Ronny Kurashiki trabalhou por anos no setor de cuidados paliativos do Hospital Erasto Gaertner, em Curitiba (PR), e vivenciou muitas situações de como fé pode ser amparo e ferida no fim da vida. No Dia Mundial dos Cuidados Paliativos (segundo sábado de outubro), ele fala sobre dor espiritual, sentido e sobre a filha que perdeu antes de ela nascer e como essa dor o transformou.
Um paciente em cuidados paliativos pode ter esperança? Para Ronny Kurashiki, psicólogo especialista em cuidados paliativos, psicologia hospitalar e cancerologia, mestre em bioética com mais de 12 anos de experiência em saúde mental, a resposta é sim, desde que se saiba de que tipo de esperança estamos falando.
“Pode ter esperança de não ter dor. Pode ter esperança de estar junto das pessoas que ama. Pode ter esperança na própria finitude. Eu já vi casos em que a própria morte não se tornou uma inimiga, mas um alívio. Uma esperança de descanso.”
É nesse território, em que fé e os cuidados paliativos se encontram, que Kurashiki atua há mais de uma década. O tema central do Dia Mundial dos Cuidados Paliativos de 2026, o manejo da dor em suas dimensões física, psicológica, social e espiritual, um o campo que ele conhece e explica como acontece o sofrimento que não é só do corpo e que a espiritualidade que pode tanto sustentar quanto romper uma pessoa no momento mais vulnerável da vida.
O convite é para que todos possam pensar mais no tem finitude, olhar para si e também ajudar quem está ao redor.
Kurashiki chegou ao setor de cuidados paliativos do Hospital Erasto Gaertner, referência em oncologia no Paraná, ainda recém-formado. O hospital já era grande, a estrutura, complexa para abordar temas como câncer, quimioterapia, radioterapia, cirurgias. Depois, a equipe conseguiu inaugurar a estrutura exclusiva voltada para cuidados paliativos.

Foto: arquivo pessoal
“Existe o macro, o tratamento, mas você precisava olhar para o micro: aquela pessoa especificamente. Isso foi moldando a minha visão de mundo.”
O profissional lembra que colegas de outros setores, ao discutir um caso com ele, falavam do diagnóstico, da metástase, das condições do tratamento. Quando alguém vinha discutir um caso que já acompanhava havia tempo e perguntava qual era a doença daquele paciente, Kurashiki precisava voltar ao prontuário.
“Porque eu focava tanto naquela vida, naquela história, naquela pessoa ali na minha frente que a doença não era o principal.”
Esse deslocamento de olhar, do diagnóstico para a biografia, faz parte da característica dos profissionais chamados paliativistas.
“Há uma sacralidade no cuidado em saúde, nos cuidados paliativos. E essa sacralidade é da biografia, da narrativa. Nós precisamos olhar com muito respeito para essa história que está na nossa frente. Ela é única e é irrepetível.”
O tema de 2026 do Dia Mundial dos Cuidados Paliativos remete diretamente ao conceito desenvolvido pela médica britânica Cicely Saunders, fundadora do movimento moderno de cuidados paliativos: a dor total. Segundo esse modelo, o paciente tem dimensões física, psicológica, social e espiritual que coexistem e se influenciam mutuamente.
“Se eu não estou bem fisicamente, isso pode afetar o meu psicológico, que pode afetar o meu social, que pode piorar o meu espiritual. Se eu não estou bem psicologicamente, a minha dor física pode piorar”, explica Kurashiki.
A dimensão espiritual, nesse quadro, é frequentemente negligenciada pelas equipes de saúde. Mas ela aparece, mesmo quando ninguém cuida intencionalmente dela, integrada às outras.
“Ela aparece como uma dor espiritual, uma dor existencial. Aparece quando as perguntas que eu conseguia responder antes, de onde eu vim, por que estou aqui, para onde vou, deixam de ter resposta.”
Kurashiki é cuidadoso em distinguir espiritualidade de religião. A espiritualidade, para ele, é o campo mais amplo das perguntas que sustentam a existência, como “o que faz de mim o que sou, o que dá sentido à minha vida”. Ele explica, em sua visão, que a religião é uma das respostas possíveis para essas perguntas, uma crença organizada, um pertencimento a uma comunidade. A religiosidade, por sua vez, é como essa fé se manifesta no cotidiano.
