O tempo na era da Inteligência Artificial

O tempo na era da Inteligência Artificial

“E Jesus crescia em sabedoria, em estatura e graça, diante de Deus e dos homens” (Lucas 2,52).

O excesso de telas prejudica a nossa percepção da vida. A Inteligência Artificial surgiu com uma proposta: a de “poupar” o nosso tempo. Muitos indivíduos entregam as suas tarefas para uma tecnologia, mas, enquanto a IA realiza os compromissos, eles perdem tempo em vez de economizá-lo.

A ideia de que uma Inteligência Artificial “economiza” o seu tempo é falsa. Quando uma pessoa desiste do processo do seu trabalho, ela perde todo o aprendizado, atrofia o intelecto, deteriora a qualidade de vida e, consequentemente, perde o valor da passagem dos minutos, das horas e dos dias. Desperdiçar qualidade de vida é uma forma de abrir mão tempo. Usá-lo de modo assertivo não tem nada a ver com rapidez e ser esperto e não significa utilizar subterfúgios para escapar de uma tarefa.

Uma das maiores realizações de um ser humano é a percepção do seu crescimento em diversas áreas da vida: física, mental, emocional, intelectual e espiritual. Na vida humana, a constatação da evolução eleva a autoestima, fortalece a espiritualidade, aumenta a resiliência e preenche o coração com um sentimento que nenhuma máquina é capaz de replicar: a felicidade. Assim como Jesus cresceu em sabedoria e graça, Deus quer que os Seus filhos amadureçam.

O grande perigo da Inteligência Artificial está na perda do desenvolvimento de uma atividade, pois não há crescimento sem entrega ao processo. Uma Inteligência Artificial pode oferecer um resultado em segundos, mas ela não concede a compreensão genuína de um propósito. Para que o entendimento e a sabedoria permaneçam na mente humana, é necessário que a pessoa se envolva no processo de cada atividade. Isso pode levar horas, dias, semanas, meses, anos e até uma vida inteira caso a sua missão seja complexa.

O tempo investido no estudo, no trabalho e no processo verdadeiro de uma atividade nunca é perdido: é o mais valioso que existe, pois será transformado em sabedoria, em entendimento, em aprimoramento intelectual e em crescimento espiritual. E, durante esse período, Deus realiza grandes bênçãos na vida humana.

Contudo, o instante que alguém entregou para a Inteligência Artificial não será transformado em um bom destino. Sabe-se que, quando o indivíduo deixa essa tecnologia realizar uma tarefa no seu lugar, ele não investe em algo bom o momento que seria dedicado ao processo da atividade. Ao invés de fazer caridade, rezar o Terço, cuidar da família ou cumprir outra atividade mais urgente do que a ação ignorada, o indivíduo gasta o seu tempo com uma Inteligência Artificial diferente e com outras telas.

E esse círculo vicioso entre um dispositivo e outro gera resultados negativos, como: ansiedade, perda do sentido, vazio e infelicidade. A ansiedade e a impaciência não são superadas quando “economizamos” o tempo, mas quando nós nos rendemos a ele.

Como mudar

A pessoa que sabe se entregar ao processo do seu ofício sem pensar no tempo e sem ficar ansiosa com o resultado descobriu o segredo do crescimento espiritual. E, geralmente, é esse indivíduo que mais se destaca no que faz e que mais colhe resultados produtivos.

A experiência humana é feita de processos. Desistir deles em relação a uma atividade é renunciar da melhor parte da vida. Estamos vivos para aprender: a amar, a trabalhar e a aperfeiçoar os dons que Deus colocou em nossa alma. Sendo assim, não podemos deixar que a Inteligência Artificial roube o bem mais precioso da vida: o procedimento de aprendizagem.

O objetivo dessas reflexões não é “demonizar” a IA, mas afastar a idolatria que a sociedade contemporânea pretende colocar nela. Pode ser uma excelente ferramenta se for usada da forma correta e incluída no processo de aprendizagem.

Em vez de ordenar um resultado para a Inteligência Artificial sem se envolver no processo, uma pessoa pode pesquisar um assunto com o auxílio dela sem perder a sua consciência na conquista do aprendizado. A IA pode ajudar um estudante a complementar o seu conhecimento sobre um tema complexo quando as fontes de uma matéria são raras. Esse instrumento pode estimular o aprendizado, facilitar a busca de fontes raras, apresentar novas perspectivas sobre as ideias de um autor e até incentivar a leitura de um livro pouco conhecido.

Entretanto, a IA não pode aplicar o conhecimento no cotidiano nem solucionar casos complexos. A supervisão humana sobre essa ferramenta continua imprescindível, especialmente em questões morais, éticas e legais. Além disso, a tecnologia não pode substituir uma experiência valiosa para os seres humanos: a sensação de progredir em uma atividade artística, intelectual, científica ou esportiva.

O processo de aprendizagem é bastante sensível e humano, visto que é formado por tentativas, acertos, erros, superações, recaídas, vitórias, força de vontade, evolução gradativa, resiliência e lições de sabedoria. Podemos programar um resultado “perfeito”, mas ele nunca será verdadeiro se não surgir do processo de aprendizagem de um ser humano. Na era da Inteligência Artificial, não podemos ter medo dos afazeres que exigem um bom tempo nem de demorar em uma tarefa, pois a profundidade da atenção e a entrega apaixonada ao trabalho são os elementos que nos salvam da ansiedade da vida moderna.

Com disciplina, constância e planejamento, podemos cumprir uma tarefa de modo verdadeiro e pelo tempo que ela precisar da nossa dedicação sem atrasar o resultado. A Inteligência Artificial não precisa ser um “atalho” para tudo, porque a sua verdadeira função é complementar o conhecimento e não impedir o nosso processo de aprendizado.

Na era da Inteligência Artificial, a vida não precisa de mais velocidade, mas de mais presença. Nessa nova era, o tempo não pode ser visto como um inimigo a ser superado com atalhos, mas como o melhor amigo do nosso crescimento espiritual.

Dica de filme

No filme “Pixel, a garota perfeita” (2004), disponível no Disney+, o conflito entre a Inteligência Artificial e o processo de aprendizagem humano faz parte do enredo. Samantha é uma adolescente talentosa que canta, toca instrumentos e compõe as letras das músicas da sua banda. Todavia, ela não consegue oportunidade de sucesso nas gravadoras por não ser performática e por não saber dançar.

As gravadoras não estavam interessadas no talento genuíno dos vocalistas e dos músicos, mas na imagem das bandas. Ao saber disso, o melhor amigo da Samantha, Roscoe, um gênio da computação holográfica, cria uma garota perfeita no computador do seu pai, um empresário da tecnologia.

Loretta Modern foi criada a partir das características de mulheres consideradas bonitas pelo Roscoe e das vozes das cantoras favoritas dele. Ela sabe cantar e dançar ao mesmo tempo com perfeição, mas é um holograma. Roscoe criou uma cantora holográfica para ser a vocalista da banda da sua melhor amiga, porém fica dividido entre o amor por uma moça real e a admiração por uma jovem perfeita.

A história traz ao espectador reflexões sobre o sentido da existência, a importância de sentir a vida, o valor do aprendizado e o mérito de desenvolver um dom com autenticidade.

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Tatyana Casarino

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