Fotos: site Caminho de Nhá Chica
Há mais de cem anos, fiéis percorrem os caminhos do Sul de Minas Gerais em direção a Baependi, a pé, pela estrada de chão, entre cachoeiras, grutas, serras e capelas, atraídos pela memória de uma mulher analfabeta, filha de uma pessoa escravizada, que nunca cobrou nada de ninguém e que passou a vida inteira dizendo que tudo o que fazia era porque rezava com fé. Essa se tornou Beata Nhá Chica.
Seu nome de batismo era Francisca de Paula de Jesus. A Igreja Católica a venera como Beata desde 4 de maio de 2013, quando o Cardeal Ângelo Amato, enviado pelo Papa Francisco, presidiu a cerimônia de beatificação em Baependi.

Nhá Chica nasceu em Santo Antônio do Rio das Mortes, distrito de São João del-Rei (MG), e foi batizada em 26 de abril de 1810. Aos oito anos, mudou com a mãe e o irmão Theotônio para Baependi, cidade do Sul de Minas. Dois anos depois, a mãe morreu. Os dois irmãos cresceram sozinhos, sob o que Nhá Chica sempre descreveu como a proteção de Nossa Senhora, a quem chamava carinhosamente de “Minha Sinhá”.
Ela nunca casou e viveu reclusa em sua pequena casa, a vida inteira atendendo quem a procurava: dos mais pobres aos conselheiros do Império, que passavam pela região por causa das Águas de Caxambu e não deixavam de ir a Baependi ouvir seus conselhos. Ela não cobrava nada e nem aceitava presentes e ainda dizia que a Nossa Senhora lhe indicava o que deveria dizer.
Em 1865, ao receber a herança do irmão que havia morrido, usou o dinheiro para construir uma capela em honra a Nossa Senhora da Conceição, de quem era devota fervorosa, e doou o restante aos pobres. O único dia em que não atendia ninguém era a sexta-feira, pois reservava para lavar suas roupas, rezar e recordar a Paixão de Cristo.
Nhá Chica morreu em 14 de junho de 1895, com cerca de 85 anos. Já era chamada de “A Santa de Baependi” muito antes de morrer. Segundo os relatos, de seu corpo exalava um perfume de rosas. Como escreveu o Cardeal Dom Orani João Tempesta, Arcebispo Metropolitano do Rio de Janeiro, em texto publicado no Vatican News:
“Nascida aqui no Brasil e com uma vida humilde, Nhá Chica era temente a Deus e vivia de maneira austera e piedosa. Procurava conversar com todos e apontar o caminho para se chegar até Deus. Muitos a procuravam para conversar e pedir conselho, e ela orientava essas pessoas através daquilo que escutava de Nossa Senhora em seus momentos de oração.”
O processo de canonização de Nhá Chica teve início em 1952. Em 2012, o Papa Bento XVI assinou o decreto reconhecendo suas virtudes heroicas. No ano seguinte, em 4 de maio de 2013, ela foi beatificada em Baependi, em celebração presidida pelo Cardeal Ângelo Amato, em nome do Papa Francisco.
O milagre reconhecido pelo Vaticano para a beatificação foi a cura de uma professora de Caxambu (MG) que sofria de um problema congênito no coração. A mulher se curou de forma inexplicável pela ciência em 1995 e atribuiu sua recuperação às orações direcionadas à Nhá Chica.
Para a canonização, o próximo passo seria o reconhecimento de mais um milagre atribuído à sua intercessão após a beatificação. O processo segue sob a responsabilidade da Diocese da Campanha, atualmente conduzida por Dom Pedro Cunha Cruz. Enquanto o processo avança, a devoção popular não para, com graças e curas que são relatadas por fiéis de todo o Brasil. Papa Francisco, ao anunciar a beatificação, resumiu a grandeza dessa vida simples:
“Ontem no Brasil foi proclamada Beata Francisca de Paula de Jesus, conhecida como ‘Nhá Chica’. A sua vida simples foi toda dedicada a Deus e à caridade, tanto que era chamada a ‘mãe dos pobres’. Uno-me à alegria da Igreja no Brasil por esta luminosa discípula do Senhor.”

O Santuário de Nossa Senhora da Conceição da Beata Nhá Chica, em Baependi, é um dos principais destinos do turismo religioso em Minas Gerais. O espaço abriga os restos mortais da Beata, sua pequena casa, onde ainda são preservados móveis e utensílios originais, e um memorial dedicado à sua vida e obra.
É possível conhecer o minúsculo quarto onde ela recebia os fiéis que vinham ouvir seus conselhos e pedir intercessão junto a Nossa Senhora. Ao lado do Santuário funciona o Instituto Nhá Chica, obra de assistência social que acolhe mais de 160 crianças e adolescentes em situação de vulnerabilidade, uma extensão da caridade que ela praticou em vida.
A devoção à Beata ganhou forma também como rota de peregrinação estruturada. O Caminho de Nhá Chica é uma rota de 250 km que liga Inconfidentes a Baependi, passando por quinze municípios do Sul de Minas Gerais: Inconfidentes, Borda da Mata, Congonhal, Espírito Santo do Dourado, Silvianópolis, Careaçu, Heliodora, Natércia, Conceição das Pedras, Cristina, Dom Viçoso, Carmo de Minas, Soledade de Minas, Caxambu e Baependi.

Capela Nhá Chica – Bairro Romas/ Inconfidentes (MG)
A caminhada, que pode ser feita em ambos os sentidos, dura em média nove dias em um ritmo de aproximadamente 20 km por dia. O trajeto é descrito por peregrinos como “praticamente plano e bastante arborizado”, com os trechos entre cidades percorridos em estrada de terra. A chegada ao Santuário de Nhá Chica, em Baependi, é o ponto de destino e o momento mais emocionante de toda a jornada.

Na rota, a vista de Silvianópolis
Há ainda a Rota Nhá Chica – Caminho das Virtudes, desenvolvida pelo Sebrae Minas em parceria com nove prefeituras. Com 220 km ao longo da Estrada Real, o percurso vai de Tiradentes a São Lourenço, passando por Santa Cruz de Minas, São João del-Rei, Carrancas, Cruzília, Baependi, Caxambu e Soledade de Minas. Cada trecho recebeu o nome de uma virtude: Caminho da Castidade, Caminho da Prudência, Caminho da Fé, Caminho da Fortaleza.
“Esta é a ocasião, valei-me Senhora da Conceição!”: era assim que Nhá Chica rezava. Com essa frase, ela resumia tudo. Ainda como escreveu Dom Orani Tempesta, “que a Beata Nhá Chica nos anime a vivermos com eloquência a caridade cristã e a devoção mariana”.
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