Algumas dores são tão profundas que até parecem “contrariar a lógica da natureza”. Entre elas, está a perda de um filho. Em diferentes idiomas, existem facilmente palavras para esposos e filhos que se despedem dos cônjuges e pais, como viúvo ou órfão, mas há poucos termos conhecidos para definir pais que enterram seus filhos. Para muitas mães, essa ausência revela o quanto parece impossível lidar com esse luto.
No mês dedicado às mães, as comunidades também devem voltar o olhar para mulheres cuja maternidade foi atravessada pelo luto. Mães que continuam sendo mães mesmo depois da despedida física de seus filhos, que descobriram que o amor não termina com a morte e precisam ser acolhidas.
Ao pensar nesse acolhimento, o maior exemplo oferecido é Nossa Senhora. Maria acompanhou Jesus desde o anúncio do anjo até os últimos instantes aos pés da Cruz. Sabia que o Filho tinha uma missão divina, mas isso nunca anulou o amor humano, concreto e profundamente maternal que sentia por Ele. Ela cuidou, protegeu, ensinou, acompanhou Seus passos e sofreu ao vê-Lo perseguido, condenado e crucificado. A devoção a Nossa Senhora das Dores fortalece muitas mães que compartilham esse sofrimento.

Por isso, tantas mães enlutadas encontram em Maria alguém que compreende intimamente a experiência de perder um filho, a Mãe que permaneceu de pé diante do sofrimento sem deixar de amar.
Dom João Bosco Óliver de Faria, Arcebispo Emérito de Diamantina (MG), refletiu sobre a dimensão dessa perda e sobre como ela rompe as expectativas naturais da vida humana.
“Nenhuma dor humana supera a dor indescritível da perda de um filho. As leis da lógica da vida são quebradas: aquele que deveria ser amparo e sobreviver aos próprios pais se antecipa a eles, ao experimentar o mistério da morte.”
O Arcebispo descreve que, com a partida do filho, instala-se uma ausência permanente na vida dos pais, morre um pedaço do coração de seus pais e se abre um vazio imensurável na morada do amor, que nada pode preencher. Em seguida, traz uma comparação feita por seu próprio pai:
“A morte de um filho é como tirar uma gaveta de um armário. Não se consegue mais chegar perto do armário sem perceber que lhe falta uma gaveta. O tempo passa, mas a gaveta não está mais lá.”
Reconhecer a profundidade dessa dor é essencial. A Igreja não trata o sofrimento como algo pequeno e tampouco espera que mães enlutadas “superem rapidamente” a perda. O Evangelho mostra Jesus chorou e Deus acolhe as lágrimas humanas.
Ao refletir sobre mães que perderam seus filhos, Papa Francisco falou sobre a delicadeza necessária diante do luto. Durante uma audiência pública em 2017, comentando o choro de Raquel narrado pelo profeta Jeremias, ele explicou que existem dores diante das quais palavras rápidas podem até ferir ainda mais.
“Nas profundezas do desespero, quando palavras e gestos já não ajudam, chorem com os que sofrem, porque as lágrimas são sementes de esperança.”
Francisco afirmou que o verdadeiro acolhimento, muitas vezes, é a capacidade de permanecer junto.
“A fim de enxugar as lágrimas do rosto de quem sofre, devemos nos unir ao seu choro. Esta é a única maneira de as nossas palavras poderem realmente oferecer um pouco de esperança. E se não for possível oferecer palavras, é melhor o silêncio, o carinho, um gesto.”
Papa Francisco também destacou que a intensidade da dor está ligada ao amor vivido. Por isso, não existe “prazo” para o luto de uma mãe. A saudade permanece porque o vínculo permanece. Mais recentemente, outra cena emocionou o mundo. Durante encontro com mães ucranianas que perderam seus filhos na guerra, Papa Leão XIV as acolheu e falou que compartilhava a dor daquelas mulheres.

Mães da Esperança – Londrina
Em muitas cidades, mães que perderam seus filhos têm encontrado apoio em grupos de acolhimento e fé, com escuta e ao acompanhamento emocional. Em Londrina, no Paraná, o grupo Mães da Esperança reúne mulheres que vivem o luto parental e buscam ressignificar a vida sem apagar a memória de seus filhos.
Nos encontros promovidos pela comunidade, elas falam sobre dor, saudade, fé e esperança. O grupo também recebe apoio de profissionais da saúde mental, que ajudam as mães a compreender sentimentos comuns do luto e reorganizar a vida possível depois da perda. Dessa forma, organizam e lidam melhor com os sentimentos.
Uma das participantes é Rosana Alves Giachetto, que compartilha nas redes sociais lembranças do filho Matheus, por meio do perfil @umdiadecdvez. Em uma publicação acompanhada da imagem que representava Jesus levantando-a, escreveu:
“Ele me levantou, Ele me levanta e Ele me levantará sempre.”
Uma mãe que viveu essa dor e a edificou é Antonia Salzano Acutis, mãe de Carlo Acutis, jovem italiano que morreu em 2006, aos 15 anos, vítima de leucemia. Anos depois, Carlo se tornaria conhecido mundialmente por sua espiritualidade e testemunho de amor à Eucaristia. Antonia falou diversas vezes sobre a dor de acompanhar a doença e a morte do filho ainda tão jovem.
A esperança cristã na vida eterna não apagou sua saudade, mas transformou sua maneira de olhar para a morte. Em entrevistas, ela costuma recordar que o Céu deixou de ser uma ideia distante para se tornar uma realidade concreta. Para muitas mães, histórias como a dela ajudam a perceber que a fé oferece esperança de reencontro. São Dom João Bosco expressou que a morte não destrói o amor construído entre pais e filhos.
“Ela retira o ser amado dos braços de seus queridos, mas não tem o poder de tirá-lo dos corações que o amaram. A pessoa se ausenta fisicamente, mas o amor permanece.”
Continuar não significa abandonar memórias, silenciar nomes ou fingir que nada aconteceu. O amor permanece presente na saudade, nas lembranças, na oração e na esperança cristã da ressurreição.
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