No verão do ano 55, um judeu eloquente desembarcou no porto de Éfeso vindo do Mediterrâneo oriental. Chamava-se Apolo, era “culto e tinha grande conhecimento das Escrituras” (Atos dos Apóstolos 18,24), pregava com ardor sobre Jesus Cristo e cativava os que o ouviam. O detalhe que o Livro dos Atos dos Apóstolos registra é que era “natural de Alexandria”. O texto bíblico ancora a narrativa do primeiro século em uma das cidades mais extraordinárias que o mundo antigo conheceu, e que existe até hoje, às margens do Mar Mediterrâneo, no norte do Egito.
Alexandria está situada no Delta do Nilo, no litoral norte do Egito, entre o Mar Mediterrâneo e o Lago Mariot. Ocupa uma posição estratégica que explica por que foi escolhida para nascer ali. Em 332 a.C., Alexandre, o Grande, em campanha contra os persas, parou em uma antiga aldeia de pescadores chamada Rakotis e determinou que ali fosse erguida uma nova cidade, projetada segundo um plano urbanístico regular, com largas avenidas perpendiculares, traçadas pelo arquiteto Hipódamo de Mileto. A cidade nasceu como porto e cresceu como capital, Após a morte de Alexandre, passou às mãos dos ptolomeus, a dinastia de generais macedônios que governou o Egito por três séculos, e tornou-se o centro político, comercial e intelectual do mundo helenístico.
No auge, Alexandria abrigava entre 500 mil e um milhão de habitantes, número comparável apenas a Roma no período. Seu porto era o mais movimentado do Mediterrâneo oriental, e sua posição no Delta do Nilo a transformou no eixo do comércio entre o Oriente e o Ocidente. Mas o que a tornava singular não era apenas sua riqueza, mas sua ambição intelectual.
A Biblioteca de Alexandria, fundada pelos ptolomeus no século III a.C., chegou a reunir mais de 500 mil rolos de papiro, tornando-se o maior acervo do conhecimento da Antiguidade. Matemáticos, astrônomos, médicos e filólogos vinham trabalhar ali. Eratóstenes, que calculou com extraordinária precisão a circunferência da Terra no século III a.C., dirigia a Biblioteca. Euclides desenvolveu ali os fundamentos da geometria que ainda são ensinados nas escolas hoje.
O Farol de Alexandria, erguido na ilha de Faros entre 300 e 280 a.C. pelo rei Ptolomeu I e concluído por seu filho Ptolomeu II, media entre 100 e 140 metros de altura e guiava os navios para o porto com um sistema de espelhos e fogo. Era uma das Sete Maravilhas do Mundo Antigo, e seu nome em grego originou a palavra “farol” em diversas línguas modernas. Uma série de terremotos, com o mais devastador registrado em 1303 e 1323, o destruiu progressivamente, até que em 1480 desapareceu por completo.

O Novo Testamento menciona Alexandria de maneiras distintas, e todas elas revelam o quanto a cidade era central no mundo em que Paulo, Pedro e os primeiros cristãos viviam e pregavam.
A menção mais desenvolvida é a de Apolo, em Atos 18,24-28. O texto apresenta um homem que reúne, em uma só figura, as marcas da Alexandria culta do primeiro século: é judeu, eloquente, versado nas Escrituras, instruído no caminho do Senhor. Quando Priscila e Áquila o encontram pregando em Éfeso, percebem que ele conhece a mensagem de Jesus, mas com lacunas, e o aperfeiçoam na fé. Apolo então segue para Corinto, onde se torna uma das vozes mais influentes da pregação cristã. A Igreja de Corinto, de fato, chegará a se dividir em facções que preferiam Paulo, Pedro ou Apolo – testemunho da força de sua pregação (cf. 1 Coríntios 1,12).
Alexandria aparece também na viagem de Paulo a Roma, narrada em Atos 27 e 28. Em Atos 27,6, o centurião que escolta Paulo “encontrou um navio de Alexandria que estava de partida para a Itália” e o fez embarcar. Após o naufrágio na ilha de Malta, a travessia recomeça: “Passados três meses, embarcamos num navio que tinha passado o inverno na ilha” e que trazia como emblema os deuses gêmeos Cástor e Pólux, era também de Alexandria (Atos dos Apóstolos 28,11). O fato de dois navios alexandrinos aparecerem em uma das narrativas mais dramáticas do Novo Testamento reflete a realidade comercial da época: Alexandria era o principal porto exportador de grãos para Roma, e seus navios cruzavam o Mediterrâneo constantemente.
A tradição cristã, tanto oriental quanto ocidental, atribui a fundação da Igreja em Alexandria ao evangelista São Marcos. Enviado por Pedro para evangelizar o Egito, Marcos teria chegado à cidade e fundado a comunidade cristã local, construindo até uma igreja dedicada a São Pedro. Sua pregação gerou ressentimento entre os pagãos, e ele foi preso, arrastado pelas ruas com uma corda ao pescoço e morreu martirizado. Seus restos mortais foram levados para Veneza em 828, onde até hoje repousam na Basílica de São Marcos.
A Igreja fundada por Marcos se tornou um dos centros mais influentes do Cristianismo primitivo. Até o Concílio de Constantinopla, em 381, a Igreja de Alexandria ocupava o segundo lugar na hierarquia eclesiástica, logo abaixo de Roma. Seus bispos e teólogos moldaram o Credo que os católicos rezam até hoje.
Foi em Alexandria que, por volta do ano 190, surgiu a chamada Escola Catequética, também conhecida como Didascalium. Nela ensinaram Clemente de Alexandria e Orígenes, dois dos maiores intelectuais do Cristianismo primitivo, que desenvolveram a teologia cristã em diálogo com a filosofia grega. Atanásio de Alexandria, que governou a sé por 43 anos no século IV, foi o principal defensor da divindade plena de Cristo contra o arianismo, o mesmo erro condenado no Concílio de Niceia (325): a heresia que afirmava que o Filho não era coeterno ao Pai nasceu também em Alexandria, com o sacerdote Ário, e foi em Alexandria que encontrou sua refutação mais tenaz.
A cidade que abrigou a Biblioteca mais famosa da Antiguidade, que viu Apolo aprender as Escrituras e que recebeu São Marcos com o Evangelho, existe e é grande. Com mais de 7,2 milhões de habitantes (estimativa de 2025), Alexandria é a segunda maior cidade do Egito, atrás apenas do Cairo, e ocupa uma área de cerca de 591 km². É o principal porto do país e responde por grande parte do comércio egípcio com a Europa.

O visitante encontra poucos vestígios visíveis do esplendor antigo: a cidade cresceu sobre as ruínas e o que sobreviveu está em boa parte submerso no mar. Os terremotos medievais afundaram partes inteiras do litoral e mergulhadores já identificaram restos do palácio real ptolomaico no fundo da baía. No lugar onde ficava o Farol, ergueu-se no século XV a Cidadela de Qaitbay, que ainda está de pé e abriga hoje um centro histórico restaurado. A Biblioteca de Alexandria ganhou, em 2002, um sucessor simbólico: a Bibliotheca Alexandrina, um complexo cultural e de pesquisa projetado por arquitetos internacionais, que homenageia a memória da instituição original e hoje é um centro ativo de estudos e eventos.
A grande cidade do saber humano, que reuniu os maiores intelectuais do mundo antigo, que produziu matemáticos e astrônomos, que abrigou a maior biblioteca da Antiguidade, foi também o lugar onde o Evangelho encontrou raízes profundas, onde São Marcos pregou e morreu, onde a teologia cristã ganhou os instrumentos para se articular diante do mundo greco-romano.
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