Eclipses, guerras, terramotos, epidemias… cada vez que um fenômeno de grande escala ocorre, as redes sociais se enchem de vídeos com versículos bíblicos e a pergunta se isso seria um sinal do fim dos tempos. A Igreja Católica tem uma posição clara, profunda e verificada sobre o assunto, que é muito mais sólida do que qualquer teoria viral.
Escatologia vem do grego éscatos, que significa “último”. É o ramo da teologia dedicado ao estudo das últimas coisas: a morte, o juízo, a ressurreição dos mortos e o fim dos tempos. Papa Paulo VI, em 1971, definiu: “Este é o interesse da escatologia: o fim do homem e do tempo que atinge o fim, preestabelecido por Deus, da humanidade e da história”.
Como afirma a Congregação para a Doutrina da Fé, na Carta sobre Questões Respeitantes à Escatologia (1979), aprovada pelo Papa João Paulo II:
“Se não há ressurreição, desaba toda a estrutura da fé, como afirma vigorosamente São Paulo (cf. 1Cor 15). Se os cristãos não estiverem em condições de ligar as palavras ‘Vida eterna’ a um conteúdo certo, então as promessas do Evangelho e o sentido da Criação e da Redenção esvaiem-se”.
O IDe+ já publicou uma série sobre o tema escatologia e a base teológica é: sem a ressurreição, a fé cristã perde seu fundamento. Como disse São Paulo, “Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação, e vã é também a vossa fé” (1Cor 15,14).

No Evangelho de Mateus, capítulo 24, Jesus fala sobre guerras, fomes, terremotos e perseguições. Mas Ele mesmo acrescenta: “Isso é apenas o começo das dores” (Mt 24,8). E, mais adiante, estabelece o limite do conhecimento humano sobre o assunto com uma clareza que deveria encerrar qualquer especulação:
“Quanto ao dia e à hora, ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, mas apenas o Pai” (Mt 24,36).
A Atos dos Apóstolos registra que, antes da Ascensão, os discípulos perguntaram a Jesus se era o momento do estabelecimento do Reino. Ele respondeu:
“Não vos pertence saber os tempos ou os momentos que o Pai reservou pela sua própria autoridade” (At 1,7).
O Catecismo da Igreja Católica cita essa passagem no parágrafo 673:
“A partir da ascensão, a vinda de Cristo na glória está iminente, mesmo que não nos ‘pertença saber os tempos ou os momentos'”.
Papa Paulo VI, na mesma audiência de 1971, falou:
“Temos a certeza de que haverá catástrofes escatológicas, mas não sabemos quando nem como se verificarão (cf. Mt 24,36-44)”.
Ou seja, a Igreja não nega que o fim dos tempos virá. Recusa, porém, qualquer pretensão humana de calculá-lo ou de identificá-lo com eventos concretos do presente.
O Catecismo da Igreja Católica apresenta, nos parágrafos 672 a 677, uma síntese do ensino da Igreja sobre os últimos tempos. Três pontos merecem destaque especial.
O tempo presente já é o tempo dos últimos dias. O parágrafo 672 ensina que o tempo atual é “o tempo do Espírito e do testemunho, mas é também um tempo ainda marcado pela ‘desolação’ e pela provação do mal, que não poupa a Igreja e inaugura os combates dos últimos dias. É um tempo de espera e de vigília”. Somos, portanto, desde a Ressurreição de Cristo, pessoas dos últimos tempos, não apenas quando as notícias são alarmantes.
Haverá uma prova final antes da parúsia, como está no parágrafo 675:
“Antes da vinda de Cristo, a Igreja deverá passar por uma prova final, que abalará a fé de numerosos crentes. A perseguição, que acompanha a sua peregrinação na Terra, porá a descoberto o ‘mistério da iniquidade’, sob a forma duma impostura religiosa”.
A Igreja não esconde a gravidade do que está por vir, mas não especifica datas nem associa esse momento a eventos concretos do noticiário. A especulação messiânica sobre o futuro é rejeitada. O parágrafo 676 alerta que “a impostura anticrística já se esboça no mundo, sempre que se pretende realizar na história a esperança messiânica, que não pode consumar-se senão para além dela, através do juízo escatológico. A Igreja rejeitou esta falsificação do Reino futuro”.
A Congregação para a Doutrina da Fé é explícita na Carta de 1979: “Nem a Sagrada Escritura nem a Teologia nos proporcionam luzes bastantes para uma representação da vida futura para além da morte”. E acrescenta um alerta pastoral: “Há que precaver-se particularmente contra o perigo de representações fundadas apenas na imaginação e arbitrárias, porque o excesso das mesmas entra em grande parte nas dificuldades que muitas vezes a fé cristã encontra”.
Especular sobre a data do fim dos tempos, identificar eventos históricos com profecias bíblicas de forma categórica ou afirmar que determinado fenômeno natural é “sinal” direto da parusia não é ensinamento da Igreja e pode, de fato, prejudicar a fé.
A escatologia chama à vigilância e à conversão contínua. Como a Carta da Congregação para a Doutrina da Fé de 1979 traz, “os cristãos devem manter-se firmes quanto a dois pontos essenciais: devem acreditar, por um lado, na continuidade fundamental que existe, por virtude do Espírito Santo, entre a vida presente em Cristo e a vida futura — a caridade é a lei do Reino de Deus, e é pela nossa caridade aqui na terra que há-de ser medida a nossa participação na glória do Céu; por outro lado, os mesmos cristãos devem saber bem que existe uma ruptura radical entre o presente e o futuro, pelo facto de que à economia da fé sucede a economia da plena luz”.
Viver bem, amar o próximo, participar dos sacramentos, crescer na santidade são os “sinais” que a Igreja pede que o cristão produza, pois a parúsia virá e a Igreja vive nessa esperança há dois milênios, ainda que a única preparação recomendada seja a mesma que Jesus propôs na parábola das virgens prudentes: estar com o coração aceso quando Ele chegar e não ficar prevendo quando isso acontecerá.
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