Existia caixão na Bíblia? O que as Escrituras dizem sobre enterrar os mortos

Existia caixão na Bíblia? O que as Escrituras dizem sobre enterrar os mortos

Sim, o caixão aparece na Bíblia, mas em apenas dois momentos muito específicos e por razões completamente distintas. Compreender essas duas passagens revela muito sobre os costumes hebraicos, o ensinamento cristão sobre o corpo humano e o que a Igreja Católica afirma sobre a dignidade dos nossos mortos. Em outra publicação, já falamos sobre o velório ser obrigatório ou não para católicos. 

Cardeal Giovanni Battista Re presidiu Santa Missa das Exéquias de Papa Francisco./Foto: reprodução Vatican News

O único caixão do Antigo Testamento

A primeira menção está no último versículo do livro do Gênesis, a última frase de todo o Antigo Testamento: “Assim morreu José, tendo cento e dez anos de idade; e o embalsamaram e o puseram em um caixão no Egito” (Gênesis 50,26).

Essa informação chama bastante atenção, pois José havia vivido décadas no Egito, governado como vice-rei do Faraó e sido profundamente inserido na cultura egípcia. O embalsamamento e o caixão são ritos funerários egípcios, não hebraicos. Mas havia uma razão de fé por trás disso: antes de morrer, José havia pedido que seus ossos fossem levados de volta a Canaã, a terra prometida. O corpo precisava ser preservado para uma viagem que poderia levar gerações. O que de fato aconteceu está no livro do Êxodo:

“Moisés levou consigo os ossos de José, pois este havia feito os filhos de Israel prestarem juramento solene, dizendo: Deus certamente virá em socorro de vocês; e então levem daqui os meus ossos com vocês” (Êxodo 13,19).

O único caixão do Antigo Testamento é, portanto, uma exceção explicada por séculos de vida em terra estrangeira e por um pedido de fé que atravessou gerações.

Jesus toca um féretro: o único momento do Novo Testamento

A segunda ocorrência está em Lucas 7, no episódio da ressurreição do filho da viúva de Naim. Jesus encontra um cortejo fúnebre saindo da cidade: uma mãe que havia perdido o único filho. O texto diz:

“Então foi até o caixão, tocou nele e os carregadores pararam. E disse: Jovem, eu lhe digo: levante-se!” (Lucas 7,14).

A palavra grega usada é soros, que aparece uma única vez em todo o Novo Testamento. Mas atenção: não se trata de um caixão fechado como entendemos hoje. O soros era um féretro aberto, uma espécie de maca ou padiola de madeira sobre a qual o corpo era carregado até o local de sepultamento. Os mortos judeus não eram enterrados dentro de caixões fechados; eram levados dessa forma até o túmulo e ali depositados.

O gesto de Jesus tem um peso ainda maior quando se entende o contexto: pela Lei judaica, tocar um corpo morto tornava a pessoa ritualmente impura. Jesus ignorou essa norma, pois o que importava para ele estava diante dos seus olhos: uma mãe sozinha, sem marido, sem filho, sem amparo. 

Como os hebreus enterravam seus mortos

Fora dessas duas ocorrências, o costume descrito pela Bíblia não inclui caixão. O hábito hebraico era sepultar os mortos em cavernas naturais ou túmulos escavados na rocha, no menor prazo possível após a morte. A Lei de Moisés estabelecia que um corpo não deveria ficar exposto durante a noite (Deuteronômios 21,23). Deixar alguém insepulto era considerado uma desonra grave.

O corpo era lavado, envolto em faixas de linho e ungido com especiarias. O Evangelho de João descreve o sepultamento de Jesus: Nicodemos trouxe “cerca de trinta e quatro quilos de uma mistura de mirra e aloés” e, junto de José de Arimateia, envolveu o corpo “em faixas de linho com as especiarias, segundo o costume judaico de sepultamento” (João 19,39-40). O corpo foi então depositado em um túmulo novo, escavado na rocha, dentro de um jardim, sem caixão.

Escultura antiga dentro da Igreja de São Luís em Poissy, na França, representando o enterro de Jesus Cristo. Imagem: ALEXANDRE LAMOUR VIANA / Shutterstock.com

Essa tradição vem de muito antes. O primeiro gesto de compra de terra registrado na Bíblia foi para garantir um lugar de sepultamento. Em Gênesis 23, Abraão negocia com Efron, o hitita, a compra da caverna de Macpela, em Hebron, e insiste em pagar o preço justo, sem aceitar a terra de graça. Ali seriam sepultados Sara, o próprio Abraão, Isaque, Rebeca, Lia e Jacó.

Sepultar os mortos: um ato de fé com nome na tradição cristã

Um dos exemplos do valor do sepultamento na Bíblia está no livro de Tobias. Ele vivia sob um regime que proibia enterrar certos mortos. Mesmo assim, cada vez que encontrava um israelita morto na rua, ia sepultá-lo, ainda que isso custasse sua segurança. O texto diz que “tinha mais temor a Deus do que ao rei” (Tobias 2,9).

Em audiência geral de 30 de novembro de 2016, Papa Francisco se dedicou a comentar a sétima obra de misericórdia corporal: sepultar os mortos. Ele citou Tobias como modelo de quem age com coragem e recordou José de Arimateia, que foi pessoalmente pedir o corpo de Jesus a Pilatos e o depositou em seu próprio túmulo escavado na rocha (Mateus 27,57-60). Francisco chamou esse gesto de uma verdadeira obra de misericórdia realizada com grande coragem.

Esse ensinamento tem fundamento no próprio Catecismo da Igreja Católica. O parágrafo 2300 afirma que a Igreja pede que os fiéis respeitem os corpos dos defuntos e que sepultar os mortos é uma obra de misericórdia corporal.

O que a Igreja diz sobre enterrar os mortos

Em 2016, a Congregação para a Doutrina da Fé publicou a instrução Ad resurgendum cum Christo, documento oficial aprovado pelo Papa Francisco que apresenta o fundamento teológico do sepultamento cristão. O texto afirma que a Igreja recomenda que os corpos dos fiéis sejam sepultados em cemitérios ou lugares sagrados, e que “a inumação é a forma mais idónea para exprimir a fé e a esperança na ressurreição corporal”.

O documento explica o motivo: o corpo humano faz parte integrante da pessoa e, pelo Batismo, tornou-se templo do Espírito Santo. Sepultá-lo com cuidado é um ato de fé de que aquele corpo será ressuscitado. A instrução cita Santo Agostinho e o Concílio Vaticano II para fundamentar que o corpo humano não pode ser tratado como algo descartável ou sem dignidade, nem mesmo após a morte.

São Paulo sintetizou essa esperança:

“O corpo é semeado em corrupção e ressuscitará em glória; é semeado em fraqueza e ressuscitará em poder” (1 Coríntios 15,42-43).

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