Havia uma cidade murada, considerada inexpugnável. Havia um povo que deixou o Egito, cruzou o deserto e chegou às bordas da Terra Prometida. E havia uma instrução divina que, aos olhos humanos, não fez o menor sentido militar: marchar em silêncio ao redor dos muros, durante seis dias, com sete sacerdotes portando trombetas de chifre de carneiro à frente da Arca da Aliança. No sétimo dia, sete voltas. E então, os sete sacerdotes tocariam as trombetas, o povo soltaria um grande grito e as muralhas cairiam.
“Assim que o povo soltou o grito de guerra e as trombetas soaram, os muros desabaram, e cada um avançou em linha reta para a cidade, que foi conquistada” (Josué 6,20).
É nesse episódio do livro de Josué que tem raiz o que hoje se conhece como Cerco de Jericó, uma prática de oração amplamente vivida por fiéis católicos em todo o Brasil, especialmente em grupos de oração, comunidades e paróquias que buscam se reunir em clamor pela intervenção de Deus diante de situações difíceis, seja em família, em comunidade ou individualmente.
Na sua forma mais comum, o Cerco de Jericó é uma semana intensa de oração pessoal e comunitária (sete dias de clamor a Deus) que pode incluir Missa diária, Adoração ao Santíssimo Sacramento, Rosário, leitura da Palavra de Deus, confissão e jejum. A imagem que orienta tudo é a mesma do relato bíblico: cercar em oração aquilo que precisa da ação de Deus, com perseverança e confiança, até que as muralhas caiam.
Pode ser realizado em torno de uma casa, de um terreno, de um hospital, de um local de trabalho, ou simplesmente em torno de uma situação, uma família, uma necessidade concreta que o fiel traz diante do Senhor. O número sete, de dias e de voltas, evoca o relato de Josué, mas o centro da prática é sempre o mesmo, a oração confiante e perseverante de quem sabe que o poder não vem de si mesmo.
Para Padre Reginaldo Manzotti, fundador da Associação Evangelizar é Preciso e um dos Sacerdotes que mais tem evangelizado sobre essa prática no Brasil, o Cerco de Jericó é, antes de tudo, uma modalidade de oração e precisa ser entendido como tal, sem desvios supersticiosos e com respeito à orientação pastoral da Igreja.
“Pode ser realizado em uma igreja, mas de preferência não em cima do presbitério, mas em um lugar que favoreça a oração. Claro que tem grande efeito em oração feita em grupo de oração, em convivência, em partilha ou individualmente. Não existe algo liturgicamente orientando o Cerco de Jericó. Por isso, é tão importante que se obedeça os bispos de uma Diocese ou o pároco, que orienta sobre a prática do Cerco de Jericó. É como toda oração: requer uma intimidade com Deus. Toda oração requer da pessoa um contato com o Espírito Santo e uma abertura à Graça do Pai. O Cerco de Jericó não é mágico e não é algo supersticioso. Qualquer ideia de superstição é negativa. Como toda oração, brota de um clamor pessoal ou comunitário.”
O Padre destaca dois pontos que merecem atenção especial:
A conquista de Jericó, narrada no capítulo seis do livro de Josué, carrega uma mensagem teológica que atravessa séculos: as promessas de Deus não falham. O povo de Israel não derrubou aquelas muralhas pela sua força, mas pela obediência a uma instrução que parecia absurda, pela fidelidade durante sete dias.
É esse espírito que a prática contemporânea do Cerco de Jericó busca reavivar. A certeza de que há muralhas na vida de cada pessoa, que são situações que parecem impossíveis, portas que parecem permanentemente fechadas, relações que parecem irrecuperáveis, diante das quais o cristão é convidado não à resignação, mas ao clamor confiante e perseverante a Deus.
Para quem deseja compreender mais profundamente o significado espiritual do Cerco de Jericó e como vivê-lo com autenticidade, Padre Reginaldo Manzotti escreveu As Muralhas Vão Cair. Com uma narrativa envolvente e enraizada na Palavra de Deus, o livro revela como a confiança no divino pode derrubar barreiras que parecem intransponíveis, guiando o leitor em uma jornada espiritual para fortalecer a fé e alcançar a vida de plenitude e vitória que Deus promete a cada um de Seus filhos.
Como toda oração que brota de um clamor sincero, o Cerco de Jericó começa onde a vida está, nas suas dificuldades reais, nas suas muralhas concretas, termina onde Deus sempre termina: na vitória que nenhuma força humana poderia conquistar sozinha.
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