Quando Jó perdeu os rebanhos, os servos, os filhos e a saúde em sequência, rasgou as vestes, raspou a cabeça e prostrou-se por terra. Depois disse: “Saí nu do ventre da minha mãe, e nu partirei. O Senhor o deu, o Senhor o levou; louvado seja o nome do Senhor” (Jó 1,21).
O livro de Jó é o texto mais longo da Escritura dedicado a um único tema: o sofrimento de alguém que perdeu quase tudo e tenta entender por quê. Ao longo de seus 42 capítulos, Jó recebe a presença de Deus, sobretudo. O primeiro dado relevante é que a Bíblia não começa pelas respostas. Os Salmos, que são o livro de oração do povo de Deus, reservam mais de um terço de seus textos para o lamento: perguntas diretas a Deus, queixas sobre o abandono, súplicas sem resposta imediata. O Salmo 13 abre com “Até quando, Senhor? Vais esquecer-me para sempre?”, e essa frase está ali não como mau exemplo, mas como prece legítima.
O Salmo 56,8 vai ao detalhe e diz que Deus guarda as lágrimas do crente, que as anota em seu livro. A imagem é de alguém que não vira o rosto para o lado quando o outro chora, que registra o que o sofredor está atravessando e a atenção de Deus à dor humana é um pressuposto que percorre toda a Escritura, dos profetas aos evangelhos.
Isaías 43,2 diz: “Quando passares pelas águas, estarei contigo, e quando pelos rios, eles não te submergirão; quando passares pelo fogo, não te queimarás, nem a chama arderá em ti”.
Um dado que o texto bíblico deixa visível é que questionar Deus diante da perda não é falta de fé. Jó o faz extensamente, os salmistas o fazem e o próprio Jesus, na Cruz, recita o Salmo 22: “Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?” A lamentação bíblica é uma forma de relação, a que leva a dor para dentro da oração em vez de deixá-la do lado de fora.
O que a Bíblia não endossa é o luto sem horizonte, o sofrimento fechado sobre si mesmo sem nenhuma abertura para além do momento presente. São Paulo, escrevendo a comunidade de Tessalônica sobre a morte de crentes diz para não sofrer “como os que não têm esperança” (1Tessalonicenses 4,13). A dor pode coexistir com a esperança. Os dois não se anulam.
A noite anterior à Crucificação é o ponto em que a Escritura oferece o modelo mais preciso sobre o que é aceitar algo que não se escolheu. Jesus se afasta dos discípulos, cai com o rosto em terra e ora: “Pai, se queres, afasta de mim este cálice; contudo, não seja feita a minha vontade, mas a tua” (Lucas 22,42).

A oração tem duas partes. Na primeira, Jesus diz o que não quer e pede que o cálice seja afastado. Na segunda parte, a entrega: “não seja feita a minha vontade, mas a tua”. Esse movimento, de pedir e depois render, é o padrão que a espiritualidade cristã reconhece como aceitação. É a confiança de que o Pai enxerga mais do que o que se consegue ver de dentro da perda.
“E sabemos que todas as coisas concorrem para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito” (Romanos 8,28). São Paulo escreveu isso preso, depois de ter passado por naufrágio, chicotadas, abandono de comunidades que ele mesmo havia fundado. Romanos 8,28 é uma confissão dentro de uma experiência de perdas consecutivas.
O versículo diz que, no conjunto de uma vida entregue a Deus, as coisas concorrem para o bem e é uma afirmação de alcance longo, não de resolução rápida, e por isso exige fé de um tipo diferente do que a resposta imediata.
Filipenses 4,6-7 oferece o gesto prático correspondente:
“Não andem ansiosos por coisa alguma, mas em tudo, pela oração e súplicas, e com ação de graças, apresentem seus pedidos a Deus. E a paz de Deus, que excede todo o entendimento, guardará o coração e a mente de vocês em Cristo Jesus.”
Apocalipse 21,4 encerra a Bíblia com uma imagem que diz respeito a tudo que foi perdido ao longo de uma vida: “Ele enxugará dos seus olhos toda lágrima, e não haverá mais morte, tristeza, choro nem dor, pois o que existia antes deixou de existir.”
O Salmo 34,18 sintetiza o que acontece no meio do caminho:
“O Senhor está perto dos que têm o coração quebrantado e salva os de espírito abatido.”
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