Como é o catolicismo na Turquia?

Como é o catolicismo na Turquia? Igreja de São Teodoro, na Capadócio, turquia. Foto: Brocken Inaglory – Obra do próprio, CC BY-SA 3.0,

Éfeso, Antioquia, Niceia, Constantinopla… os nomes são familiares aos católicos: são as cidades onde a Igreja primitiva se reuniu, os primeiros concílios definiram o Credo, São Paulo pregou, os Apóstolos fundaram comunidades que duram até hoje no papel, ao menos. No território que corresponde à atual Turquia, o cristianismo faz parte da história, embora atualmente o país tenha uma das menores proporções de cristãos do mundo.

Em 1914, cristãos representavam entre 20% e 25% da população do território que viria a ser a República da Turquia. Em 1927, eram cerca de 2%. Hoje, as estimativas variam conforme a fonte e a metodologia: o Pew Research Center (2011) aponta 0,3% a 0,4% da população, o equivalente a entre 200 mil e 370 mil pessoas; a agência estatal turca Anadolu Agency (2020) estimou 480.854 cristãos, o equivalente a 0,5%; e o relatório do Departamento de Estado dos Estados Unidos sobre liberdade religiosa internacional (2022) indica 0,2%. A imprecisão acontece por não existir um censo religioso oficial, o que torna qualquer número uma estimativa.

A queda foi o resultado de décadas de violência, discriminação e expulsão sistemática. Os Massacres Hamidianos (1894-1896) e os genocídios armênio, grego e assírio perpetrados pelo Império Otomano e reconhecidos por organismos internacionais, a troca de populações entre a Grécia e a Turquia em 1923, o imposto discriminatório Varlık Vergisi de 1942, cobrado principalmente de não-muçulmanos, e o pogrom de Istambul de 1955, que destruiu igrejas, casas e negócios de gregos e armênios. Cada um desses eventos retirou camadas da presença cristã num território que havia sido seu por séculos.

Quem são os cristãos na Turquia

A comunidade cristã turca atual é heterogênea e dispersa. Os maiores grupos são os cristãos ortodoxos orientais, seguidos pelos católicos romanos, estimados em cerca de 25 mil a 35 mil fiéis. Há ainda armênios apostólicos, protestantes e outras denominações menores.

Interior da Igreja de Santo António de Pádua, em Istambul. Foto: Tekkol / Shutterstock.com

Segundo o Arcebispo Martin Kmetec de Izmir, em entrevista em março de 2024, a Arquidiocese conta com cinco mil católicos. Na região, São Paulo pregou, existiu uma das sete igrejas do Apocalipse e o Apóstolo João é venerado. 

A situação dos cristãos na Turquia já não envolve perseguição física sistemática, mas inclui obstáculos estruturais sérios e bem documentados. A ACN registra que 50 propriedades da Igreja Ortodoxa Siríaca foram confiscadas pelo Estado. A conversão da Basílica de Santa Sofia em mesquita, em 2020, foi recebida como um sinal de retrocesso e provocou reação formal do Vaticano e do Papa Francisco, que expressou “tristeza” pela decisão.

Igrejas não têm personalidade jurídica reconhecida pelo Estado turco, o que impede a posse formal de propriedades. O Seminário Teológico de Heybeliada, escola que formava clérigos ortodoxos em Istambul, permanece fechado pelo governo desde 1971, sem perspectiva de reabertura.

A pressão social sobre os cristãos nativos, os chamados “turcos cristãos”, aqueles que se converteram do islã, é particularmente intensa. Como registra a Wikipedia, muitos escondem sua fé por medo de represálias familiares e discriminação social.

A terra dos Concílios e a visita de cinco Papas

Paulo VI foi a Turquia em 1967, João Paulo II em 1979 e Bento XVI em 2006. Papa Francisco em 2014, quando presidiu Missa na Catedral Católica do Espírito Santo, em Istambul, visitou o Museu de Santa Sofia e rezou na Mesquita Sultan Ahmet. Em novembro de 2025, o Papa Leão XIV realizou sua primeira Viagem Apostólica à Turquia e ao Líbano por ocasião do 1.700º aniversário do Concílio de Niceia, convocado pelo imperador Constantino em 325 d.C.

O objetivo da viagem de Leão XIV era “promover a fraternidade e o diálogo entre o Oriente e o Ocidente” e seguir os passos de seus predecessores num território que, para a Igreja, nunca deixou de ser sagrado.

Em cada visita papal à Turquia, o pedido se repete: que os cristãos tenham direitos plenos de cidadania, que as igrejas sejam reconhecidas juridicamente, que o Seminário de Heybeliada seja reaberto, que o diálogo inter-religioso avance.

Papa Francisco e o Patriarca Ecumênico Bartolomeu I na Igreja Patriarcal de São Jorge, em Istambul, no ano de 2014. Foto: Alexandros Michailidis / Shutterstock.com

Na visita de Francisco em 2014, o Papa falou:

“Penso em tantos cristãos, muitas vezes obrigados a abandonar as suas terras ou a habitá-las sem ver reconhecidos os seus direitos, sem gozar de plena cidadania. Por favor, empenhemo-nos para que quantos fazem parte da sociedade possam tornar-se cidadãos de pleno direito.”

Niceia ainda existe. Chama-se agora İznik, uma cidade de 30 mil habitantes no noroeste da Turquia. A basílica onde os Padres da Igreja definiram o Credo em 325 é hoje uma ruína parcialmente submersa num lago. Mas o Credo que ali foi formulado, o mesmo que os católicos recitam a cada domingo, atravessou dezessete séculos.

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