O que estou buscando: fé performativa ou fé performática?

O que estou buscando: fé performativa ou fé performática?

Talvez você já tenha percebido como, nos dias de hoje, quase tudo pode ser mostrado. Compartilhamos viagens, momentos em família, conquistas, opiniões e também nossa fé. Publicamos uma oração, uma passagem da Bíblia, uma foto na Missa, uma peregrinação ou um momento de espiritualidade. E não há nada de errado nisso.

Compartilhar a fé também pode ser uma forma de testemunho. Mas existe uma pergunta que vale a pena fazer de vez em quando: estou vivendo minha fé ou estou preocupado em mostrar que tenho fé? É aqui que podemos entender a diferença entre uma fé performativa e uma fé performática.

A palavra performativa pode parecer complicada, mas a ideia é simples. É uma fé que produz transformação e que que não fica apenas nas palavras ou nas emoções, mas começa a aparecer nas nossas atitudes. É a fé que nos torna mais pacientes, mais misericordiosos, mais dispostos a perdoar, a servir e a recomeçar. São Tiago resume isso muito bem:

“A fé, se não tiver obras, está completamente morta” (Tiago 2,17).

Já a expressão fé performática faz referência àquilo que é apresentado como uma performance, algo feito para ser visto. O problema não está em testemunhar publicamente a fé, mas quando a aparência começa a ocupar o lugar da experiência com Deus. Podemos começar a nos preocupar mais com a imagem de uma pessoa de fé do que com a transformação do nosso coração. Jesus já havia alertado sobre isso. Ao falar da prática religiosa, ensinou:

“Cuidado para não praticardes a vossa justiça diante dos homens, só para serdes vistos por eles” (Mateus 6,1).

Perceba que Jesus não está dizendo que devemos esconder nossa fé. Ele mesmo nos chama a ser luz para o mundo. A questão é outra: ‘para quem estou fazendo aquilo que faço? Faço para testemunhar Cristo ou para receber reconhecimento? Rezo porque quero estar mais próximo de Deus ou porque quero que os outros percebam que sou uma pessoa de oração? Faço o bem porque amo ou porque espero ser admirado?‘ Talvez essas perguntas nos incomodem um pouco. E isso não é necessariamente ruim. Às vezes, precisamos permitir que Deus nos mostre até mesmo aquilo que não queremos enxergar em nós.

Quando olhamos para a vida dos santos, percebemos algo interessante. Nós conhecemos aquilo que apareceu, mas quase nunca conhecemos tudo aquilo que aconteceu escondido de nossos olhos. Pensemos em São João Paulo II. Muitos conheceram o Papa das grandes multidões, das viagens pelo mundo, dos encontros com os jovens e das palavras que marcaram gerações. Mas por trás daquela figura pública, havia um homem que conheceu muito cedo a perda da mãe, do irmão e do pai.

Imagem: FotoDax / Shutterstock.com

Ele viveu os horrores da guerra, trabalhou como operário e estudou clandestinamente para o sacerdócio. Mais tarde, já como Papa, sofreu um atentado que quase lhe tirou a vida. Nos últimos anos, enfrentou o avanço do Parkinson e a progressiva limitação do próprio corpo. Talvez uma das imagens mais fortes de sua vida tenha sido justamente aquela em que já não conseguia fazer o que havia feito durante tantos anos. O Papa que reunia multidões já tinha dificuldade para caminhar e falar. E, ainda assim, permaneceu fiel. A santidade não estava apenas naquilo que ele conseguia fazer diante das multidões. Estava também na fidelidade quando suas forças diminuíram.

O mesmo podemos perceber em tantos outros santos. Admiramos São Francisco de Assis, mas nem sempre lembramos das renúncias que marcaram sua conversão. Admiramos Santa Teresinha do Menino Jesus, mas podemos esquecer as pequenas lutas e sacrifícios escondidos de sua vida. Admiramos Santa Teresa de Calcutá pelo amor aos pobres, mas sua caminhada também passou por longos períodos de aridez espiritual. Nós vemos o santo que chegou ao fim do caminho. Deus viu também todos os passos dados no silêncio. E talvez essa seja uma boa reflexão para nós.

Vivemos em uma época que nos incentiva a mostrar resultados. Queremos mostrar que estamos bem, que somos felizes, que temos sucesso e, algumas vezes, até que somos pessoas de muita fé. Mas Deus não olha apenas aquilo que aparece. Ele conhece a oração que ninguém viu. Conhece o perdão que ninguém ficou sabendo. Conhece aquela renúncia que ninguém aplaudiu, a luta interior que você enfrentou sozinho e o bem que você fez sem contar para ninguém. Talvez seja justamente aí que nossa fé esteja crescendo.

A fé verdadeira não precisa ser escondida, mas também não precisa de uma plateia para existir. Ela pode ser anunciada, compartilhada e testemunhada, mas precisa primeiro ser vivida. Por isso, talvez a pergunta deste artigo possa se transformar em uma pergunta para a nossa oração: “Senhor, estou preocupado em parecer uma pessoa de fé ou em permitir que a minha fé transforme a minha vida?” Porque a fé performática pode até impressionar quem olha de fora. Mas é a fé performativa, aquela que produz frutos, que pouco a pouco transforma quem nós somos.

No fim, talvez seja isso que Deus espera de nós: não uma fé que pareça grande aos olhos das pessoas, mas uma fé verdadeira diante dos olhos d’Ele.

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