Circula a informação de que a Festa da Transfiguração do Senhor, celebrada em 6 de agosto, nasceu como comemoração de uma vitória militar contra os turcos otomanos. A informação está correta pela metade. O decreto papal existiu e teve essa motivação, mas ele não criou a festa. Segundo Vatican News, a celebração já existia há quase mil anos.
“A festa da Transfiguração recorda a dedicação das Basílicas do Monte Tabor, celebrada desde o fim do século V.”
O monte fica na Baixa Galileia, a cerca de 17 quilômetros a oeste do Mar da Galileia, e se eleva a aproximadamente 575 metros. A tradição cristã o identifica como o lugar onde Jesus se transfigurou diante de Pedro, Tiago e João.
Essa identificação é ainda mais antiga que a festa. A primeira associação desse mistério com o Monte Tabor remonta ao século III, em um Comentário ao Salmo 88 atribuído a Orígenes, teólogo morto por volta de 253.
Esta festa é posta relacionada à da Exaltação da Cruz (14 de setembro), da qual depende a sua data, marcada para 6 de agosto, 40 dias antes da Exaltação da Cruz. Entre ambas as celebrações decorrem quarenta dias que, em algumas tradições, coincidem como uma segunda quaresma. Assim, a Igreja bizantina vive esse período como um tempo de jejum e de contemplação da Cruz.
A festa levou séculos para atravessar do Oriente para o mundo latino. Ainda segundo Vatican News, a festa começou a ser celebrada, também no Ocidente, a partir do século IX, quando foi inserida no calendário romano pelo Papa Calisto III, em 1457: uma ocasião histórica pela feliz recordação da vitória contra os Turcos, ocorrida no ano anterior, que ameaçavam seriamente o Ocidente.
A vitória mencionada aconteceu em Belgrado, na atual Sérvia. Em julho de 1456 o militar húngaro János Hunyadi liderou a defesa da cidade, sitiada pelos otomanos. O franciscano São João de Capistrano, enviado pelo Papa como uma espécie de capelão militar, mobilizou grande número de cidadãos comuns para a defesa. Calisto III instituiu a festa para toda a Igreja de rito romano por meio da Carta Apostólica Inter divinae dispositionis, de 6 de agosto de 1457.
O ponto central da festa, naturalmente, é o mistério da Transfiguração. O episódio é narrado por Mateus, Marcos e Lucas. No relato de Mateus, Jesus levou Pedro, Tiago e João a uma alta montanha, onde “se transfigurou na presença deles: seu rosto brilhou como o sol, suas vestes tornaram-se resplandecentes de brancura”. Apareceram Moisés e Elias conversando com ele, e de uma nuvem luminosa saiu uma voz: “Eis o meu Filho muito amado, em quem pus toda a minha afeição, ouvi-O” (Mateus 17,1-9).
A narração da Transfiguração aconteceu logo depois da confissão de Pedro em Cesareia e do primeiro anúncio da paixão.” Os discípulos haviam se rebelado contra a ideia de um Messias que sofreria e morreria. A Transfiguração, “como antecipação da Ressurreição, aparece como um horizonte que visa aliviar o medo e dar coragem ao enfrentar o caminho da vida”.
Moisés havia pedido a Deus “Mostrai-me vossa glória” (Êxodo 33,18), e recebido como resposta “Não poderás ver a minha face… e continuar a viver” (Êxodo 33,20-23). No Tabor, “finalmente, com Jesus, sobre a montanha, Moisés pode ver a glória de Deus”.
A montanha carrega memória. A subida ao Horeb e ao Sinai se relaciona à experiência de Moisés e à de Elias, que ouviu Deus como “o murmúrio de uma leve brisa” (1 Reis 19,12). E a nuvem luminosa remete ao Êxodo, a nuvem que guiou o povo no deserto, a que cobriu o Sinai, a que acompanhava o tabernáculo.
Também a voz tem precedente. No batismo, apenas Jesus ouviu a voz do céu. Na Transfiguração, os discípulos ouvem: “Eis o meu Filho muito amado… ouvi-O.”
A reação de Pedro diante da cena, propor a construção de três tendas, segundo, Vatican News: “trata-se do impulso humano: quantas experiências ‘lindas’ nós também vivemos, a ponto de nos deixarmos arrastar e dizer ‘façamos três tendas…’, ‘paremos o tempo’.”
Corremos o risco de fazer apenas experiências emocionais, que nos tornam incapazes de ‘descer da montanha’, onde reina a concretude da vida. Mil e quinhentos anos de história litúrgica depois, é esse o núcleo que a festa preserva, muito anterior a qualquer batalha.
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