Pode haver um problema ou complicador quando uma doença grave abala as respostas que a pessoa já tinha construídas.
“Tive uma paciente que me disse: ‘eu sempre fui fitness. Sempre treinei, sempre corri, sempre me cuidei. Como que agora eu tenho câncer?’ A resposta dela era a saúde, o cuidado do corpo. Aí vem um câncer, e aquela resposta já não é suficiente. E ela entra numa crise existencial: e agora, o que me sustenta?”

Foto: arquivo pessoal
Quando perguntado se a fé pode ser uma aliada concreta nos cuidados paliativos, Kurashiki responde que sim e não.
“Sendo muito honesto: ela pode. Ela pode ser uma resposta, uma sustentação que me ajude quando nada mais tem explicação. Quando a vida me confronta com uma doença grave e eu sou confrontado com a única certeza que existe na vida.”
A diferença entre saber que todos morrerão um dia e estar diante da própria finitude por causa de uma doença que avança é diferente. “Falar que todo mundo vai morrer um dia é muito diferente de estar próximo da concretude dessa finitude. Isso pode fazer com que a gente fique muito perdido.”
Nesse momento, a fé pode oferecer sustentação, mudar o curso de como uma pessoa vive seu fim de vida. Kurashiki já viu situações que define como inexplicáveis, de uma paz tão plena diante da morte que parecia não ter explicação médica ou humana.
Mas a fé também pode ser um dificultador, segundo o psicólogo, de acordo com o direcionamento dado.
“Atendi uma jovem que sonhava em ser mãe. Ela e o esposo eram muito apegados à sua fé. Vinham líderes religiosos visitá-la e diziam: ‘tive um sonho, tive uma revelação, vi você andando com seus filhos. Deus vai fazer isso por você. Você não pode parar de ter fé.'”
A doença avançou e a jovem faleceu. O marido perguntou a Kurashiki: “Quem estava errado? Deus, que deu a revelação, ou os líderes que entenderam errado?” E completou, com dor que “em alguns momentos, vi minha esposa se questionando se não se curou porque não teve fé suficiente.“
Esse deslocamento de culpa para o próprio paciente é, para Kurashiki, uma das formas mais dolorosas de violência espiritual. A fé, quando imposta e usada como pressão pode transformar o sofrimento em julgamento.
Existe diferença entre quem tem fé ativa e quem não tem, na hora de acolher a própria morte? O que importa, diz ele, é como essa fé chega e faz sentido para aquela pessoa. Se ela não vem como imposição, se não vem como captura agressiva da existência, mas como sustentação de quem a pessoa é, de sua esperança, de seus momentos de dificuldade, então ela pode, de fato, fazer diferença.
Há também um ponto que ele destaca: a medicina tem seus limites e esses limites devem ser respeitados em ambas as direções.
“Já acompanhei um caso em que a médica me chamou porque a paciente, ao ser informada da gravidade, não estava entendendo. Fui conversar com ela e ela disse: eu entendi, é grave. Quero que vocês me cuidem, aceito tudo que estão fazendo. Mas acredito em um milagre. Se Deus quiser, ele pode me curar.”
A médica queria repetir a informação e Kurashiki explicou:
“Ela entendeu e não está pedindo nada extraordinário. Nós precisamos entender o lugar de cada coisa e a medicina explica muita coisa, mas não é onipotente. Não temos o direito de querer dar explicações para o mundo imaterial. Posso dizer que essa doença provavelmente levará você à morte. Mas não posso afirmar que um milagre não pode acontecer. Seria irresponsável tomar decisões clínicas como se fosse acontecer. Mas também não posso dizer que não vai.”

A base teórica do trabalho de Kurashiki é a logoterapia, desenvolvida pelo psiquiatra austríaco Viktor Frankl, sobrevivente dos campos de concentração nazistas. A terapia do sentido da vida parte de uma premissa: mesmo diante das piores circunstâncias, o ser humano preserva uma liberdade última, a de escolher sua atitude.
“Você não escolhe onde nasceu. Não escolhe ter nascido em uma família rica ou pobre. Talvez não escolha ter desenvolvido uma questão de saúde mental. Talvez não escolha ter um câncer. Mas isso não precisa te definir, não precisa te condenar.”
