Vício em jogos online: o que a Igreja diz?

Vício em jogos online: o que a Igreja diz?

A promessa é sedutora: ganhar dinheiro rápido, sem esforço, apenas com alguns cliques. É justamente essa lógica, do chamado “ganho fácil”, que a Igreja Católica alerta há décadas como um risco para a vida moral, familiar e espiritual. As apostas online se popularizam cada vez mais e é preciso lembrar que o que parece oportunidade pode, na verdade, esconder um caminho de dependência, endividamento e perda de liberdade. Neste cenário, o Governo Federal publicou, na sexta-feira (25/9), uma Medida Provisória que proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das bets no Brasil.

Os números ajudam a dimensionar o problema. Dados compartilhados pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) apontam que cerca de 2 milhões de pessoas no país já sofrem com o vício em jogos de azar, segundo estimativa do Departamento de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP). Em 2023, o Banco Central registrou R$54 bilhões gastos em apostas online e 86% das pessoas que apostam possuem dívidas, de acordo com pesquisa do Instituto Locomotiva.

Por trás desses números, existem histórias concretas de vida e famílias afetadas. A Igreja reconhece que o problema não está apenas no ato de jogar, mas no momento em que a prática se torna desordenada. A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica o jogo compulsivo como uma patologia, caracterizada pela perda de controle e pela continuidade do comportamento mesmo diante de prejuízos evidentes.

Segundo o Catecismo da Igreja Católica, os jogos não são maus em si, mas se tornam moralmente inaceitáveis quando levam à dependência ou quando privam a pessoa do necessário para si e para sua família e o jogo deixa de ser um entretenimento e passa a ocupar um lugar que não lhe pertence, que é de centro da vida.

Edson Ribeiro, agente multiplicador da Pastoral da Sobriedade, descreve esse impacto. “Pessoas que criam a dependência nos jogos acabam por prejudicar não somente a sua vida, como também a vida de seus familiares. Deixam de levar o sustento pra casa, gastando todo o seu dinheiro com os jogos; ficam se endividando, trazendo risco para sua vida e para a vida dos seus”, alerta.

Quando isso acontece, o que está em jogo já não é apenas dinheiro. São vínculos, responsabilidades e até o sentido da própria vida. Muito antes da popularização das apostas online, a Igreja já alertava para os riscos dos jogos de azar. A CNBB mantém, há mais de 40 anos, um posicionamento baseado em razões éticas e evangélicas, destacando os prejuízos morais, sociais e familiares provocados por essa prática.

Em 1981, Dom Ivo Lorscheider já chamava atenção para a “grave inconveniência de medidas que venham a liberalizar o jogo” no Brasil.  Na década de 1990, Dom Luciano Mendes de Almeida aprofundou ainda mais essa reflexão ao destacar a lógica perigosa por trás do jogo.

“Os jogos de azar apresentam a ilusão de um ganho fácil, desfazendo o apreço ao trabalho honesto e sério. Resulta daí uma confusão na ordem de valores, lesando o horizonte de ideais da juventude e acarretando a ambição e a vontade de acumular riquezas em benefício próprio e exclusivo. Cresce, aos poucos, a atração descontrolada pelo lucro exorbitante, a vida fácil e até a corrupção”, disse.

As consequências que atingem famílias inteiras

Ao longo dos anos, a CNBB também detalhou os impactos dessa realidade. Em nota pastoral, os bispos apontaram efeitos que vão desde a dependência e o desespero de jogadores arruinados até distúrbios psíquicos, tentativas de suicídio e a ruptura da harmonia familiar.

Entre os pontos destacados, aparecem consequências como:

  • O ambiente associado a práticas nocivas, como álcool, drogas e exploração.
  • A substituição do trabalho honesto pela busca do ganho fácil.
  • A dependência, descrita como verdadeira escravidão.
  • O ciclo de perdas e tentativas de recuperação por meio de novas apostas.
  • O enfraquecimento da vida familiar, com medo, insegurança e ausência dos pais.

Mais recentemente, a CNBB voltou a alertar que os jogos de azar podem estar associados à lavagem de dinheiro e ao crime organizado, além de reforçar que essa prática traz “irreparáveis prejuízos morais, sociais e, particularmente, familiares”.

O que mudou no Brasil?

O cenário das apostas online também mudou recentemente. Em 25 de setembro de 2026, o Governo Federal publicou uma Medida Provisória que proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das bets no Brasil. A medida prevê um período de transição: os apostadores podem retirar seus valores até 5 de outubro e, a partir de 6 de outubro, as plataformas deverão sair do ar. A MP ainda será analisada pelo Congresso Nacional.

Antes da proibição, o país havia adotado uma série de medidas para tentar reduzir os danos provocados pelas apostas. Entre elas estão a autoexclusão das plataformas, que permite ao usuário bloquear seu acesso às casas de apostas autorizadas, e restrições para pessoas em determinadas situações de vulnerabilidade financeira. Até agosto de 2026, mais de 1,2 milhão de pedidos de autoexclusão haviam sido registrados.

O problema também passou a ser tratado como uma questão de saúde pública. O Ministério da Saúde criou ações específicas para pessoas que enfrentam problemas relacionados às apostas e seus familiares, incluindo atendimento em saúde mental pelo SUS. As medidas reforçam uma realidade que a Igreja já aponta há décadas: quando a busca pelo ganho fácil deixa de ser entretenimento e passa a comprometer a liberdade, o dinheiro, a família e a própria vida, é necessário reconhecer o problema e buscar ajuda.

Acolhimento

Diante de uma realidade tão complexa, a resposta da Igreja também oferece caminhos de acolhimento e reconstrução. A Pastoral da Sobriedade, ligada à CNBB, atua diretamente com pessoas que enfrentam dependências, incluindo o vício em jogos. A proposta passa por um processo de transformação integral, conhecido como Programa de Vida Nova. Para a Igreja, ninguém é reduzido ao seu erro ou à sua queda. Mesmo quando o vício já causou danos, sempre existe um caminho de retorno, de cura e de reconstrução.

Diante do crescimento das apostas online, uma pergunta importante, orientada pela Pastoral, é se aquilo contribui com  verdadeira liberdade. Quando o desejo de ganhar substitui o valor do trabalho, o risco se torna dependência e o jogo começa a consumir aquilo que sustenta a vida, é sinal de que algo perdeu o seu lugar. Mais do que uma questão econômica, o vício em jogos revela uma desordem interior que precisa ser reconhecida e curada.

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Comentários

  • vera leila cunha de oliveira
    Muito bom vou compartilhar porq tenho amigas viciadas nós jogos
  • Gabriel
    Muito lucrativos, e verdadeiro.

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