade: em 2070, a projeção é que 37,8% da população seja idosa, com 75 milhões de pessoas acima de 60 anos. A idade mediana do brasileiro, que era de 28,3 anos em 2000, chegou a 35,5 anos em 2023 e deve alcançar 48,4 anos em 2070.

Esse cenário exige adaptações urgentes em saúde, infraestrutura, transporte e suporte social. Mas exige, antes de tudo, uma mudança de olhar, pois um grande problema é a forma como a sociedade ainda enxerga os idosos: como um grupo homogêneo de pessoas fragilizadas, que precisam de cuidado mas não de protagonismo.

A realidade é muito mais rica. Segundo o IBGE, um a cada quatro idosos brasileiros estava trabalhando em 2024. Entre os 60 e 69 anos, quase metade dos homens permanecia ativa no mercado de trabalho. O uso de tecnologia entre idosos atingiu 66% em 2023. São pessoas com disposição, com história e, frequentemente, com tempo e vontade de aprender coisas que a vida não havia permitido antes.

Algumas iniciativas já apontam o caminho. Universidades abertas à terceira idade, como as oferecidas por diversas universidades públicas e católicas brasileiras, oferecem cursos gratuitos ou de baixo custo em áreas como informática, artes, idiomas, gastronomia e fotografia e costumam ter listas de espera, o que revela o tamanho da demanda reprimida. Academias especializadas, grupos de caminhada, clubes de leitura, cursos de aquarela e de culinária voltados para o público 60+ têm crescido nas grandes cidades.

O desafio é levar essa oferta para além das capitais e garantir que ela trate os idosos como adultos com desejo e personalidade, não como pacientes a entreter.

O que a solidão tem a ver com isso

Quem gostava de arquitetura continua gostando de arquitetura. Quem sempre quis aprender fotografia ainda quer. O interesse por gastronomia, tecnologia, arte, idiomas não desaparece com a idade. Na verdade, muitas vezes cresce, porque finalmente há tempo e o que falta é encontrar serviços, cursos e espaços que tratem os idosos como adultos com história, com desejo, com personalidade — não como pacientes ou como um problema a administrar.

A solidão, porém, é real. A Pastoral da Pessoa Idosa da CNBB, fundada pela Dra. Zilda Arns e que tem Padre Reginaldo Manzotti como embaixador, acompanha 170 mil idosos em todo o Brasil por meio de uma rede de 25 mil líderes voluntários que os visitam mensalmente em casa. O que esses líderes encontram com frequência é isolamento e não por falta de família, mas de presença. Há uma diferença entre ter parentes e ser visto por eles.

A metodologia da Pastoral inclui: cada líder capacitado visita mensalmente cerca de dez idosos vizinhos, acompanha sua saúde, sua sociabilidade, seu bem-estar. O cuidado se multiplica a partir de quem foi formado para cuidar. Mas o espaço das comunidades pode ir além do cuidado assistencial. Idosos têm muito a oferecer: experiência, memória, formação acumulada ao longo de décadas. Integrá-los como protagonistas nas pastorais, nas atividades comunitárias, nas conversas com jovens,  e não apenas como destinatários do cuidado, é uma forma de levar a sério o que a própria Escritura já dizia:

“Levanta-te diante de um ancião e honra a pessoa do idoso” (Lv 19,32).

Há formas concretas de agir agora. Verificar se a sua paróquia tem ou pode implantar a Pastoral da Pessoa Idosa, visitar um idoso vizinho com regularidade e não apenas em datas especiais, incluir avós e idosos em conversas sobre tecnologia, redes sociais, aplicativos, investigar cursos e atividades na cidade que atendam esse público. Perguntar, com genuína curiosidade, o que o idoso ao seu lado ainda quer aprender, fazer ou descobrir.

Os avós de Jesus e o que eles ensinaram sem aparecer nos Evangelhos

SantAna e São Joaquim não aparecem em Evangelhos canônicos, mas a Igreja celebra sua memória em 26 de julho porque compreendeu que eles transmitiram a Maria a fé, os valores, a identidade enraizada em Deus e foi o que a preparou para dizer “sim” ao anjo. A velhice deles foi fecunda graças ao que uma vida inteira de fé havia construído e transmitido.

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