Frankl identificou três caminhos para encontrar sentido: pela criação (fazer, produzir, construir algo), pelas experiências e relações (o amor, o afeto, o encontro), e pela atitude diante do inevitável. Este terceiro caminho é o mais radical.
“Mesmo que sejam tiradas as capacidades de criação, de experiência e de relacionamento, sempre vai existir uma liberdade última: a liberdade de atitude. Não é dizer que basta querer. É muito mais profundo: qual é a minha atitude diante daquilo que não escolhi, diante de um destino colocado pela vida?”
Na prática dos cuidados paliativos, isso significa uma aposta permanente na dignidade até o fim.
“A beleza do nosso trabalho não está na estética nem na aparência. Estar junto de alguém que tem uma doença grave ou que está morrendo não é bonito. Mas poucas coisas são tão bonitas quanto trabalhar para que essa pessoa possa ser ela mesma até o seu último dia, com sentido, até que a morte se apresente, até que a vida deseje ir, ela não precisa abrir mão de ser quem é.”
Entre os maiores equívocos que famílias e comunidades religiosas cometem ao tentar apoiar alguém em cuidados paliativos, Kurashiki aponta um que ele chama de captura, que é tentar ensinar o outro a viver sua própria experiência.
“Nós podemos ter empatia. Mas não podemos saber como é estar naquele lugar. Só aquela pessoa sabe o que é estar vivendo aquilo na pele.”
Ele conta outro caso marcante de uma médica o chamou porque uma paciente estava com medo de morrer. Quando Kurashiki foi conversar com ela, perguntou como estavam as coisas e a paciente disse “estou com medo de morrer.” A médica tomou a frente e respondeu: “Não precisa ter medo, todos nós vamos morrer um dia.” A paciente olhou e disse: “Mas eu estou morrendo agora.“

Foto: arquivo pessoal
“Tem um ineditismo nessa experiência que não podemos capturar. É o outro que vai mostrar o caminho de como quer e precisa ser cuidado“, explica. O conselho de Kurashiki para quem está ao lado de alguém em cuidados paliativos e não sabe o que fazer é não tente resolver.
“Não se cobre para ter as palavras que vão amenizar. Não se cobre para ter as atitudes que vão blindar a pessoa do sofrimento. Há coisas que vão sair do seu controle e a vida nos confronta com a nossa impotência. Mas se colocar com uma atitude compassiva já é um grande passo.”
Kurashiki distingue empatia de compaixão: a empatia é conectar-se com a dificuldade do outro, reconhecer que aquilo é pesado e a compaixão vai além, pois é o movimento em direção ao alívio daquele sofrimento. É colocar-se à disposição.
“E você, conhecendo essa pessoa e aprendendo com ela como ela gostaria de ser cuidada, vai ter os direcionamentos. Se torne um leigo da vida que está na sua frente, aprenda, seja curioso, observe, se coloque à disposição. Não reduza a pessoa à doença, pergunte dela, se interesse por ela e esteja com ela por quem ela é, não pelo diagnóstico que ela carrega.”
Ronny Kurashiki tem duas tatuagens nos braços. Em um, “Amélie Cour”: amor, em francês, em homenagem à filha mais velha, que tem seis anos. No outro, “Aimê Celavie”: vida, em francês, em homenagem à segunda filha, que ele e a esposa perderam antes de ela nascer.
A pequena Aimê tinha uma má formação congênita descoberta aos cinco meses de gestação e passou por muitos procedimentos invasivos. Ao sétimo mês, nasceu sem vida.
“Perder uma filha é uma experiência transformativa. Não tem como sair igual ou permanecer o mesmo nessa história.”
Ele cita um autor da psicologia que distingue dois tipos de experiência: as que agregam conhecimento e as que transformam. Viajar para um lugar novo, experimentar uma comida diferente, aprender a dirigir: são experiências que somam, mas não mudam quem você é. Ter um filho, perder um filho: essas transformam.
“Perder a Aimê mudou o meu olhar. Entendi naquela experiência o valor da vida, que não se mede em anos, que não se mede em número de memórias ou fotos. Ela, na sua curta passagem por aqui, me ensinou o quanto uma vida pode ser valiosa. Fico mais sensível a isso. Ao valor da vida. E fico mais presente.”
Ronny Kurashiki (CRP 08/21254) atua como psicólogo especialista em cuidados paliativos, psicologia hospitalar e cancerologia, e é mestre em bioética.
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