O frade da genética, o padre do Big Bang e outros: quando a ciência foi feita dentro da Igreja

O frade da genética, o padre do Big Bang e outros: quando a ciência foi feita dentro da Igreja Einstein e o Padre Lemaître

Quando se pensa em ciência e religião, a primeira imagem que vem à mente costuma ser a do conflito ou de coisas que são opostas, porém essa narrativa e ideia de antagonismo apagam uma lista longa de padres, religiosos, religiosas e bispos que estiveram na origem de algumas das descobertas mais importantes da história humana. Não apesar da fé, mas muitas vezes por causa dela: a contemplação da criação como forma de conhecer o Criador foi, por séculos, o motor de uma ciência feita dentro de mosteiros, abadias e universidades católicas. 

O Dia Mundial do Inventor, celebrado em 9 de novembro, é uma boa ocasião para lembrar que algumas das descobertas mais importantes da história humana têm endereço religioso. Veja cinco nomes que comprovam isso.

Gregor Mendel: o frade que inventou a genética

Johann Mendel nasceu em 1822 em Heinzendorf, na então Silésia austríaca (hoje República Tcheca), filho de lavradores. Entrou para o mosteiro agostiniano de Santo Tomás, em Brno, onde recebeu o nome de Gregor. Foi na estufa desse mosteiro que, ao longo de sete anos e com cerca de 30 mil plantas de ervilha, ele descreveu as leis que explicam como os traços hereditários se transmitem entre gerações. Apresentou seu trabalho em 1865 e o publicou em 1866.

A ciência do século XIX não estava pronta para ouvir: seus resultados foram ignorados por décadas. Mendel morreu em 1884 sem reconhecimento. No início do século XX, três cientistas chegaram independentemente a conclusões semelhantes e, ao revisar a literatura, encontraram o estudo do frade de Brno. O nome “genética” foi dado a essa ciência em 1905, mais de vinte anos após a morte de seu fundador.

Georges Lemaître: o Padre que propôs o Big Bang

Georges Lemaître nasceu em 1894 em Charleroi, na Bélgica, estudou em Lovaina e foi ordenado Padre em 1923. Paralelamente à vida sacerdotal, formou-se em astronomia e física. Em 1927, publicou um artigo propondo que o universo estava em expansão, o que implicava que, voltando no tempo, tudo teria partido de um estado inicial extremamente denso.

Em 1931, desenvolveu essa ideia na chamada “hipótese do átomo primordial” – o que a física posterior consagraria como teoria do Big Bang. Lemaître morreu em 1966, em Lovaina, poucos dias depois de saber da descoberta da radiação cósmica de fundo por Penzias e Wilson, a confirmação experimental mais importante da teoria que ele havia proposto quatro décadas antes.

Beato Nicolau Steno: o Bispo que fundou a geologia

Niels Stensen nasceu em 1638 em Copenhague, numa família luterana. Antes de se converter ao catolicismo, já era um dos anatomistas mais respeitados da Europa. Ele identificou as glândulas salivares parótidas (o ducto de Stensen leva seu nome até hoje), demonstrou que o coração é um músculo e descreveu a mecânica da contração muscular.

Convertido, aprofundou seus estudos em ciências da terra: percebeu que as “línguas de pedra” encontradas nas rochas eram dentes fossilizados de tubarões extintos, formulou os princípios básicos da estratigrafia (as leis que permitem datar camadas geológicas) e fundou, assim, a geologia e a paleontologia como ciências. Depois disso, abandonou a carreira científica, tornou-se Sacerdote e depois Bispo. Morreu em 1686 vivendo com extrema pobreza apostólica. São João Paulo II o beatificou em 1988.

Santo Alberto Magno: o Bispo que queria conhecer tudo

Alberto de Bollstädt nasceu por volta de 1193 em Lauingen, na Baviera, e entrou para a Ordem dos Pregadores, os dominicanos. Foi professor em Colônia e em Paris, onde teve entre seus alunos São Tomás de Aquino. Escreveu sobre filosofia, teologia, botânica, zoologia, astronomia, mineralogia, química e fisiologia com uma precisão incomum para o século XIII.

Identificou o arsênico como elemento e foi um dos primeiros a descrever sistematicamente plantas e animais a partir da observação direta, e não apenas de textos da Antiguidade. Seus contemporâneos o chamavam de “o Grande” ainda em vida, o que não era costume. Foi declarado Doutor da Igreja por Pio XI em 1931 e padroeiro dos cientistas por Papa Pio XII em 1941.

São Giuseppe Moscati: o médico que antecipou a medicina moderna

Giuseppe Moscati nasceu em 1880 em Benevento, na Itália, e escolheu a medicina por vocação. Tornou-se professor na Universidade de Nápoles e pesquisador em bioquímica. Suas publicações contribuíram para o uso clínico da insulina no tratamento do diabetes, antes mesmo que o tratamento fosse sistematizado internacionalmente. Foi um dos primeiros a aplicar técnicas de reanimação cardiopulmonar.

Em 1906, durante uma erupção do Vesúvio, organizou a evacuação de pacientes idosos do hospital de Torre del Greco sob risco à própria vida. Atendia gratuitamente os pobres e deixava dinheiro dentro dos envelopes com as receitas que entregava a quem não tinha condições de comprar medicamentos. Morreu em 1927, aos 46 anos, repentinamente, sentado em sua poltrona de trabalho. São João Paulo II o canonizou em 1987.

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