Três Salmos para quem precisa controlar a mente e encontrar paz interior

Três Salmos para quem precisa controlar a mente e encontrar paz interior

A meditação virou assunto de livros, podcasts e redes sociais, mas muito antes de qualquer aplicativo de “mindfulness”, a Igreja já praticava e ensinava uma forma de meditação com raízes nas Sagradas Escrituras, especificamente no Livro dos Salmos, coleção de 150 orações 

O que distingue a meditação católica das práticas orientais popularizadas é a direção. Como explica o bacharel em Filosofia e Comunicação e especialista em Ética Tiago Correia da Silva, colunista do IDe+:

“Nas meditações orientais, geralmente a técnica orienta que a pessoa praticante esvazie a cabeça, busque não pensar em nada. Já a meditação cristã segue outro caminho: ela parte do princípio de buscar um lugar de silêncio, de concentração, para que seu pensamento busque uma conexão com Deus.”

Maria é citada nas Escrituras como modelo dessa prática. No Evangelho de São Lucas, quando Ela recebe a notícia do Anjo, o evangelista registra: “Quanto a Maria, guardava todos esses fatos e meditava sobre eles em seu coração” (Lucas 2,19). Meditar, no sentido cristão, é guardar no coração o que Deus faz e deixar que isso transforme o pensamento por dentro.

Para quem quer começar, os Salmos são um ponto de partida natural. O Catecismo da Igreja Católica incentiva a oração dos Salmos como forma privilegiada de meditação bíblica. Os três, a seguir, podem ajudar nos momentos em que a mente precisa de mais ajuda para encontrar equilíbrio.

Salmo 23: sabe quando a mente vai para os piores cenários?

“O Senhor é o meu pastor; nada me faltará. Ele me faz repousar em verdes pastagens, guia-me junto a águas tranquilas, restaura as minhas forças. Ainda que eu atravesse o vale escuro, nada temerei, pois estais comigo. Vosso bordão e vosso báculo são o meu amparo” (Salmo 23,1-4).

O Salmo 23 é sobre alguém que atravessa o vale escuro com o Pastor ao lado. Para a mente que antecipa o pior, que projeta catástrofes e não consegue parar, esse Salmo oferece um redirecionamento para, no lugar de fixar o olhar no vale, fixar no Pastor. A tradição católica o recomenda especialmente para momentos de ansiedade e medo do futuro.

Sugestão: leia o Salmo devagar, uma vez. Na segunda leitura, pare em cada imagem: as pastagens, as águas tranquilas, o vale escuro, o báculo. Deixe cada uma delas ocupar o pensamento por alguns instantes e pergunte a Deus o que Ele quer dizer para você por meio daquela imagem específica.

Salmo 46: para quando o mundo ao redor parece instável

“Deus é o nosso refúgio e fortaleza, auxílio sempre presente nas tribulações. Por isso não temeremos, mesmo que a terra se transforme e os montes se abismem no coração dos mares” (Salmo 46,2-3).

Escrito possivelmente em contexto de guerra ou ameaça coletiva, o Salmo 46 fala para quem sente que o chão está se movendo, literal ou metaforicamente. A instabilidade é real no Salmo: a terra se transforma, os montes caem no mar, mas o salmista se ancora em uma certeza anterior a ela. Para a mente que perde o equilíbrio diante de noticias difíceis, de situações fora de controle, de crises familiares ou financeiras, esse Salmo é um fundamento que não se move junto às circunstâncias.

Sugestão: repita o versículo 2 em voz baixa ou mentalmente, como uma oração breve. “Deus é o meu refúgio e fortaleza”, deixe as palavras descansar, respire e repita com fé e confiança, como uma forma de âncora para a mente agitada.

Salmo 131: indicado quando a mente não consegue parar de controlar

“Senhor, meu coração não se enche de orgulho, meus olhos não se erguem com altivez. Não me ocupa com grandes projetos e com coisas por demais elevadas. Ao contrário, mantive minha alma tranquila e silenciosa, como criança desmamada nos braços de sua mãe; como criança desmamada, assim está minha alma” (Salmo 131,1-2).

O Salmo 131 é curto, com apenas três versículos, e um dos mais precisos sobre o que a meditação cristã busca. A criança nos braços da mãe não está tentando entender tudo, não está resolvendo problemas, não está controlando o que acontece. Está simplesmente presente. Para a mente que precisa de controle para se sentir segura, que não consegue descansar porque há sempre algo para resolver, esse Salmo é um convite à quietude ativa: no lugar de esvaziar a mente, depositá-la nos braços de Deus como uma criança que confia.

Sugestão: leia o Salmo inteiro e, depois, feche os olhos e fique alguns minutos com a imagem da criança nos braços da mãe. Deixe que essa imagem diga algo sobre sua relação com Deus neste momento sem forçar uma conclusão.

Como meditar com os Salmos

Tiago Correia da Silva orienta que quem deseja iniciar a meditação católica busque “um lugar tranquilo, silencioso, se colocar em uma posição confortável e iniciar seu primeiro tempo de leitura bíblica”. Em seguida, “faça sua oração procurando se conectar com Deus, unindo seu coração e mente a Ele. Não tente esvaziar a mente, mas preencher seu pensamento com sua oração”.

Essa prática é a Lectio Divina, ou Leitura Orante da Bíblia, método de oração que integra leitura, meditação, oração e contemplação. 

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