Julho bateu à porta e, com ele, a pergunta que todo pai e toda mãe conhecem bem: como ocupar as crianças nas férias sem entregá-las de vez à tela do celular, do tablet ou da televisão? A resposta não é novidade, mas a urgência, sim. Nos últimos anos, o debate sobre crianças e telas deixou de ser assunto de especialistas para virar conversa de cozinha, consultório pediátrico e grande conflito de famílias.
Em 2024, a atriz Thaila Ayala contou em um podcast o que passou com seu filho Francisco, então com três anos. Sem perceber, ela havia deixado as telas entrarem na rotina do menino e a mudança não foi imediata, mas sutil, progressiva e assustadora.
“Chamava pelo nome e ele não respondia, as coisas que ele normalmente fazia, não fazia mais, não olhava mais no olho. Eu cheguei a pensar que ele tinha algum grau de autismo (TEA). Ao invés de evoluir, ele foi regredindo”, contou a atriz.
Os médicos, após avaliação, sugeriram cortar as telas e, dez dias sem nenhuma tela, Francisco era outra criança. A experiência de Thaila não é exceção.
A Pastoral da Criança incluiu no seu e-Guia do Líder 2025 um tópico específico sobre o tema: quanto menor o tempo de exposição a telas, melhor para a criança.
A Pastoral alinha sua recomendação às diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) e da Sociedade Brasileira de Pediatria: zero tela até os dois anos; uma hora de tela dos dois aos cinco anos; duas horas de cinco a dez anos; três horas de dez a dezoito anos e sempre com supervisão de um adulto. A Dra. Ana Lea Clementino, pediatra e líder da Pastoral da Criança em Londrina (PR), vai além nos dados:
“Estudos já mostram que, a partir de 30 minutos de tela sem pausa, qualquer cérebro sofre — inclusive o do adulto, mas principalmente o da criança, que ainda está em desenvolvimento”, explica.
A Pastoral reforça essa orientação nas visitas domiciliares, nas Celebrações da Vida e nas ações de Brinquedos e Brincadeiras, com a proposta que o tempo diante das telas seja substituído por interações com a família, brincadeiras ao ar livre e refeições sem distrações digitais.
Brincar é o modo como a criança aprende a existir no mundo. Pelo brincar, ela desenvolve linguagem, criatividade, empatia, resolução de problemas, tolerância à frustração e a capacidade de estar consigo mesma sem precisar de estímulo externo constante.
A tela oferece estímulo, muito estímulo, rápido e ininterrupto. Mas não oferece o silêncio fértil da brincadeira livre, o atrito saudável de negociar com um amigo, o prazer físico de correr, pular, escalar, cair e levantar. Férias são a oportunidade rara de devolver à criança o tempo de que ela precisa para simplesmente ser criança.
Nenhuma dessas sugestões exige dinheiro, viagem ou equipamento especial. Exigem presença:
Nas férias de julho, antes de ligar o tablet, celular ou notebook, vale a pena perguntar: o que meu filho estaria fazendo agora se essa tela não existisse?
Leia: Como equilibrar a rotina das crianças entre telas e brincadeiras?
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